Tradução: Teoria e Políticas Queer e a Crítica Feminista Lésbica – Sheila Jeffreys

Nosso muitíssimo obrigada pra quem votou lá no Instagram na enquete que fizemos pra vocês escolherem o tema do próximo texto, em agradecimento às 1000 seguidoras que atingimos em só uma semana e meia! Hoje, na hora de publicação desse texto, já somos 1180 mulheres radicais lendo e discutindo ideias para construir uma nova sociedade sem gênero e sem exploração da mulher. O texto de hoje é o capítulo 2 do Entendendo Políticas Queer [Unpacking Queer Politics, para as íntimas]. A gente ficou até um pouco sentida de vocês preferirem uma tradução em vez de mais um Blogueiras Radicais Original®, mas a Sheilinha é realmente sensacional. Aproveitem esse maravilhoso textão, essa semana ainda tem texto novo by Adriane Rica aqui no blog!

Sobre a autora

Sheila Jeffreys escreve e ensina nas áreas de política sexual, políticas de gênero internacionais, e política gay e lésbica. Ela escreveu 10 livros sobre a história das políticas sexuais. Originalmente do Reino Unido, Sheila se mudou para Melbourne em 1991 para trabalhar como professora na Universidade de Melbourne. Ela tem sido ativamente envolvida em política feminista e lésbica, particularmente no assunto de violência sexual, desde 1971. Ela integra a ONG Coalizão Contra o Tráfico de Mulheres e Meninas, uma organização internacional.

tradução por Juliana Nasser Gimenez

As políticas queer surgiram em um clima bem diferente. No fim dos anos 80 e começo dos anos 90, o neoliberalismo estava em seu incontestável auge. Os anos 90 foram o tempo da TINA, There Is No Alternative (Não Há Alternativa), a famosa frase de Margaret Thatcher. Esse foi o tempo em que um capitalismo desonesto e desregulado estava permitido a apropriar-se dos recursos mundiais e a desregular as condições dos trabalhadores dos EUA à Austrália. Foi o tempo em que as políticas anti-racistas e feministas que haviam sido adotadas por autoridades da educação e por universidades no Reino Unido e nos EUA estavam sendo denunciadas como “politicamente corretas”. O termo “politicamente correto” foi um termo abusivo usado por muitos de forma automática e sem pensar, toda vez que eram lançados desafios a práticas que consolidavam os direitos e interesses de homens brancos ricos. Esse não foi um tempo auspicioso para a criação de políticas radicais, e de fato, as políticas queer adotaram a irascibilidade contemporânea com relação ao “politicamente correto”, e demonstraram as maneiras em que as políticas gays haviam se rendido aos imperativos econômicos da época.

Onde as práticas que gays liberacionistas haviam analisado como resultando da opressão foram mercantilizadas por interesses comerciais, como em casas de banho e cirurgia transexual, elas eram celebradas nas novas políticas queer, ao invés de criticadas. Um novo e poderoso setor econômico gay estava agora gerando considerável lucro com uma indústria de sexo gay de pornografia e prostituição. Seus interesses eram defendidos e legitimados teoricamente dentro das políticas queer. As políticas queer não eram anti-capitalistas contanto que o capitalismo fosse gay, ou que os lucros estivessem vindo de práticas consideradas “transgressoras”. Esse era um tempo bastante diferente. Esse capítulo examinará as origens, ideias e práticas das políticas queer e as maneiras pelas quais elas se distinguem daquelas da libertação gay e do feminismo lésbico. Ele analisará os componentes da coalizão queer e seu potencial revolucionário para as políticas lésbicas.

A cientista política americana Shane Phelan lista quatro fontes para o desenvolvimento das políticas queer. A primeira delas foi o fato de que “a guerra feminista do sexo exauriu muitas lésbicas e as levou a buscar novos lugares” (Phelan 1994:151). A segunda é a demanda de bissexuais pela inclusão nas comunidades gays e lésbicas. A terceira é o impacto da AIDS na criação de bases para alianças entre lésbicas e homens gays baseadas na simpatia das lésbicas pela situação de seus irmãos gays. Por último, ela diz, as ideias do pós-estruturalismo criaram a base para o desenvolvimento da teoria queer dentro da academia.

Há um nível surpreendente de concordância entre ambos os proponentes e detratores de que as políticas queer surgiram, em algum grau, das chamadas “guerras do sexo” feministas. Lésbicas que abandonaram a análise feminista radical lésbica da sexualidade entraram nas políticas queer, que foi fundada sobre a noção masculina tradicional de liberdade sexual. Essa visão tradicional é representada historicamente por aqueles senhores, como o Marquês de Sade, cujo poder e privilégio incluíam o direito de acesso livre a mulheres e crianças, tanto fora quanto dentro do casamento (Kappeler 1990).  A “liberdade sexual” dos homens foi santificada nas duas supostas revoluções sexuais do século vinte, que institucionalizaram o serviço sexual das mulheres aos homens dentro de ambos o casamento e a prostituição. O direito sexual dos homens, renomeado como a libertação da repressão e reivindicado como sendo biologicamente necessário pela ciência da sexologia, foi consagrado em um novo regime de libertação sexual (Jeffreys 1997b). A versão dos homens gays da ‘liberdade sexual” masculina é celebrada pelos teóricos queer, como Michael Warner, como o objetivo final das políticas queer (Warner 1999).

O viés da política queer em direção à celebração de uma agenda de liberdade sexual especificamente gay masculina é claro na coletânea feita pelo importante progenitor da teoria queer, Douglas Crimp, do Guy Hocquenghem’s Homosexual Desire (1978), que “pode muito bem ser o primeiro exemplo do que agora chamamos de teoria queer“, apesar de ter sido escrito duas décadas antes da teoria queer ter sido pensada (citado em Jagose 1998: 5). O livro de Hocquenghem, originalmente publicado em 1972, não contém nada sobre lésbicas ou mulheres. Esse é, de fato, um ótimo exemplo de um problema fundamental com palavras genéricas, tais como “gay”, “homossexual”e “queer“. Elas significam homens, a não ser que mulheres sejam explicitamente incluídas. O livro é um hino de louvor ao sexo público entre homens gays em lugares destinados à prática de “cruising” (prática predatória de homens gays de procura de parceiros sexuais), referida como “o encaixe de órgãos” (the plugging in of organs), algo que as mulheres achariam difícil de fazer.

As lésbicas feministas que lutaram contras as feministas radicais lésbicas nas guerras do sexo adotaram a agenda gays masculina de liberdade sexual. Algumas até tentaram fazer sexo público, mas essa prática não se popularizou (veja Smith 1992). Ao invés de colocar mulheres primeiro, e procurar valores da cultura separada que mulheres e lésbicas haviam criado, as “radicais do sexo”, como Phelan as chamou, “encontraram-se mais frequentemente em alianças com “minorias sexuais” não-lésbicas” do que com lésbicas feministas, e assim “Queer” eventualmente tornou-se o termo guarda-chuva que… cobre todas os parceiros de dança de Rubin” (Phelan 1994: 152). Os parceiros de dança de Rubin incluem sadomasoquistas e pedófilos. Ela renomeia pedofilia como “sexo entre gerações” para mostrar sua visão positiva dessa prática masculina. É apropriado que Phelan identifique as “guerras do sexo” como a primeira fonte das políticas queer, já que o repúdio ao feminismo radical lésbico parece ter sido fundamental. As críticas queer do feminismo lésbico são baseadas nos ataques lançados durante as “guerras do sexo” – isto é, lésbicas são anti-sexo. A teórica americana do sadomasoquismo, Pat (agora Patrick) Califia, descreve aqueles que eram participantes do movimento lésbico e gay e que eram críticos da prática como “arqui-conformistas com suas bocetas de papelão e seus pênis de angorá”(Califia 1994: 157). Suzanna Danuta Walters, na sua crítica incisiva das políticas queer em Signs, oferece descrição bem acurada da maneira como as políticas queer representam as feministas lésbicas – isto é, como entediantes, conservadoras e puritanas feias. 

