Tese Doze: Respondendo Sabrina Fernandes respondendo às feministas radicais

A gente deu uma arrumadinha no texto da Sabrina Fernandes. O original saiu com uns errinhos (umas confusõeszinhas, na verdade), mas é uma ótima contribuição para o feminismo radical, ajudando a desfazer uma confusão enorme que rola com os abolicionismos que defendemos: o da prostituição, o penal e o de gênero (e tem também – da exploração animal!). A Angela Davis, por exemplo, sempre defendeu o abolicionismo penal, e hoje não concorda com outras pautas do feminismo radical, e nem com os fundamentos da teoria radical. Mas também, como Sabrina bem lembrou, Angela Davis não é perfeita. Toda teórica e militante tem o direito de rever sua opinião e mudar de posição, e tem que haver espaço para debate também dentro das correntes. Também é possível romper com as correntes (inclusive as teóricas).

O abolicionismo penal é uma pauta importantíssima que muitas de nós nós continuamos levantando e defendendo junto com ela. Achamos incoerente, no entanto, a forma como ela enxerga gênero. Não só em relação ao feminismo radical, mas também com o marxismo, por entender que esse conceito de gênero rompe com qualquer forma de materialismo e se torna idealista ou pós-moderno (a depender de como é utilizado). Mas o (seu) texto, Sabrina, é realmente muito bom, e por isso compartilhamos aqui com as alterações necessárias. Valeu, companheira! Seguimos juntas na luta pelo fim do capitalismo, do racismo, patriarcado, especismo e de toda a forma de opressão.

Stories by Sabrina, revisão by Blogueiras Radicais

1. Angela Davis trabalha com materialismo histórico. Sua definição de abolição, que é a que usa para falar de prisões desde sempre, vem daí.

Abolição no feminismo radical não significa proibicionismo. Por exemplo, quando se fala de abolir a prostituição dentro do feminismo radical, a perspectiva não é focada em proibir a prostituição ou encarcerar pessoas envolvidas, mas alterar as condições materiais que sustentam a prostituição como atividade à qual muitas mulheres recorrem por ter suas escolhas e oportunidades limitadas.

Como sempre, o debate de qualquer abolição no feminismo radical passa pela auto organização e politização das pessoas envolvidas naquela luta. Por isso você vai ver feministas radicais apoiando a organização de trabalhadoras sexuais pessoas em situação de prostituição e trabalhadoras sexuais pessoas em situação de prostituição que se tornam feministas radicais. Um bom livro sobre isso é o Industrial Vagina, da Sheila Jeffreys. Esse discurso da Andrea Dworkin, que era sobrevivente de prostituição, também é muito bom.

É diferente da leitura do feminismo liberal – que usa o discurso do empoderamento individual (“Meu corpo, minhas regras”) para defender que o corpo é um bem de propriedade da mulher que ela deve ter autonomia para negociar no mercado nos seus próprios termos, sendo contra qualquer intervenção do Estado nessa relação. Um bom exemplo de um movimento liberal é a Marcha das Vadias, que sempre defendeu a regulamentação da prostituição como se fosse um trabalho.

2. Quando Angela Davis fala que ela é uma feminista abolicionista, ela quer dizer que não é uma feminista carcerária.

Há muito tempo ela critica o feminismo carcerário que vê no uso de forças punitivas uma ferramenta feminista. Ela é absolutamente contra essa lógica como padrão. O feminismo abolicionista da Angela Davis é o abolicionismo das prisões, e vem da lógica da abolição das estruturas de opressão.

E isso não tem nenhuma relação com sua afirmação recente sobre pessoas não-binárias e a comunidade trans em geral. Ela só diz “se podemos desafiar o binário de gênero, com certeza podemos mostrar resistência a prisões, celas e polícia”, por que, na opinião dela, são duas coisas (não relacionadas) que mostram que é possível desafiar o que é considerado normal para a sociedade.

3. Eu acredito que é importante dizer isso, porque li coisas como “Angela Davis foi cooptada pela teoria queer/Angela Davis tem medo de ser cancelada, então segue a agenda trans” e coisas assim.

Não vou entrar na minha enorme discordância com essa lógica que trata como se não existisse uma enorme chance de sofrer ameaças e retaliações violentas, ou, pior, ser considerada irrelevante e ter seu legado todo invalidado. Não faz sentido pra mim não levar isso a sério. Nega toda a história de opressão de mulheres e o desenvolvimento de formas de resistência. Por isso tudo, apesar das discordâncias em relação ao gênero, há muito mais concordância entre radicais e marxistas, e as marxistas não deveriam estar correndo para jogar as radicais na fogueira junto com o transativismo.

