Reprodistopia: Se ‘feminismo branco’ existisse, seria assim

por Adriane Rica e Marcelle Fonseca

A careta da Hillary tá aqui só pra representar quem é que lucra quando a gente defende “barrigas de aluguel” (se você não sacou, a bandeira ali atrás *esclarece*. A gente aqui do Blogueiras é a favor de #barrigaslivres de exploração

Feminismo branco não existe. O que as pessoas xingam de feminismo branco, na maioria das vezes, é uma coleção de falhas no feminismo, de situações em que a perspectiva das mulheres negras não foi considerada, ou espaços feministas onde as mulheres negras, por diversos motivos, não puderam estar. Não existe hoje um projeto de feminismo que seja só para as mulheres brancas, ou que tenha como bandeira a supremacia branca. Mesmo o pior tipo de feminismo liberal defende oportunidades para mulheres negras ou se preocupa em dizer que “não vê raça”. 

Esse termo, ‘feminismo branco’, tem sido mobilizado junto com outros para impedir debates, e acaba sendo usado como xingamento. É assim com os termos TERF (feminista radical que exclui trans, na sigla em inglês) e SWERF (feminista radical que exclui trabalhadoras do sexo, na sigla em inglês). Se você não gostou de alguma coisa, chama lá de ‘feminismo branco’ pra invalidar. ‘Feminismo branco’ também não significa ‘feminismo das mulheres brancas’, visto que se você for negra e não concordar com um ponto de vista popular, podem te acusar de estar fazendo feminismo branco, de ser feminista branca e, pasmem, até mesmo de ser branca.

Nomeie o problema: não é “feminismo branco”, é liberalismo

A gente aqui do Blogueiras Radicais segue a tradição de #NomearOProblema, então vamos lá: o que muita gente tem chamado de ‘feminismo branco’ na verdade é o feminismo liberal. Existe uma tolerância com o liberalismo que não existe em relação à branquitude, então trocam um termo pelo outro como tática pra passar a mensagem de que uma determinada posição – ou pessoa – é indesejada. Mas é o feminismo liberal que ignora a maioria das mulheres, que são as da classe trabalhadora, negras e brancas. E ele parece que é feminismo branco por que a nossa classe trabalhadora é majoritariamente negra. Feminismo como um projeto de libertação, por consequência, necessariamente passa por priorizar mulheres negras (não apenas as poucas Michelles Obama Oprahs Winfrey da vida, mas nossas mães, avós, colegas de trabalho, vizinhas).

Dito isso, se feminismo branco existisse, seria assim: 

E assim

Tava achando que #militou, mas #moscou🦟🦟

E assim

Antes de você apensar que estamos julgando o livro pela capa, já adiantamos que pesquisamos direito sim e estamos lendo o livro. Logo mais sai resenha.

E assim.

Da resenha: “Fraude, roubo de remuneração e repasses incompletos da remuneração ocorrem em abundância; cuidados médicos adequados são horrivelmente ausentes; e consentimento informado é depressivamente raro (…) O livro Barriga de Aluguel Total Já argumenta que precisamos de mais barrigas de aluguel, não menos.” Depressivo é ver alguém argumentando que é progressista, e pior, feminista colocar o interior dos corpos das mulheres para negociação no mercado.

A tecnologia reprodutiva de umas é a calamidade social de outras

Se você não consegue nem enxergar quem vai precisar suprir a demanda por úteros para “alugar”, com certeza não vai ver a calamidade social enfrentada pelas mulheres negras hoje. Não vai enxergar um exército de reserva forçado pela miséria e a falta de oportunidades a oferecer o interior de seus corpos para saciar o desejo de reprodução genética para os Kanyes West e Kims Kardashian, Paulos Gustavos e Thales Bretas. Só mesmo se você não consegue enxergar as mulheres negras pode apoiar a distopia que são as técnicas de reprodução assistida que dependem dos corpos negros e pobres para proteger as brancas e ricas da gravidez. Essa gente é tão perversa que não se limita ao salvadorismo branco que trafica crianças asiáticas para o ocidente, para exibir como troféus de diversidade, ou adotando crianças negras sem qualquer preocupação com dar uma educação compatível com a realidade de ser negro no mundo.

A @reproutopia de algumas parece ter saído direito das páginas de livros como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, em que a elite vive numa sociedade separada e enxerga como selvagens excluídos da civilização aquelas que se reproduzem por meio do sexo, da gestação e do parto. Ou pior ainda, a utopia dessas “feministas” parece vir direito d’A Ilha, o outro romance que também virou filme, em que as surrogates, aquelas que estão no lugar de, as que deixam de serem mulheres, sujeitas de direitos, para se tornarem barrigas-de-aluguel ou “portadoras de útero”, são escondidas dentro da divisão de classes, e se tornam, efetivamente, uma máquina de procriar a serviço de quem puder pagar.

Gênero neutro, feminismo neutralizado

Primeiro você ‘neutraliza’ o gênero da maternidade, fazendo a afirmação ideológica de que gestar e parir não têm a ver com mulheres, e portanto, não têm a ver com o feminismo. Nem todas as mulheres menstruam! Algumas têm pênis! Homens também engravidam! Esperma feminino. Neutralizado o gênero da maternidade, o feminismo se desarma fácil. Perde a sua capacidade de se rebelar por uma injustiça tão intimamente ligada à condição feminina, que é a exploração reprodutiva. Do centro das políticas feministas, passa à margem. Depois, para pagar de politicamente corretas, se reconhece que há um problema em relação a tecnologias reprodutivas opressoras como as barrigas de aluguel. E aí, com todo o cinismo que cabe, é proposta a solução: Precisamos de MAIS barrigas de aluguel, não menos! Barriga é gênero-neutra. Não é uma questão feminina, por que as barrigas podem estar em corpos que se identificam como qualquer gênero. Não é uma questão feminista.

O gênero é neutro. Será que a raça também?

Não há nada de progressista sobre barrigas de aluguel. Nada. A tendência de uma classe terceirizar o trabalho reprodutivo, de tal forma que rouba da outra a capacidade de cuidar dos seus, com suas barrigas de aluguel, babás e empregadas que são forçadas a deixar seus filhos sozinhos para cuidar de outras famílias, é de uma semelhança estarrecedora com a escravidão, com suas amas de leite e escravas domésticas. Escravidão é escravidão. Incluindo sexual e reprodutiva.

Feminismo branco não existe, mas se existisse, eu tenho certeza que seria exatamente igual a isso aí.

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159 comentários em “Reprodistopia: Se ‘feminismo branco’ existisse, seria assim

  1. Uma mulher submetida ao serviço de surrogate diante da pobreza, tem que dar seu sangue, suas células, seus nutriente pra gerar e parir para quem puder pagar, é bizarro, é triste, é indecente.
    As mulheres que podem pagar e o fazem, se esquecem que diante do seus próprios desejos tem questões éticas e morais para com todas as outras mulheres.

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