Era uma vez um grupo de mulheres muito entediantes e feias que nunca haviam feito sexo, caminhavam bastante nas florestas, liam poesia ruim sobre deusas, usavam blusas de flanela, e odiavam homens (até mesmo seus irmãos gays). Elas chamavam a si mesmas de lésbicas. Então, felizmente, vieram esses homens chamados Foucault, Derrida, e Lacan, vestidos com roupas de meninas em grandes cavalos grandes. Eles falaram à essas mulheres tolas que elas eram politicamente corretas, rígidas, frígidas e puritanas que odiavam sexo, que simplesmente não conseguiam entender – era só um jogo afinal, era tudo sobre palavras e imagens, era tudo sobre mimetismo e imitação, tudo uma cacofonia de sinais levando a lugar nenhum. Ter uma política em torno de gênero era tolo, foi dito a elas, porque gênero era apenas uma performance. (Walters 1996: 844)

Nessa visão das políticas queer, foram os meninos pós-estruturalistas que vieram em resgate e mostraram quão sem sentido e desnecessário esse feminismo lésbico era. As políticas queer, então, foram criadas em oposição ao feminismo lésbico. A repulsividade do feminismo lésbico foi seu mito fundador.

A segunda fonte citada por Phelan foi a demanda por inclusão dos bissexuais nas políticas gays e lésbicas. Certamente a inclusividade das políticas queer é a principal razão propagada por seus proponentes para a utilidade da categoria “queer“, enquanto é também a principal razão de criticismo por seus detratores. A palavra “queer” foi adotada, seus proponentes explicam, porque era inclusiva e fácil de falar. Gabriel Rotello diz que ela supera a necessidade de continuar repetindo listas por cobrir a variedade dos membros da “comunidade” debaixo de uma palavra guarda-chuva: “Quando você está tentando descrever a comunidade, e você precisa listar gays, lésbicas, bissexuais, drag queens, transexuais (operados e não operados), fica inconveniente. Queer cobre tudo (Rotello, citado em Duggan 1995: 166). Escoffier e Berube dizem que uma nova geração adotou a palavra “queer” porque as outras palavras, “lésbica”, “gay”e “bissexual” são palavras “desajeitadas”, limitadas e talvez comprometidas, e porque a palavra expressa a natureza “de confronto” das novas políticas (citado em Duggan 1995: 171). “Queer” cobre, eles dizem aqueles “que foram feitos sentir perversos, estranhos, párias, diferentes e desviantes”, e que querem “afirmar igualdade definindo uma identidade comum à margem”.

Aquelas que ficaram mais indignadas com o novo termo foram as feministas lésbicas, que observaram que, apesar do termo ser supostamente inclusivo, ele parecia excluir especificamente lésbicas e lésbicas feministas. A experiência de lésbicas tinha sido de que palavras genéricas para a homossexualidade masculina e feminina rapidamente passavam a significar apenas homens. Livros inteiros foram escritos por homens gays sobre a “história homossexual” e sobre o “desejo homossexual” em que lésbicas não são mencionadas (Rowse 1977; Hocquenghem 1978). As palavras “homossexual” e “gay” não começaram significando apenas homens, mas acabou sendo assim por uma simples realidade política material, o maior poder social e econômico dos homens, o poder que permitiu homens definirem o que é cultura e tornar mulheres invisíveis. Para lésbicas, ter um nome específico para mulheres que amam mulheres tem sido crucial para a afirmar a existência e diferença de lésbicas, e para afirmar o orgulho lésbico baseado em não ser uma variedade inferior de homens gays, mas mulheres selvagens e rebeldes que recusam o status de subordinadas. De fato, lésbicas feministas lutaram muito, por vinte anos, para conseguirem colocar no mapa político a palavra que haviam escolhido para expressar suas específicas e diferentes história, cultura, prática e política. No fim dos anos 80, a palavra lésbica estava começando a aparecer no título de conferências sobre “História Lésbica Gay” ou “Literatura Lésbica e Gay”. A palavra “lésbica” estava até sendo colocada primeiro, e bem razoavelmente, considerando o apagamento histórico da existência lésbica. A adoção da palavra “queer” mudou tudo isso. A luta para conseguir incluir a palavra “lésbica” mal tinha sido ganha quando a mesa foi virada e lésbicas foram outra vez enterradas sob a palavra “queer“. Ativistas queer disseram a lésbicas que elas estavam inclusas na palavra queer, assim como muitos outros, como transexuais e sadomasoquistas, cujos interesses eram, pode-se argumentar, em completa contradição com os interesses da libertação das mulheres. 

Algumas descrições da coalizão queer incluíam apenas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Mesmo essa versão reduzida da inclusividade do queer coloca problemas. Tanto a bissexualidade quanto o transexualismo são formas de comportamento que haviam sido criticados por feministas lésbicas como sendo contrários aos seus interesses, ao invés de estarem em acordo. Apesar de bissexuais ocuparem um mesmo espaço que lésbicas, gays e transgêneros no entendimento mais comum da coalizão LGBT queer, não é de nenhuma forma óbvio que os interesses e objetivos de mulheres e homens bissexuais estão de acordo com os de lésbicas e gays. Certamente, dentro das antologias bissexuais há uma hostilidade considerável expressa contra o projeto feminista lésbico. Qualquer lésbica ou homem gay que questiona a consonância entre seus interesses políticos e os de bissexuais, provavelmente será acusado de ser “monossexista”- isto é, interessado apenas pelo mesmo sexo, e não ambos – “fascistas de gênero” – idem (veja Jeffreys 1999). Toda uma linguagem nova foi desenvolvida dentro das políticas bissexuais para atacar aqueles que colocam qualquer crítica à inclusão do “B” no LGBT.

A análise feminista lésbica não considera transexualismo como sendo um fenômeno progressista. Janice Raymond (1994) argumentou convincentemente que a cirurgia transexual é sobre controle social. A indústria médica que cresceu para lucrar com o transexualismo, impele aqueles que não se sentem confortáveis com as categorias politicamente construídas de gênero e sexualidade à mutilar seus corpos para se encaixar. Eu argumentei que a cirurgia transexual precisa ser entendida como uma prática cultural prejudicial e uma violação dos direitos humanos* (Jeffreys 1997b). Quanto mais inclusiva se torna a coalizão queer, mais difícil é para feministas lésbicas a aceitarem como sendo, em qualquer maneira, progressista. Uma formulação em um panfleto “Queer Power” diz o seguinte: “Queer significa foder com o gênero. Há heterossexuais queer, bi-queers, travestis queer, lésbicas queer, bichas queer, SM queers, queers que praticam fisting, em absolutamente todas as ruas desse nosso país apático” (citado em Smith 1992: 17). Uma vez que lésbicas definiram suas políticas precisamente em oposição ao imperativo heterossexual, “heterossexuais queer” não parecem ter de forma alguma preocupações similares. Similarmente, “SM queers” são uma inclusão problemática, uma vez que sadomasoquismo é uma prática que erotiza a dominação e a submissão que são vistas como resultado da heterossexualidade dominada por homens. Os círculos a serem incluídos em “queer” passaram a representar aquelas formas de comportamento que, de acordo com a análise lésbica feminista, resultam da supremacia masculina e da subordinação das mulheres, e que ajudam a manter tal subordinação. Uma política de aliança baseada na aceitação de qualquer um com uma sexualidade não usual ou que pratica auto-mutilação não poderia ser mais diferente daquela do feminismo lésbico, que é uma política baseada em amar mulheres, que busca derrubar as estruturas de poder masculino, incluindo uma sexualidade de dominação e agressão.

Está implícita na palavra “queer” uma política de desvio, e essa é outra forma em que é diretamente oposta ao feminismo lésbico. Há também teóricos gays que argumentam que a prática de adotar um termo de desprezo que especificamente conota marginalidade e exclusão, e que busca torná-lo um termo politicamente positivo, é equivocada. Stephen O.Murray, por exemplo, diz em sua crítica à teoria queer: “Primeiramente, eu recuso o termo “queer“, o qual não acho que pode ser atenuado” (Murray 1997). Enquanto as políticas queer celebram o status de minoria da homossexualidade, o feminismo lésbico definitivamente não vê lésbicas como sendo um minoria trans-histórica de em uma em dez pessoas, ou uma em vinte. A experiência dos anos 70, na qual centenas de milhares de mulheres no mundo ocidental escolheram recriar a si mesmas como lésbicas, é uma prova viva da falsidade dessa concepção. Lésbicas feministas têm sustentado que “qualquer mulher pode ser lésbica”, uma vez que lésbicas representam uma rebelião política contra a supremacia masculina, e são o próprio modelo a liberdade das mulheres.

A terceira fonte das políticas queer, segundo Phelan, é o ativismo americano contra a AIDS. Homens gays ativistas viram sua raiva crescer com a forma que seus interesses estavam sendo ignorados pelo governo americano particularmente na área de distribuição de medicamentos para melhorar as condições daqueles acometidos pela AIDS. De acordo com Simon Watney, fundador do grupo britânico de políticas queer Outrage, esse foi o ímpeto para o ativismo queer. Esse foi um novo ativismo vindo da raiva, criativo, com objetivo de “jogar na cara” e de fazer barulho. A originalidade das práticas ativistas das políticas queer foi questionada por críticas feministas. Elas apontaram que práticas similarmente ultrajantes já vinham sendo centrais, há muito tempo, ao feminismo e ao feminismo lésbico, desde os protestos do Miss World à invasão da House of Lords conduzida por lésbicas envolvidas em desafiar a Cláusula 28 do Ato Governamental Local (Local Government Act) de 1987, que bania a “promoção da homossexualidade”. Esse ativismo recentemente revigorado ganhou fundação teórica, como nota Phelan, da teoria pós-estruturalista que invadiu as universidades nesse período.

Teoria Queer

As variedades do pensamento pós-estruturalista que inspiraram a teoria queer foram as ideias de Michel Foucault e um Freudianismo reenergizado. O trabalho de Foucault foi uma fonte popular da teoria queer porque ele era gay, sadomasoquista, e, convenientemente conseguiu excluir mulheres de suas preocupações. Surpreendentemente, o freudianismo se tornou popular apesar do fato de que gerações anteriores de ativistas gays e lésbicas terem rejeitado Freud, e a psicanálise em geral, por serem hostis aos interesses dos homossexuais.

Do pós-estruturalismo, a teoria queer toma a celebração da falta de convicção teórica sobre identidade, ou sobre qualquer outra coisa, e a celebração da “diferença” por si só. Joshua Gamson expressa isso como segue: “O desafio final da identidade queer, contudo, não é apenas questionar o teor das identidades coletivas, mas questionar a unidade, estabilidade, viabilidade e utilidade política das identidades sexuais – mesmo enquanto são usadas e assumidas” (Gamison 1996: 404). A determinação pós-modernista de recusar a certeza da identidade foi empregada por alguns teóricos queer para anunciar a sentença de morte do lesbianismo. Assim, Collen Lamos, na coletânea The Lesbian Postmodern, escreve: “a lésbica pós-moderna não é uma outra lésbica, mas o fim do lesbianismo como conhecemos – como uma distinta orientação sexual de uma minoria” (Lamos 1994: 99). Sua definição de lésbicas queer, contudo, é surpreendentemente precisa, e revela preocupações notavelmente diferentes daquelas do feminismo lésbico. Lamos descreve a cultura lésbica queer como sendo derivada da indústria do sexo e da cultura de homens gays: “A comercialização e estetização da sexualidade lésbica, manifestada na na proliferação de brinquedos sexuais, pornografia, estilo sexual butch/femme, práticas sexuais s/m, sexo por telefone – muitas das quais foram adotadas por homens gays – atestam uma cultura lésbica queer que borra as distinções entre o masculino e feminino e entre a sexualidade gay e heterossexual” (p. 94). Assim, parece que apenas a identidade lésbica feminista precisa ser desconstruída.

Eu sugiro que a identidade lésbica feminista é uma construção social, assim como a identidade lésbica; mas isso não significa que ela deve ser abandonada. Uma lésbica é um produto de um momento histórico particular. Na criação da heterossexualidade como uma instituição política, o lesbianismo foi jogado para fora. Lésbicas são ambas mulheres independentes que reusam a heterossexualidade e aquelas outras que podem assustar mulheres levando-as em direção à heterossexualidade. O lesbianismo precisa existir agora para prover um refúgio àquelas mulheres que se rebelam, e como base para um movimento de mudança social. A desconstrução da identidade na teoria queer tem sido criticada por dificultar uma ação política, já que pessoas que definitivamente não tem certeza de quem e do que elas são não formam uma força política revolucionária poderosa. Mas no futuro, quando a opressão das mulheres não existir mais, e a heterossexualidade como uma instituição política não tiver mais um papel político crucial, as possibilidades abertas às mulheres provavelmente serão bem diferentes.

A teoria queer criou seu próprio canhão de teóricos, incluindo algumas mulheres bastante significantes. Judith Butler foi creditada por muita da celebração determinada da teoria queer ao desafio do essencialismo visto como sustentação do ódio aos homossexuais, a partir da “performance”de gênero. Annamarie Jagose explica que “queer descreve gestos ou modelos analíticos que dramatizam incoerências na suposta relação estável entre sexo cromossômico e desejo sexual” (Jagose 1998: 3). Ao “demonstrar a impossibilidade de qualquer “naturalidade” da sexualidade”, a teoria queer “coloca em questão mesmo termos aparentemente não problemáticos como “homem” e “mulher”” (ibid.). O que é intrigante sobre o grande respeito dirigido a Butler é o fato de que o que ela diz é extremamente não original. Resistência aos entendimentos essencialistas sobre gênero tem sido fundamental ao feminismo desde o fim dos anos 60. Mas essa resistência tem sido usualmente expressa em uma linguagem mais direta e de forma mais libertadora, como a necessidade de eliminar o gênero, ao invés de brincar com ele. Mas a determinação de Butler de agarrar-se ao gênero ao invés de abandoná-lo, pode ser explicada em termos de sua própria prática. Ela explica em uma entrevista em uma antologia sobre transgeneridade, Reclaiming Genders, que ela “se situava” “em uma relação com ser butch em seus vinte anos, e que teve  “uma ativa e complicada relação com ambos o discurso sobre butch/femme e o discurso sobre S/M por provavelmente quase vinte anos” (More 1999: 286). Ela “negocia” sua identidade em termos desses “discursos”. Aderir ao projeto feminista de livrar-se do gênero afetaria se estilo de vida escolhido.

Feministas lésbicas têm a tendência, não sem razão, de não mostrar simpatia com a inclusão de uma mulher heterossexual, Eve Kosofsky Sedgwick, que escreve apenas sobre homens gays, no ranking de teóricas “queer” mais importantes. Sedgwick é reconhecida como uma das mais importantes progenitoras e praticantes da teoria queer (Jagose 1998: 5). A heterossexualidade de Sedgwick, da qual ela não guarda segredo, foi atestada, em um recente fragmento de sua autobiografia, que é uma descrição do processo de terapia pelo qual ela passou após um tratamento de câncer de mama, A Dialogue on Love (1999).

Ela diz, “coisas queer são tão centrais na minha vida” (Sedgwick 1999: 9), mas o que isso poderia significar para uma mulher heterossexual? Sedgwick deixa bem clara sua prática heterossexual conservadora. Ela casou aos dezenove anos, e continua com o marido, fazendo sexo na posição missionária. Sua vida sexual é “um sexo baunilha, com frequência semanal, na posição missionária, à luz do dia, imediatamente após o banho, com uma pessoa do dito sexo oposto, com quem eu tenho sido casada há quase um quarto de século” (p.44). Sua fantasia de vida é sadomasoquista, ela diz, sobre “Violência e dor. Humilhação. Tortura. Estupro,” e sobre espancamento, em particular. Ela explica que tinha medo de seu pai, que era violento com seus filhos e a espancava. Mas ela diz que não age na direção de realizar qualquer um desses cenários que fantasia.

Seu marido, Hal, trabalha em outra cidade e só está em casa nos fins de semana. Ela vive com um homem gay por quem é “apaixonada” e com quem ela tem uma ligação “bastante apaixonada”, “bastante física, apesar de não fazermos sexo; e eu acho que o clima emocional do meu dia é frequentemente determinado pelo clima emocional de Michael” (p. 24). Seu amor por Michael significa que “Eu sou bastante viciada no brilho emocional de Michael. Eu costumo pensar que faria qualquer coisa para obtê-lo e mantê-lo” (p. 25). Sua subordinação emocional a esse homem gay é semelhante a que se requer de mulheres em relação a seus maridos de acordo com a heterossexualidade tradicional. Seu trabalho, tal como Between Men (1985), é sobre relações homem-com-homem e sobre sexo anal. Embora ela não esteja envolvida em sexo com homens gays, é um homem gay que ela ama e a que ela devota seu trabalho. Como ela explica: 

Do que tenho mais orgulho, eu penso, é de ter uma vida em que é impossível distinguir trabalho e amor. A maior parte do meu trabalho acadêmico é sobre homens gays, então pode parecer estranho a você que eu diga isso – não sendo um homem, e nem mesmo, eu não acho, sendo gay. Mas é tudo verdade. O trabalho é sobre sexo, amor e desejo… Bem, eu diria que uma coisa verdadeira sobre mim é que meu amor é por homens gays. (p. 23)

Ela não é modesta sobre suas realizações com relação à cultura e comunidade queer. Ela se descreve como sendo “um membro essencial e central da família queer”, e é gentil o suficiente para explicar pessoas queer a elas mesmas e aos outros “fazendo um grande trabalho de articulação e criação de um nova teoria queer, e de deixá-la atraente às outras pessoas” (p. 55).

O livro contém apenas um comentário sobre a relação de Sedgwick com mulheres. Uma seção, que está em letras maiúsculas, e parece representar a visão de seu terapeuta sobre as dificuldades de Sedgwick em relação a mulheres.

E DIZ QUE EM RELACIONAMENTOS COM MULHERES ELA SE DISSOLVE, DEIXA DE SER ELA MESMA (ELA AINDA É UMA MULHER?), TEM MEDO DE NÃO SER, DE NÃO TER UM EU, DE SER INADEQUADA/NEGLIGENCIÁVEL. COM “PESSOAS QUE NÃO SÃO MULHERES” ELA SE SENTE ESPECIAL, BASTANTE PODEROSA E ABUNDANTE. COM MULHERES ELA NÃO SENTE NENHUM PODER ESPECIAL (p.125)

Para feministas lésbicas, uma teoria criada por uma mulher heterossexual que se diz apaixonada por homens gays não é interessante. Suzanna Danuta Walters comenta que Sedgwick descreveu sua identidade como sendo a de um “homem gay”, e “isso não tem nem mesmo a ingênua honestidade das amigas-de-gays (fag-hag) que simplesmente se deleitam com a extravagância de homens gays. Sedgwick, a sujeita intelectual pós-moderno, não pode apenas se identificar ou simpatizar ou se aliar politicamente, ela precisa ser” (Walters 1996: 847). O principal problema da teoria queer, seu viés masculino, pouco provavelmente será desafiado por uma mulher que devotou-se teoricamente a celebrar homens gays a ponto de considerar que ela mesma se tornou um. A rejeição de Sedgwick de sua própria mulheridade e a dificuldade de se identificar com mulheres, são o oposto do amor entre mulheres que forma a base da filosofia e prática do feminismo lésbico.

Gênero e Teoria e Prática Queer

A noção Foucaulniana de “transgressão” é central à teoria queer. Dentro da teoria queer, a ideia de um ativismo revolucionário que possa desafiar as diferenças materiais de poder entre os sexos, das quais o gênero é simplesmente a expressão, foi substituída pela ideia, derivada do trabalho de Judith Butler, de que “transgressão” no nível de vestuário e performance é revolucionária e irá acabar com o sistema de “gênero”. Jeffrey Weeks, por exemplo, é uma entusiasta da importância da transgressão: “O momento da transgressão, no qual toda a ordem social é simbolicamente desafiada, é necessário, parece, para alcançar a cidadania. Essa é a atração da teoria queer e das políticas queer: elas dão uma justificativa teórica para a transgressão e práticas de dissidência e subversão sexual que desafiam a ordem simbólica” (Weeks 2000: 70). A transgressão é uma forma confortável de ativismo de clube noturno. Ela consiste na realização de práticas convencionais consideradas proibidas pela moral convencional, tais como sadomasoquismo e sexo público, ou em vestir roupas convencionalmente atribuídas a uma classe sexual enquanto se é membro da outra. A transgressão não exige mudança de leis, manifestações ou redação de cartas. Ela pode ser alcançada fazendo algo que alguns homens gays e algumas lésbicas sempre gostaram, rotulando-a como politicamente transformadora por si só. Assim, essas práticas de clubes noturnos, seja em roupas de borracha (referindo-se ao SM) ou roupas inapropriadas ao gênero, podem ser vistas como ação política. 

O sociólogo Stephen O.Murray, em sua crítica incisiva à teoria queer, é particularmente crítico da noção queer de que brincar com gênero é revolucionário, e da ideia de que “qualquer coisa feita por um subalterno é “resistência” – em particular, que “brincar com” gênero erode a organização social de dominação por gênero. Performances variantes e práticas discursivas não mudam sociedades” (Murray 1997). Ele sugere que deve haver menos celebração da “transgressão” e mais consideração sobre como os comportamentos que estão sendo celebrados derivam do auto-ódio internalizado dos “subalternos”.

Transgressão tem uma longa história entre homens de classes altas. No século dezoito, homens ingleses brincavam com performances de suas versões de sadomasoquismo no Hellfire Club. Algumas morais podem ter sido ultrajadas, mas a estrutura social da Inglaterra heteropatriarcal não estremeceu. A transgressão é um deleite dos poderosos, que podem se imaginar deliciosamente desobedientes. Ela depende da manutenção da moral convencional. Não haveria nada para ofender e a deliciosa desobediência desapareceria se uma mudança social séria acontecesse. Os transgressores e os moralistas dependem mutuamente uns dos outros, em uma relação binária de derrota ao invés de permitir mudança. Além disso, a transgressão depende da existência de subordinados sobre os quais a transgressão sexual pode ser dramatizada. Não é uma estratégia viável para a dona de casa, a mulher prostituída ou para a criança violentada. Estes são objetos da transgressão, não seus sujeitos.

A ideia de que as diferenças convencionais de gênero podem ser transgredidas levam Judith Butler e outros teóricos queer a celebrar e incluir nos rankings de ativistas queer homens gays que se vestem de drag, travestis, transexuais, mulheres que reproduzem os papéis de butch/femme e todos aqueles que usam características ou roupas designadas à classe sexual que não aquela em que foram criados. Essas ideias levam à noção de que deveria ser reconhecida a existência de muitos “gêneros”. Os muitos gêneros devem incluir, sob essa perspectiva, a lésbica butch ou a lésbica femme, o drag queen ou o dominante dentro do sadomasoquismo gay masculino, assim como a mulher heterossexual feminilizada ou o homem heterossexual masculinizado, além de outras combinações. Essa abordagem sobre gênero o desconecta da sua base material na opressão das mulheres. O problema se torna apenas uma escassez de gêneros.

A abordagem feminista radical/lésbica sobre gênero não poderia ser mais diferente. Ao invés de ver a tarefa política como a criação de mais e iguais oportunidades para representar masculinidade e feminilidade em diversas variedades, feministas radicais/lésbicas buscam abolir completamente o que tem sido chamado de “gênero”. Eu não sou fã da palavra “gênero”, e preferiria aboli-la em favor de expressões que se referem diretamente à fundação política da dominação masculina. Assim, prefiro descrever masculinidade como “comportamento de dominação masculina” e feminilidade como “comportamento de subordinação feminina”. Nenhuma multiplicidade de gêneros pode surgir a partir dessa perspectiva. Christine Delphy, uma teórica francesa de feminismo radical, expressa esse ponto de vista mais claramente (Delphy 1993). Ela explica que é bastante equivocado ver o problema com o gênero como sendo a atribuição rígida de certas qualidades e comportamentos, que poderia ser resolvido pela androginia, na qual os comportamentos de masculinidade e feminilidade podem ser misturados.

Os dois gêneros do presente, ela diz, são de fato os comportamentos de dominação masculina e submissão das mulheres. Com o fim da dominação masculina, tais comportamentos não teriam substância. Eles se tornariam inimagináveis, e seres humanos teriam de imaginar novas formas de relações que não incluíssem comportamentos que surgiram de um sistema político suplantado.

O entendimento do gênero como formas de comportamento de dominação e submissão põe fim à ideia de que podem existir vários “gêneros”. O que pode haver é apenas a expressão de dominância e submissão por diferentes atores. Os gêneros continuam sendo dois. A abordagem queer que celebra a “performance” de gênero e sua diversidade, necessariamente mantém os dois gêneros em circulação. Ao invés de eliminar os comportamentos de dominação e submissão, ela os reproduz. Assim, aqueles teóricos e ativistas que buscam performar gênero podem ser vistos como leais ao gênero, com uma participação na manutenção do sistema de supremacia masculina de gênero. Todos aqueles envolvidos com a política queer, cuja inclusão se baseia na performance da dominação masculina e submissão feminina por atores que não os usuais, drag, reprodução de papéis nas formas de butch/femme, travestismo e transexualismo, estão se engajando de comportamentos estritamente limitados no tempo. Seus comportamentos de escolha, as quais eles dão enorme atenção, investimento financeiro e partes de seus corpos, são anacronismos históricos. Essas pessoas estão também se engajando em um comportamento que vai em oposição ao projeto feminista de eliminação do gênero, e portanto, ajudando a manter aceitação do gênero. Assim, eles são companheiros incompatíveis para as feministas lésbicas, por completo.

É interessante considerar por que transexuais/transgêneros são incluídos tão determinadamente nas políticas “queer“, como se de alguma forma eles se encaixassem naturalmente com lésbicas e gays. A inclusão parece remontar a um entendimento precoce da homossexualidade como constituindo uma “inversão de gênero”. Cientistas do sexo dos séculos dezenove e vinte, tal como Henry Havelock Ellis, pensavam que homens homossexuais possuíam cérebro de mulher em corpos de homens e que mulheres homossexuais possuíam cérebro de homem em corpos de mulheres (Ellis 1913; Jeffreys 1997b). De qualquer forma que eles explicassem isso, e cromossomos ainda não eram compreendidos, está claro que eles viam o amor entre o mesmo sexo com sendo impossível a não ser que uma das partes fosse, essencialmente, do sexo oposto. Essa ideia da homossexualidade como inversão de gênero foi derrubada por ambos gays liberacionistas e lésbicas feministas, que afirmavam que parceiros do mesmo sexo poderiam se amar de maneiras que nada tinham a ver com as construções políticas de masculinidade e feminilidade.

A análise feminista lésbica do transexualismo tem sido perspicaz. O livro Transexual Empire (1994) de Janice Raymond continua sendo a explicação mais clara e convincente do diagnóstico e cirurgia de transexualidade como uma forma de controle social. Ela explica que psicólogos e cirurgiões eliminam qualquer crítica sobre o sistema de gênero, encaixando aqueles que não preenchem adequadamente os requerimentos de uma classe sexual na outra através de cirurgia e medicação.

Ao invés de ser em qualquer maneira “transgressiva”, Raymond mostra que a cirurgia transexual é uma prática totalmente conservadora, visando a manutenção da dominação masculina e da subordinação feminina ao dar apoio à ideia de que existem dois gêneros naturais nos quais todo mundo deve se encaixar. Na época em que foi escrito (no fim dos anos 70), lésbicas feministas esperavam que a prática da cirurgia transexual acabasse, conforme o sistema de gênero fosse deposto pelo ativismo feminista. Uma vez que as noções da naturalidade da feminilidade e da masculinidade fossem superadas, o transexualismo não teria significado. Mas a prática da cirurgia transexual não desapareceu.

O nascimento da teoria queer trouxe de volta a noção de inversão de gênero na compreensão da homossexualidade através da associação das políticas lésbicas e gays com o transexualismo na coalizão queer do movimento LGBT. Isso é particularmente surpreendente, já que o transexualismo tem sido, historicamente, um mecanismo de eliminação da homossexualidade. Homens gays e lésbicas que não foram capazes de lidar com a ideia de serem homossexuais têm sido cortados e medicados de forma a caberem no sexo “oposto”, para que possam ser vistos como pertencentes a uma heterossexualidade sombria e mutilada, ao invés da homossexualidade (veja Thompson 1995; Rees 1996). Enquanto sexólogos até os meados do século vinte conseguiam apenas colocar homossexuais numa categoria “transexual”, o desenvolvimento de métodos cirúrgicos e químicos nas décadas seguintes permitiram que homossexuais fossem transformados fisicamente. Ainda que nem todos que são cirurgicamente redesignados se apresentem claramente como homossexuais antes da cirurgia, para muitos, e para a maioria das mulheres envolvidas, é assim (Lothstein 1983; Devor 1999). Por que aqueles que escapam da homossexualidade através da cirurgia seriam vistos como inevitavelmente alinhados a lésbicas e homens gays, precisamente aqueles que formam a categoria que eles foram tão longe para evitar?

Mas mesmo as selvagens mutilações da cirurgia transexual são justificadas pela teoria queer. Um bom exemplo da justificativa queer/pós-moderna do transexualismo é um artigo por Susan Striker no jornal acadêmico queer, GLQ. Ele identifica o transexualismo com a política queer da seguinte forma: “Eu quero sugerir nesse artigo que transgenerismo pode ser, de fato, lido como uma interpretação heterodoxa do queer” (Striker 1998: 149). Ele fala sobre uma “geração de acadêmicos” que ele vê emergir, que pode explicar “a enorme profusão de posições de sujeito generificadas, geradas pela ruptura de “homem” e “mulher”, como um arquipélago de identidades surgindo do mar: FTM (female-to-male, feminino-para-masculino), MTF (male-to-female, masculino-para-feminino), eonista, invertido, andrógino, butch, femme, nelie, queen, terceiro-sexo, hermafrodita, tomboy, sissy, drag king, female impersonator (semelhante a drag queen), she-male, he-she, boy-dike, girlfag, transexual, travesti, transgênero, cross-dresser” (p. 148). 

Ele usa a teoria pós-estruturalista para justificar a natureza radical e transgressiva do transexualismo. Assim, ele vê o “fenômeno transgênero” como emergindo da, e testemunhando, “a brecha epistemológica entre os que dão significado ao gênero e os que são significados por ele”. Eles “rompem com, e desnaturalizam” o que ele chama de “realidade “normal” da modernidade ocidental”, particularmente a ideia de que gênero precisa estar unificado com um tipo particular de corpo. “O fenômeno transgênero” atingiu uma “importância crítica (e elegância crítica) ao ponto de providenciar um terreno para lutar contra a relação problemática entre os princípios de performatividade e uma materialidade que, apesar de inescapável, desafia a representação estável, particularmente quando experienciada por sujeitos corporificados” (p. 147). Quando interpretado, esse zumbido de palavras pós-modernas/queer significa que transexuais são radicais porque colocam genitálias cirurgicamente construídas em corpos que normalmente não as teriam, e fazem com que algumas pessoas fiquem confusas sobre o que é homem e o que é mulher. É importante emergir desse ofuscante e grandioso palavreado para considerar as implicações de colocar no cerne das políticas queer uma prática que visa a eliminação da homossexualidade.

O movimento de libertação gay e o feminismo mudaram o mapa conceitual da vasta maioria daqueles que se identificam como lésbicas ou gays, ao ponto de que é improvável que eles considerem sua homossexualidade como sendo relacionada com algum problema com gênero. Nós não nos vemos como tendo falhado em ser homens reais ou mulheres reais. mas o transexualismo tem um crescente papel importante na eliminação da homossexualidade. Isso é particularmente claro no rótulo psiquiátrico “disforia de gênero”. depois de ativistas gays e lésbicas terem tido sucesso em remover homossexualidade Diagnostic and Statistical Manual (Manual Diagnóstico e Estatístico) como sendo uma doença mental, em 1973, ela foi substituída em 1980 por algo chamado “disforia de gênero” (GID – gender identity disorder). O diagnóstico de disforia de gênero é aplicado a crianças que apresentam comportamentos que a América conservadora considera inapropriados, como meninos brincando com bonecas e meninas aprendendo a consertar carros. O DSM 4 especifica que um “desconforto” subjetivo experienciado por uma criança, que qualifica ela ou ele a um diagnóstico de GID, deve ser inferido pela “aversão a brincadeiras competitivas e agressivas e rejeição de brinquedos, jogos e atividades tipicamente masculinos” em meninos e por uma “forte resistência a vestir roupas femininas típicas” em meninas (Minter 1999: 10). Crianças são levadas a clínicas de identidade de gênero, que são um lucro fácil para a profissão de controle social que é a terapia, onde elas passam por tratamentos de aversão e outros métodos para mudar seus comportamentos para algo mais adequado a sua classe sexual. A vasta maioria delas ainda cresce para se tornar homossexual, e muitas outras para se tornarem bissexuais, passando por tratamento para GID ou não (ibid.). É claro pelos escritos dos psicólogos que administram a categoria da GID que é com a homossexualidade que eles estão preocupados e é ela que eles buscam prevenir. Como Lawrence Mass coloca, “a psiquiatria americana está… engajado em um longo, sutil processo de reconceitualizar a homossexualidade como uma doença mental com um outro nome – “a disforia de gênero em crianças”” (citado em Minter 1999: 12).

Na última década, o número de homens, mulheres, meninas e meninos se identificando enquanto transgêneros e buscando, ou aos quais estão sendo indicados, cirurgia e tratamento hormonal, parece ter aumentado. Uma das razões principais pode ser a grande circulação da ideia do transexualismo, com a qual jovens lésbicas e homens gays que não conseguem aceitar sua homossexualidade, ou tem razões para odiar ou rejeitar seus corpos, podem se identificar. A mídia mostra histórias de transexualismo com muito mais frequência. O sociologista Frank Lewins entrevistou 50 transexuais MTF (masculino-para-feminino) e se deparou com o fato de que 50 por cento deles “descobriu” que eram transexuais apenas quando viram um artigo na mídia sobre esse tópico (Lewins 1995). Os recursos da internet agora oferecem a ideia do transexualismo. Sophia Pazos, num artigo sobre serviços sociais com jovens transgêneros, diz que “A internet abriu a porta do armário para pessoas transgêneras” (Pazos 1999: 71).

Um componente crucial da atual promoção e expansão do transexualismo é a ideia de que existe algo como pessoa transgênera “real’ – isto é, não um homossexual ou apenas um lésbica butch ou um homem gay afeminado. Os profissionais da área da saúde que recomendam cirurgia para homens e mulheres, e os próprios cirurgiões, gostam de pensar que eles estão lidando com uma categoria definida que pode ser claramente reconhecida. Mas esse não é o caso. Eles estão de fato criando, a partir de suas ferramentas diagnósticas, a própria categoria a qual eles podem então afirmar que descobriram. O transexualismo é essencializado pelas próprias profissões de “ajuda”, que auxiliam tal construção. O manual dos Serviços Sociais com a Juventude Transgênera (Social Services with Transgendered Youth) deveria soar sinos de alarme para aquelas ativistas lésbicas e gays que gostariam de ajudar jovens lésbicas e homens gays a conservar seus próprios corpos e ter orgulho de amar pessoas do mesmo sexo. o manual tem objetivo de ajudar assistentes sociais a identificar a categoria já existente de ” transgêneros”. O editor do manual, Gerald P. Mallon, afirma que “crianças transgêneras fazem parte de todas as culturas, raças, religiões e experiências” (Mallon 1999: 2). Isso não explica, é claro, porque o fenômeno tem aumentado de acordo com a quantidade de publicidade em torno do assunto.

Os assistentes sociais são recomendados a se empenharem na “aceitação e afirmação positiva” de crianças transgêneras (Burgess 1999: 45). Eles não devem mostrar nenhum sinal de desaprovação ou buscar direcioná-las em direção à homossexualidade, por exemplo. Mallon nos conta que, ao mesmo tempo que “é importante que crianças transgêneras não sejam erroneamente classificadas como crianças gays ou lésbicas, apesar deles frequentemente se reconhecerem como tais antes de entenderem sua natureza transgênera, é também importante que crianças gays e lésbicas também não sejam classificadas como transgêneras” (Mallon 1999: 60). Mas na prática não é tão fácil fazer essa distinção. Isso é particularmente verdade com relação a jovens de minorias culturais étnicas, nas quais a homossexualidade é totalmente desprezada e o transgenerismo é mais aceitável. No caso de “Fasheed”, de quinze anos, a família era do leste da Ásia e muçulmana, e “O paciente estava ciente de que a homossexualidade era absolutamente proibida por sua religião, e seu pais haviam dito que a pena, caso fosse descoberto, poderia ser a morte” (Swan e Herbert 1999: 26)

Muitos relatos de pessoas transgêneras sobre suas motivações deixa bem claro que eles estavam desesperados para evitar se entenderem enquanto homossexuais, desesperados o suficiente se submeterem a cirurgias extremamente mutilatórias. 

A menos que aceitemos que existe algo como transexualismo real e essencial, uma noção que deveria ser antitética à teoria queer que é supostamente anti-essencialista, então a inclusão dessa categoria dentro das políticas queer parece realmente extraordinária. Ela desafia a política de orgulho pró-lésbicas e pró-gays em um movimento de libertação ao celebrar a castração daqueles que amam pessoas do mesmo sexo. A inclusão de transexuais também apoia a noção de que gênero é essencial, e as noções de gênero mais retrógradas nesse sentido.   

As noções pós-modernas e queer sobre gênero levaram ao desenvolvimento de uma forma de política de “gênero” que está em clara oposição ao feminismo, e serve para substituí-lo e apagá-lo. Uma organização americana chamada GenderPAC, formada em 1999, representa muito bem essas políticas de gênero antifeministas. A GenderPAC, apesar de dirigida por e para transexuais, desenvolveu uma ampla declaração sobre sua missão. Ao lê-la, é útil observar em que lugar espera-se que as mulheres se encaixem. Uma vez que “gênero” é um termo amplamente adotado por teóricas e ativistas feministas, pode-se assumir que seu uso aqui teria relevância aos interesses das mulheres, mas esse não parece ser o caso.

A GenderPAC é uma organização nacional de defesa que trabalha para assegurar o direito de todo americano ao seu gênero livre de estereótipos, discriminação e violência, independente de como eles se pareçam, ajam ou se vistam ou de como os outros percebam seu sexo ou orientação sexual. Nós estamos especialmente preocupados com o modo como a discriminação baseada em gênero se intersecciona com outros tipos de discriminação, incluindo a de raça, classe, origem étnica e idade. A GenderPAC acredita que o gênero deve ser protegido como um direito civil básico, e nós ansiamos pelo dia em que ele será universalmente respeitado e reconhecido como tal. (GenderPAC 2001)

Mulheres não são mencionadas no material da GenderPAC. Gênero não significa mulher aqui, significa transgêneros, a maioria dos quais são homens, e homossexualidade. Mulheres não são mencionadas nem mesmo na lista de categorias que a GenderPAC gostaria de ver conectadas com “gênero”. Tais categoria são raça, classe, origem étnica e idade, não mulheres. Mulheres, especialmente se estão tentando desmantelar a casa do gênero, poderiam ser vistas como um grande problema para essas políticas. O objetivo político da GenderPAC é consignar o “gênero” (os comportamentos politicamente construídos de dominação e submissão que resultam da dominação masculina) dentro do sistema legal americano como sendo algo que merece proteção. Esse é um objetivo completamente contraditório com o do feminismo. Mesmo uma feminista liberal que vê o problema do gênero como sendo sua rigidez, pode ter dificuldade com o que está sendo protegido aqui. Qualquer crítica ou confronto com a noção de alguém ou de alguma organização do que constitui o gênero poderá ser vista como discriminatória se a GenderPAC alcançar seus objetivos Eu tenho sido chamada de transfóbica ou generofóbica por apontar, em conferências, que o gênero precisa ser abolido. De acordo com a maioria das análises feministas de qualquer orientação política, a diferença de gênero é vista como a própria base da dominação masculina. A busca por eliminá-lo pode se tornar muito mais difícil se o projeto de proteção do gênero alcançar algum sucesso.

A Crítica Lésbica pela Teoria Queer

Nos últimos anos, a teoria queer e suas implicações para a ação política tem sido sujeitas a críticas por alguns sociólogos gays e por feministas lésbicas que não estão preparados para abandonar sua análise materialista para a satisfação do pós-estruturalismo. Essas críticas têm argumentado que a teoria queer é a filha de um certo momento histórico anti-libertação, e portanto, é individualista e anti-materialista, bem como sexista. Em seu livro Queer Theory and Social Action, Max Kirsch argumenta que a teoria queer torna a ação política por mudança social impossível. A teoria queer, ele diz, “emergiu dentro de um contexto institucional em que as críticas sociais radicais haviam se tornado antiquadas” (Kirsch 2000: 30). Ele vê a teoria queer, com sua “enfatização da impossibilidade da identidade e a relativização da experiência”, como surgindo de, e dando suporte a, um estágio do capitalismo que requer a construção de indivíduos independentes, para atingir “o objetivo econômico de criar lucro através da produção e de seu subproduto, o consumo” (p. 17). Ele diz que a teoria queer “desconstrói a comunidade coletiva, encoraja a apatia política e relativiza toda sexualidade e gênero” (p. 8). A teoria queer, ele explica, surgiu de um período particularmente conservador na academia. Embora raça, sexo, gênero e classe tenham se tornado “palavra de ordem no cenário universitário”, eles são considerados teoricamente ao invés de serem usados para “ enfrentar os fundamentos da estrutura sócio-política”.

O sociólogo Stephen O. Murray, num artigo intitulado “Cinco razões pelas quais eu não levo a “teoria queer” a sério”, ataca a teoria queer por ser uma pretensão intelectual ineficaz :”A “teoria queer” romantiza uma brincadeira intelectual ineficaz de “transgressividade” como uma substituta ao trabalho duro de mudar o mundo real” (Murray 1997). Ele chama a “fascinação por uma leitura idiossincrática de textos” de formas de “representações juvenis” e “aventureirismo pós-esquerdista infantil”. Ele considera o retorno do Freudianismo, sob a nova forma de “retórica Lacaniana”, um verdadeiro quebra-cabeça que requer uma análise do ponto de vista sociológico do conhecimento, e conclui: “Se e quando teóricos queer produzirem uma teoria que pareça explicar ou predizer algo além de representações textuais, eu darei atenção. Até lá, ciente como estou do silencioso Zeitgeis anti-empirista, estou satisfeito em ser considerado um cientista social pré-pós-moderno, cético, empirista e comparatista”.

O sociólogo Steven Epstein acusa a teoria queer de arrogante ao afirmar falsamente ter inventado o construcionismo social, e de falhar determinadamente a reconhecer suas origens na teoria sociológica das décadas anteriores. Alguns estudantes recentes da sexualidade, trabalhando fora da sociologia, ele explica, assumem que o conceito de construção social  “nasceu, como Athenas, completamente formado da cabeça de Michel Foucault” (Epstein 1996: 146). “Ao traçar suas linhagens só até Sedgwick e Foucault”, ele explica, os especialistas da teoria queer se arriscam a “reinventar a roda” (p. 157). Ele também critica os teóricos queer de produzir uma teoria rarefeita e abstrata pelo seu foco em “discursos e textos”, nos quais “questões cruciais sobre estrutura social, organização política, e contexto histórico” são deixados de fora (p.157). Claramente, alguns homens gays sociólogos, que tem raízes no socialismo e estão seriamente interessados em mudança social, têm sido tão impermeáveis ao fascínio da teoria queer quanto as feministas radicais e as feministas lésbicas.

Teóricas feministas radicais também se recusaram a sucumbir à obsessão institucional com o pós-estruturalismo, que domina muita da teoria acadêmica feminista. Teóricas feministas pós-estruturalistas como Chris Weedon (1987) e Linda Nicholson (1990) apresentam as ideias pós-modernas derivadas do trabalho de homens intelectuais franceses como se fossem um ramo do feminismo. Esse é um feminismo que também, com efeito, se sobrepõe a toda teoria feminista que veio antes, ao mostrar o quão essencialista e retrógrado é aquele velho estilo de feminismo. Somer Brodribb; e outras que contribuíram com a antologia Radically Speaking, censuraram em detalhes a teoria pós-estruturalista por sua misoginia, obscuridade e inutilidade para a análise da violência masculina (Brodribb 1992; Bell e Klein 1996). Acadêmicas feministas radicais acham bastante intrigantes as afirmações de Chris Weedon de que feministas radicais não gostam de, ou não fizeram, teoria, e acham o mesmo da lista de Weedon de grandes teóricos a partir dos quais feministas podem desenvolver suas teorias – todos homens, e quase todos franceses e quase todos gays. Todo esse descaso confiante de qualquer pensamento independente colocado por mulheres levanta a interessante questão do que é contado como teoria. Claramente, na visão de Weedon, Mary Daly, Andrea Dworkin e Catharine Mackinnon, as quais contribuíram significativamente com a teoria feminista lésbica, não são teóricas.

Talvez o motivo seja elas não serem homens, ou não se referirem respeitosamente ao modelo masculino, mas apenas os criticarem, ou por suas ideias não serem assimiláveis ao esquema masculino que ela considera legítimo. Como apontou o manifesto feminista radical Redstockings Manifesto em 1969, a tarefa da teoria feminista radical é derrubar as regras e regulamentos, os conceitos dos senhores, e criar uma teoria a partir da experiência das mulheres. “Nós consideramos nossa experiência pessoal, e nossos sentimentos sobre a experiência, como a base da análise da nossa situação comum. Nós não podemos nos apoiar nas ideologias existentes já que são produtos da cultura de supremacia masculina” (Redstockings 2000: 224). Não é fácil para teóricas feministas radicais e lésbicas aceitarem as ideias de homens que não só cresceram sob a dominação masculina, mas mostram que conservam intactas todos os conceitos patriarcais, como sendo realmente úteis para aquelas que buscam destruir o poder masculino.

No fim dos anos 90, um bom números de lésbicas feministas estavam se unindo em uma crítica em conjunto à teoria e políticas queer, particularmente em uma notável antologia, Cross Purposes (Heller 1997). Pode ter levado todo esse tempo para que os efeitos nocivos de uma política exclusivamente masculina se tornassem claros. As críticas de feministas lésbicas colocaram em questão a obscuridade da teoria queer, apontando que uma teoria política revolucionária precisa ser inteligível para os ativistas que ela serve. O feminismo lésbico buscou ser inteiramente compreensível, porque ele surgiu de, e buscava inspirar, um movimento político. Na antologia Cross Purposes, Lillian Faderman, uma teórica importante da história lésbica, explica a obscuridade da teoria queer no sentido de estar voltada a uma audiência bem diferente, aqueles que detém o poder acadêmico. Ela acusa a teoria de ser composta por jargões e estrutura de sentença herméticos e entediantes: “A linguagem que os acadêmicos queer usam por vezes parece transparentemente direcionada àqueles que lésbicas feministas costumavam chamar de “garotos crescidos” na academia. Os escritos de feministas lésbicas, em contraste, tinham por valores a claridade e a acessibilidade, já que seu propósito era falar diretamente à comunidade ao fazer isso, conseguir uma mudança efetiva”. (Faderman 1997: 225). A teoria queer, ela diz, “parece resolutamente elitista” (p. 226).

Muitas das autoras na antologia Cross Purposes lamentam as perdas sofridas pelo feminismo lésbico nos anos 90, que elas atribuem à prontidão de algumas lésbicas de se integrarem em uma política queer masculina. Mais e mais recursos cruciais à viabilidade de uma comunidade lésbica foram fechados: livrarias, cafés, galerias e jornais. Sue-Ellen Case lamenta os efeitos na comunidade lésbica da deserção de algumas lésbicas para se juntarem às políticas queer: “Logo depois que lésbicas queer fecharam a porta em sua saída do feminismo lésbico, os lugares alternativos centrados em mulheres começaram a fechar: a maioria dos espaços feministas e lésbicos, como teatros, livrarias e bares desapareceram” (Case 1997: 210). As “lésbicas queer”, ela diz, foram responsáveis, por “privilegiarem a cultura gay masculina” e por “desdenharem e esquecerem o feminismo lésbico”, pelo escasseamento dos recursos culturais de lésbicas – socialmente, economicamente e teoricamente (p. 211). 

Faderman lamenta a perda desses recursos, chamando-a de perda dos espaços lésbicos. A criação de espaços de mulheres e lésbicas, tanto geograficamente quanto em termos de ideias, foi de importância fundamental ao desenvolvimento do feminismo na década de 60 e dali pra frente. Faderman confessa que acha “difícil de entender… porque mulheres queer não sentiram uma necessidade análoga de clamar por seus próprios espaços e, ao invés disso, deixaram que elas próprias desaparecessem em um espaço que é essencialmente masculino” (Faderman 1997: 226). Mulheres queer, ela explica, “parecem ter desistido inteiramente de um espaço para elas mesmas como lésbicas ao adotarem o termo e o conceito “queer””.

Faderman considera que as políticas queer são igualmente problemáticas para mulheres quanto qualquer outra política dominada por homens, ao ponto de que “mulheres queer não podem construir um lar feliz com os homens queer”, e ala afirma categoricamente que “homens, queer ou heterossexuais, em última análise, apagam e dominam mulheres, tanto queer quanto heterossexuais. Todos os espaços se tornam espaços masculinos, a não ser que mulheres mantenham um esforço unificado para marcar um espaço para elas próprias” (p. 227). Federman descreve a posição de lésbicas nas políticas queer como sendo semelhante àquelas de lésbicas que militaram em espaços mistos antes do feminismo lésbico ser inventado: “mulheres queer são coadjuvantes dos verdadeiros queer, assim como mulheres homófilas foram coadjuvantes dos verdadeiros homossexuais nos movimentos homófilos dos anos 50, antes de lésbicas conscientemente criarem seus próprios espaços políticos” (p. 227).

Faderman expressa um desapontamento amargo e perplexo ao repúdio do feminismo por mulheres dentro do movimento queer. Ela explica que muitas daquelas que, como ela mesma, eram lésbicas antes do feminismo dos anos 60 ter nascido, “sentiram exuberância e alívio porque ele articulava nossos sentimentos mais profundos” (p. 221). O feminismo também “providenciou espaços para lésbicas sonharem uma nação de Amazonas e um espaço para inventar uma cultura de mulheres” (p. 222). O feminismo ofereceu presentes tão valiosos, ela diz, que lésbicas como ela ficaram “chocadas e até mesmo furiosas quando viram surgindo uma nova geração que parecia tomar como garantido o que o feminismo tornou possível, não com pouca hostilidade ao feminismo, buscaram o que parecia ser um deus estranho – alianças queer” (p.222).

A incompatibilidade entre as políticas queer e o feminismo é particularmente clara, de acordo com Sue-Ellen Case, em seu movimento em direção a um mercado de consumo para os gays, ao invés de um movimento em direção a uma comunidade. Os valores do feminismo lésbico não se encaixam de forma alguma nesse novo mercado queer, já que os empreendimentos feministas lésbicos estavam ideologicamente comprometidos com a prevenção de hierarquia. Assim, elas operavam coletivamente, e suas políticas não eram sobre indivíduos se tornarem ricos. As livrarias e outros comércios gays que ainda seguem a perspectiva de coletivismo do feminismo lésbico, funcionam de forma bem diferente. Ela comenta que “O que antes era uma comunidade gay e lésbica, está se tornando um setor de marketing” (Case 1997: 212). A uma vez ativista Queer Nation, ela explica, formou o “Queer Shopping Network de New York”, e em alguns círculos… “queer” tem sido comoditizado [nota da tradutora: transformado em mercadoria] de forma que tem se constituído por coisas como body piercings, couro e cortes de cabelos no estilo spike” (p. 213). Acadêmicos queer, ela diz, complementaram esse desenvolvimento criando uma filosofia que celebra consumo: “Muitos acadêmicos “queer” escrevem textos incentivando esse crescente fetichismo por consumo… Eles inventaram o discurso queer a partir de um vício no fascínio pelo mercado de massa. Privilégio de classe e a celebração do capitalismo são combinados com a indústria queer do sexo” (p. 213). Assim, a Queer Nation “realmente parece desdobrar a mesma velha bandeira de individualismo que a democracia liberal segue deixando na mão” (p.217).

Bonnie Zimmerman, uma importante criadora e defensora de estudos lésbicos e literatura lésbica, considera que é o feminismo “o mais rico e mais complexo conjunto de significados à experiência lésbica” (Zimmerman 1997: 166), enquanto sobre a teoria queer “pode-se argumentar que ela apaga o lesbianismo ao dizer que é apenas uma identidade, uma posição ou significado subjetivo”. Ela aponta que, apesar da teoria queer estar “atualmente na moda”, é pouco provável que ela “permita uma experiência, identidade ou prática crítica lésbica distinta” (p.166).

É irônico que Teresa de Lauretis, a quem muitos comentadores dão crédito como tendo sido a progenitora da expressão “teoria queer”, seja uma das que criticam, na antologia Cross Purposes, a direção que a teoria e políticas queer tomaram. Ela critica a teoria queer por apagar lésbicas dentro do termo genérico “queer”, e por demandar que lésbicas que adotaram a teoria queer repudiem o feminismo e o corpo da mulher ao ponto de se tornarem homens.

Em resumo, parece que um novo imaginário se desenvolveu a partir do repúdio progressivo da feminilidade e, agora, também do corpo da mulher: o discurso sobre a sexualidade passou da impossibilidade de uma identidade feminina teorizada por feministas desde o fim dos anos 70, para a suposta “subversão” da identidade de gênero nos estudos queer/lésbicos, para o literal tornar-se-homem das lésbicas PoMo. (De Lauretis 1997: 47)

A teoria queer tem sido criticada por providenciar uma justificativa para uma série de práticas especificamente masculinas que têm sido formas significantes de expressão dos homens gays, mas que eram objetos de crítica na libertação gay e na teoria feminista. As ideias de Butler sobre o potencial transgressivo da “performance” de gênero, por exemplo, têm sido usadas para apoiar a noção de que drag, travestismo, transexualismo, camp, role-playing e sadomasoquismo são a quintessência das práticas políticas queer (Jeffreys 1994). Sue Wilkinson e Celia Kitzinger colocam incisivamente esse ponto: “A crítica queer não só ignora, mas as vezes reverte, críticas feministas chaves, particularmente as críticas feministas radicais: sobre sadomasoquismo,; sobre a cultura gay masculina; sobre transexualidade/travestismo; sobre bissexualidade; e sobre heterossexualidade” (Wilkinson e Kitzinger 1996: 380).

Enquanto o coro de rebelião contra a hegemonia das ideias e prática queer cresce, uma nova política lésbica e queer deve emergir para tomar seu lugar. Tais novas políticas devem retornar ao projeto feminista de eliminação do gênero, em completa contradição com as políticas da GenderPAC, nas quais o projeto de proteção do “gênero” emergiu de forma impecável da teoria e políticas queer. O clamor pela proteção do gênero é uma importante razão para rejeitar as políticas queer, mas há muitas outras razões. As políticas queer são baseadas no repúdio às ideias e práticas do feminismo lésbico, particularmente à ideia de que o pessoal é político e que as relações sexuais e emocionais devem ser conduzidas numa base de igualdade. É uma política que, começando por seu próprio nome, impede lésbicas de reivindicarem sua diferença dos homens gays nas posições e demandas políticas. Ela é, como sociologistas gays e lésbicas feministas apontaram, trivial em suas obsessões e práticas, e antitética a qualquer política de verdadeira mudança social. No resto desse volume, eu examinarei os aspectos da agenda política queer que são particularmente perigosos para mulheres e lésbicas, e mostrarei que o feminismo lésbico, ao invés de ser um objeto adequado para escárnio, é na verdade uma base crucial para uma transformação social a favor das mulheres.

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2 comentários em “Tradução: Teoria e Políticas Queer e a Crítica Feminista Lésbica – Sheila Jeffreys

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