Mas pra além disso, faz todo sentido se decepcionar com essa posição que Angela Davis teve nessa fala e que ela tem há tempos, né gente. Poxa, a mulher tava aqui no Brasil ano passado mesmo e falou disso. Pessoal realmente presta atenção na obra da pensadora-militante viva mais relevante da nossa época? (Angela, como todo mundo, não é perfeita. Mas ela é dessa estatura sim!).

4. De certo modo, no marxismo há também abolição de gênero, mas é diferente da abolição de gênero de outras vertentes. [nota das editoras: tem mesmo? compartilha com a gente! seria uma aproximação bem interessante] Sim, é confuso, mas termos e conceitos são assim mesmos, e por isso a gente tem que sempre situar o contexto. Se não a pessoa vai ler Angela falando que é feminista abolicionista (prisional) e interpretar que é feminista abolicionista de gênero (no sentido da vertente feminismo radical).

Mas bora lá. Como assim abolição de gênero no marxismo?

Exatamente como as feministas radicais falam: desafiando a normalidade. O normal é binário de gênero. A abolição da opressão de gênero no feminismo radical passa por construir condições que não prendam mulheres a atividades de reprodução social, tornando a divisão de gênero sexual do trabalho obsoleta. Saca só? É da definição de Angela sobre tornar prisões obsoletas. Ou seja, não é via decretos.

5. E quando se trata especificamente da categoria gênero, é menos sobre afirmar a categoria e mais sobre como se libertar dela.

Isso, na questão racial, tem tudo a ver com a perspectiva do Frantz Fanon, que não é sobre reafirmar a racialidade, mas desracializar.

Como tudo no feminismo radical é dialético, ou seja, uma relação que trabalha com conflito, contradição, negação e rupturas na realidade (difícil, eu sei, mas tá tudo explicadinho no “A dialética do Sexo”, da Shulamith Firestone), o papel é de afirmar que existe uma condição de exploração organizada de acordo com gênero, raça e classe, mas sem se encontrar nessa afirmação em si o objetivo. O objetivo é uma sociedade que não se organiza a partir dessas diferenças para oprimir e explorar.

6. Mas como isso difere da abolição de gênero em outras vertentes? Pra começar, o feminismo radical parece ser a única vertente que propõe abolir o gênero. Baseado na questão de que o feminismo radical, que parte do materialismo histórico e dialético, não pensa a abolição do gênero mantendo a afirmação ideológica do gênero como binário (o que é desafiado especialmente pelo projeto de sociedade do feminismo radical, que propõe a superação da divisão da sociedade em dois – ou mais – gêneros). Não há no feminismo radical uma divisão entre sexo e gênero como fenômenos independentes em natureza, visto que o conceito de gênero pode ser compreendido como a relação social baseada no sexo. Como diria Simone de Beauvoir (que não é radical, mas ainda é uma referência importante pra gente: pensadora mais relevante da sua época, Beauvoir, como todo mundo, não é perfeita. Mas ela é dessa estatura sim!), no clássico “O Segundo Sexo”:Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino” (Volume 1, p. 9). Ambos passam por biologia e construção social, na medida em que estão necessariamente relacionados. 

Então nós concordamos com feministas marxistas que o patriarcado nos oprime em nossa condição de gênero. Nós concordamos sobre ter uma sociedade em que nossas roupas e brinquedos não sejam determinados a partir de padrões de gênero impostos.

Mas a ideia de abolição no feminismo radical não aceita a biologia como destino (nas palavras da Sheila Jeffreys – ou qualquer teórica feminista radical). Então a abolição se dá com mudanças estruturais que desafiam o machismo e também a norma binária e levam à extinção do gênero, não como retorno às classificações de macho e fêmea – ou a manutenção das categorias ‘homem’ e ‘mulher’ somadas à uma multiplicidade de novas identidades.

7. Isso significa que a abolição de gênero é o foco do feminismo radical, por ser o resultado do fim das estruturas de opressão (porque não queremos só alterar, né, Sabrina, a gente quer destruir mesmo, incluindo o racismo, o capitalismo e o especismo) e a desnaturalização das nossas perspectivas sobre gênero. E é por isso que a fala da Angela Davis deveria surpreender qualquer um que conhece o trabalho de Angela Davis, né gente?

A novidade deve ser só pra quem está conhecendo mais agora sobre Angela, sobre feminismo radical, sobre transativismo e sobre abolicionismo penal. E essa adaptação dos stories é apenas pra ajudar essas pessoas na compreensão (apesar dos limites didáticos de stories, né).

