Feminismo radical bonzinho, feminismo radical do mal

Alguém está sujando o nome do feminismo radical?

Com algum atraso, viemos comentar a polêmica das semanas passadas, quando algumas influenciadoras digitais incitaram suas seguidoras a denunciar em massa uma página feminista por não concordarem com as ideias contidas em **um** de seus textos.

“Expondo violentamente o nome”.

O texto em questão foi parte de um dossiê em resposta a esse outro texto, porque as feministas radicais não fecham o debate quando não concordam com algo, não mandam derrubar página e nem mandam as pessoas não irem ler. A gente responde com argumentos bem fundamentados e propõe o diálogo. E ainda posta o original e orienta pra NÃO irem escrotizar a mulher que falou bobeira na internet.

GENITALÉSBICAS.

Não vamos discutir aqui sobre a lesbofobia generalizada por parte da Revista Bibi, da Teseonze e da ex-Canal das Bee – ambas youtubers-marxistas-mas-não-no-gênero. Para saber mais, dá um pulinho na QG Feminista e lê o dossiê, que ficou ótimo. Mas a gente quer falar sobre os outros assuntos que ficaram à margem dessa discussão e apareceram nos grupos por aí e também na nossa inbox.

“Obrigada por não serem como a QG Feminista, textos como aquele sujam o nome do feminismo radical”

A gente recebeu algumas mensagens mais ou menos nesse tom, agradecendo nossa linguagem comedida e “pacífica”, não agressiva, e fazendo um contraponto direto com o texto da QG… que a gente leu e gostou. Ficamos coçando a cabeça por aqui. Como é que o nosso projeto, que tem como diretriz explícita o deboche, passou como “feminismo limpinho” enquanto o texto seríssimo da QG foi acusado de estar “sujando o nome do feminismo radical”? Afinal, o que significa ‘sujar o nome’ do feminismo radical?

Aqui vale compartilhar como percebemos esse texto na nossa coletiva, que é composta por uma mistura de integrantes e ex-integrantes de coletivas radicais com pessoas que se identificam com o feminismo radical mas nunca fizeram parte de uma organização. Pra algumas, a linguagem foi no ponto. Outras realmente acharam desnecessário falar em ‘macho’ e usar o nome civil. Percebam que eu falei ‘desnecessário’, e não errado. Desnecessário por que avaliaram ser possível passar a mesma mensagem sem a linguagem incendiária, sem prejudicar o a recepção do conteúdo pelas leitoras.

Se o problema era a linguagem, por que mudar não adiantou?

O texto original, que foi derrubado do Medium por causa das denúncias em massa, foi repostado sem os nomes e trocando ‘macho’ por ‘sexo masculino’. Mas isso não foi suficiente pra aplacar as acusações de transfobia e que deixassem as mulheres da QG em paz. As denúncias, na verdade, vieram depois da mudança, cobrando que derrubassem todos os perfis nas mídias sociais, mesmo com o texto alterado. A mensagem dos extremistas trans é clara: calem a boca. Vocês não têm direito de falar. Ameaças de processos foram feitas, seguindo a tática do lawfare do movimento trans contra o feminismo crítico de gênero (que não é só o radical, aliás, e essa tendência só cresce).

Fica explícito assim que o problema não é o tom, não é a linguagem, mas sim o conteúdo político. Ou antes, que o conteúdo, que não tem nada de inverídico, seja veiculado, porque mulheres falando abertamente das nossas experiências e reagindo às pautas absurdas do transativismo expõem o quanto essas reivindicações são ilegítimas e misóginas. Como não podem assumir a própria misoginia, nos acusam de transfobia, invertendo a lógica. Como estão nesse momento em uma posição de maior poder, suas mentiras passam como se fossem verdade, exceto para as feministas radicais, que seguem denunciando. Não adianta moderar o tom. Na verdade, moderar o tom significa que vamos deixar de falar o que precisamos na linguagem que precisamos, sem vantagem nenhuma. Eles vão seguir denunciando nossos conteúdos e nos ameaçando. Essa é a sua política de ódio e de intolerância, que não permite o dissenso e não tolera mulheres (a quem eles chamam de “cisgêneras”) tendo voz no movimento que nós mesmas construímos para a nossa libertação.

E aí? Quem suja o nome do feminismo radical?

Nossa imagem suja faz parte de uma campanha de difamação e desinformação alimentada e financiada por setores masculinos – do qual o movimento transgênero é apenas uma parte, embora seja usado de justificativa moral pelos que nos atacam. Fazem parte dessa campanha os homens conservadores e suas acusações de que somos ‘feminazi’, os homens gays e seus interesses comerciais, homens negros que se opõem à organização das mulheres negras no feminismo (não só no feminismo radical), grandes corporações, inclusive os monopólios de mídias sociais que excluem feministas porque é fácil abandonar as mulheres e deixar homens violentos se organizarem no espaço sem sofrer retaliações.

É uma conspiração patriarcal, da qual não vamos escapar recorrendo à ideia de que se a gente se comportar bem (leia-se: de acordo com o que é esperado de nós enquanto mulheres), explicando pacientemente por que as mulheres devem ser tratadas como seres humanos, vamos conquistar direitos e não vamos ser atacadas. Podemos até apelar à consciência de um ou outro homem, mas não podemos apostar todas as nossas fichas nos poucos traidores da classe masculina e sua capacidade política. E infelizmente também fazem parte dessa campanha – que não é apenas anti feminismo radical, mas anti feminismo em si – pessoas autointituladas feministas, mas que negociam com a classe masculina a sua relevância e, em busca de aceitação, nos jogam na fogueira como as feministas do mal. A classe masculina tem colaboradoras. Essas não são nossas inimigas. Mas não podemos deixar de ver e denunciar suas atitudes.

É impossível não ter um nome sujo sendo um movimento que enfrenta governos e constrói barricadas contra participação masculina em protestos para garantir a auto-organização feminina, com violência se necessário. Ou que destrói uma delegacia após policiais estuprarem mulheres. Para a classe masculina, nomear violentamente (🙄) o problema é o menor dos nossos crimes. Mas para o feminismo é uma das armas mais poderosas.

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3 comentários em “Feminismo radical bonzinho, feminismo radical do mal

  1. Quem suja o nome do feminismo radical é quem acha que dá pra ser feminista radical e apoiar identidade de gênero ao mesmo tempo.

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