É isso.

Agora, gente, falando sério:

Pra quem chegou aqui sem ter visto a treta toda, foi o seguinte: A Revista Lesbi publicou uma matéria redefinindo lésbicas como ‘genitalésbicas’ e bissexuais que preferem pessoas de aparência feminina como lésbicas. Muitas lésbicas acharam uma bosta, com toda razão, e reagiram (aqui na QG Feminista tem muitos textos bons explicando o porquê da indignação). E aí uma galera que é marxista na economia mas pós-moderna no gênero achou ruim as lésbicas acharem ruim e entrou no meio muito agressiva e pouco feminista, convocando pra denunciarem em massa a página da QG (não só o texto acusado) e acusando geral de transfobia. 

Logo depois disso, as marxistas fizeram uma pesquisa acadêmica extensa (leia-se: jogaram no Google) e acharam algumas radicais decepcionadas com a Angela Davis, que já foi feminista radical, que deu uma declaração recente – mais uma né – falando sobre ‘não-binarismo de gênero’, e zoando as radicais que acham que a Davis pode estar assumindo essa posição por ter medo de ser cancelada. A gente aqui no Blogueiras não tem opinião formada sobre os motivos da Davis ter adotado essa visão pós-moderna de gênero, mas isso, como diria a própria Teseonze, é assunto pra outro vídeo. 

O que nos deixou com a pulga atrás da orelha aqui, é que na tentativa de atacar o feminismo radical, a Sabrina acabou defendendo, e muito! Ela explicou certinho como o abolicionismo que nós propomos (que realmente, não é o penal por que isso não é consenso interno nosso, embora muitas de nós sejamos sim abolicionistas penais) não é punitivista, não quer (e nem aceita) criminalizar e encarcerar pessoas em situação de prostituição, e busca na verdade transformar a sociedade para destruir as condições que causam a prostituição, que entendemos como um sintoma extremo da desigualdade e uma forma brutal de exploração da mulher. 

Só que ela usou o termo ‘feminismo marxista’! Não dá pra entender bem, por que quem procura feminismo radical+abolição da prostituição/do gênero encontra exatamente o que ela falou no texto, e não outra coisa. A menos que você considere só os tweets de pessoas confusas na internet (nesse caso, realmente o marxismo então seria um bando de moleque stalinista que quer mandar todo mundo pra Gulag…). E não explicou nem citou fonte de onde é que o feminismo radical teria defendido outra coisa, como, por exemplo, o encarceramento. A gente sabe que não cabe tudo num stories, e não estamos cobrando asterisco no rodapé e seguir as normas ABNT no Instagram. Mas, até como pessoas que assistem o Tese Onze da Sabrina Fernandes, por sermos muitas de nós também marxistas, veganas e ecossocialistas, a gente sabe que dá pra fazer uma boa divulgação científica e política, sem inverdades e ajudando a desfazer – e não a piorar – as confusões das pessoas, usando stories e tweets. Só que né, não foi isso que aconteceu aqui, dá pra reparar que foi escrito na correria (acontece!) e em muitos momentos a explicação fica tão bagunçada que não dá nem pra entender o que ela tá falando.

Diálogo saudável e crítica interna na esquerda só podem acontecer quando o objeto em si é criticado, não adianta combater um espantalho. Esse texto nosso, apesar da língua afiada (é o nosso jeitinho!) é um gesto de unidade, uma iniciativa pra abrir o diálogo. Deixamos claro desde já que não queremos que ninguém ataque a Sabrina em nosso nome, nem denuncie o Tese Onze ou as mídias sociais dela – consideramos isso uma atitude punitivista e uma afronta à liberdade de expressão  (sem falar que jamais desmerecemos uma mulher que tem tanto conteúdo bom e ajuda a divulgar o marxismo e militar pela esquerda). Quem, como a gente, ficar decepcionada ou sentir raiva do que foi colocado, é bem vinda a participar do debate escrevendo também – e podemos até publicar aqui no Blogueiras Radicais!

E fica o convite pra Sabrina: bora conversar com a gente sobre feminismo radical?

Post criado 38

7 comentários em “Tese Doze: Respondendo Sabrina Fernandes respondendo às feministas radicais

  1. As vezes é triste como mulheres tão inteligentes caem tão fácil nesse papo do queer. E pra variar, mulheres que são ditas feministas marxistas acabam por esquecer o materialismo de ‘ser mulher’.
    Não é a toa que aparecem “Erikas Hiltons” com tanta pompa para expressar sua misoginia tão a vontade no meio “””feminista”””.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo