Não é gatilho, é controle ideológico

Esse texto faz parte da série sobre feminismo radical bonzinho e feminismo radical do mal, que começamos nessa semana pra discutir alguns elogios e críticas que nós e outras páginas feministas radicais temos recebido em relação ao tom dos textos sobre a questão trans. Se você tá começando por aqui, vai querer ir lá no primeiro e no segundo e voltar aqui todos os dias essa semana pra ir lendo o resto! No artigo de hoje, a gente quer falar sobre a cobrança de mudarmos nossa linguagem pra acomodar outras pessoas, e o que isso significa para elas e para o nosso movimento.

Desfazemos aqui alguns argumentos comuns sobre não devermos chamar pessoas trans pelo seu nome original ou dizer que são do sexo que são, em qualquer situação, sob nenhuma justificativa. Eles se dividem em duas categorias principais: o gatilho emocional e a ofensa à honra. É um e é o outro, e os dois ao mesmo tempo, pra poder vender a mentira de que usar uma linguagem que reflete a realidade é cruel e também criminoso. Pode parecer confuso, mas os argumentos deles é que são confusos e contraditórios, porque é assim que eles atuam: com mantras em vez de argumentos, com ideias impostas e não debatidas. A mensagem é essa: é ofensivo porque alguém se sentiu ofendidx e mulheres trans são mulheres. E qualquer dúvida ou questionamento, ainda que muito razoável, é respondida com uma série de ameaças ou chantagens emocionais (“se você não usar o pronome certo está literalmente matando pessoas trans!”).

Ó, a gente linkou artigos em inglês aqui. Nenhum é fundamental pra entender o nosso texto, são todos complementares. Se você não lê inglês mas quiser saber o que eles falam, cola lá no nosso grupo do Facebook e pede ajuda que tem um monte de gente pra te ajudar a entender os pontos centrais e pode até animar traduzir algum texto!

Não é gatilho, é controle ideológico

A ideia de colocar “avisos de gatilho” (trigger warnings, no original em inglês) está relacionada a traumas psicológicos e sintomas intensos de sofrimento mental. A lógica é que se colocarmos avisos quando vamos tratar de determinados assuntos em algum espaço específico, podemos prevenir o acionamento de reações psicológicas intensas em pessoas vitimadas por traumas severos e que ainda não estão em condições de lidar com as consequências do trauma. Estamos falando de vítimas de estupro e violência doméstica, pessoas com transtornos de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, por exemplo. Isso se dá no contexto de tratamento, em que o objetivo é justamente fazer com que elas possam novamente viver sem esse sofrimento intenso, aprendendo a lidar com os traumas de modo que os gatilhos deixem de acionar essas reações, ou seja, que locais, situações, assuntos, palavras, tons de voz, e até cheiros e gostos deixem de ser gatilhos.

Avisos de gatilho não servem para prevenir sofrimento…

No livro “The Codling of the American Mind: How Good Intentions and Bad Ideas Are Setting Up a Generation for Failure” (Mimando a Mente Americana: como boas intenções e más ideias estão preparando uma geração para falhar, em tradução livre), Greg Lukianoff e Jonathan Haidt descrevem um fenômeno curioso que tem acontecido nas universidades e faculdades estadunidenses: tem crescido um movimento para limpar desses espaços toda e qualquer ideia controversa, misturando aí discursos de ódio de fato (como ideias racistas e fascistas) com ideias rejeitadas por muitos (podemos incluir aí o feminismo radical hoje) e assuntos relacionados a opressões, ainda que com interesse histórico ou a intenção de combatê-las. Nesse artigo publicado no The Atlantic, em inglês, eles falam das ideias centrais do livro. Como exemplos, citam que jovens estudantes de Direito escreveram uma carta a seus professores em Harvard para demandar que eles não ensinassem “rape law”, leis relacionadas a estupro, e, em um dos casos, deixassem de usar a palavra “violate”, violar, como em “isto viola a lei”, dizendo que isso causa sofrimento em estudantes.

“Você tem sangue de trans nas mãos”: essa acusação é uma chantagem emocional contra feministas. Os assassinos de pessoas trans são homens, em geral misóginos, e que não se importam com feminismo. Nem conhecem feminismo radical – mas se conhecessem, certamente não só não nos ouviriam como também nos odiariam.

O mais revelador no artigo é que os autores argumentam que essas ideias e esses avisos de gatilho estão piorando a saúde mental nos campi dos EUA. Conceitos como “microagressões” tomam o centro da guerra cultural que ocupa as universidades, e são importados acriticamente para o Brasil junto com os demais conteúdos que consumimos vindos de lá. Eles afirmam que esse projeto de transformar universidades em “espaços seguros”, quando deveriam ser lugares para desenvolver o intelecto em pensamento, confrontando ideias ousadas e controversas, faz mais mal do que bem – tanto para o desenvolvimento coletivo quanto para a saúde mental individual. Podemos argumentar o mesmo para os espaços de militância, incluindo aí as mídias sociais.

“De acordo com os preceitos mais básicos da psicologia, ajudar pessoas com transtornos de ansiedade a evitarem as coisas que eles temem é uma ação mal orientada”

…mas são ótimos pra bloquear pensamento crítico

O artigo de 2015 oferece pistas importantes para a mentalidade que tem dominado os discursos de ativismo quanto à sua intolerância e virulência, com uma posição cada vez mais extremista em relação a discursos dissidentes e também a quem profere os discursos. Cito como exemplo a tentativa de rebelião contra a Joanne Rowling, autora dos famosos livros da série Harry Potter, por conta de sua declaração sobre a questão trans. Funcionários da editora que vai publicar o próximo livro de Rowling fizeram um protesto dizendo que se recusavam a trabalhar com ela por conta de sua suposta transfobia.

O que torna esse caso especial não é isso: assim como a editora, nós aqui do Blogueiras achamos que cada um deve ter seu direito de não trabalhar em um livro que vá contra os valores que defende. Só que o livro da Joanne que vai ser publicado não tem nada a ver com transgênero, é uma ficção para crianças. O mesmo que ela está promovendo no Twitter, com crianças mandando fotos de seus desenhos e ativistas trans respondendo com pornografia. A editora deu uma declaração dizendo que essa atitude dos funcionários vai contra a liberdade de expressão, e que apoia Joanne.

Tigger Warming: o aquecimento global derreteu a cabeça de uma galera aí que vê tigre em tudo e sai dando aviso pra um monte de coisa absurda.

Junto com um movimento cada vez mais forte de conservadores que reclamam do ‘politicamente correto’, com representantes aqui no Brasil como Danilo Gentilli, que é inegavelmente misógino, está crescendo também um movimento de progressistas que desafiam a noção cada vez mais restritiva do que é considerado apropriado enquanto discurso para circular na esfera pública. Finalmente começa a surgir uma reação à retórica autoritária de movimentos como o transgênero e o Black Lives Matter, que pedem a cabeça de qualquer um que não concorde 100% com suas pautas (o que é impossível, porque um mesmo movimento tem pautas que se contradizem) ou não usa apenas os termos e conceitos aprovados por eles, exigindo demissões e banimento nas mídias sociais.

QG Feminista, pronomes e nome civil: elas erraram ou acertaram muito na linguagem?

Explicamos tudo isso pra dizer que desconforto mental, embora comum entre pessoas que sentem na pele opressões legítimas, não é a condição de fazer parte de um grupo oprimido. Muito menos de grupos que “se identificam como” grupos oprimidos mas na verdade fazem parte de outros por qualquer critério objetivo. São situações específicas e dramáticas de sofrimento mental. Vamos deixar claro para que não nos acusem de outra coisa: nós não somos a favor de ir mexer com quem está quieto, tirar do armário pessoas trans ou homossexuais que não sejam ativistas e não tenham perfil público em qualquer situação que não seja denúncia de crimes ou atitudes violentas de fato.

Falar que pessoas que se declaram abertamente trans nas mídias sociais são de um determinado sexo (que é uma consequência lógica delas serem trans, caso contrário não o seriam), ou usar os nomes civis que as próprias compartilharam em algum momento na internet não é violência. Ser trans, assim como ser homossexual, negro, ou mulher, não é, em si, um trauma, e não pode ser tratado como se fosse. E se alguma pessoa em específico não puder suportar o impacto psicológico de qualquer menção à realidade material (seu sexo) ou à sua história (seu nome civil), não leia textos feministas radicais.

É uma afronta à liberdade de expressão cobrar que adequemos a linguagem e/ou deixemos de falar de assuntos que são desconfortáveis para pessoas que não precisam ler os nossos textos. Nós temos o direito de escrevê-los. Nossas leitoras, de lê-los. Cobrar que derrubem nossos sites e perfis nas mídias sociais é uma prática de censura. Não deixa de ser censura por ser feita pelas massas, com apoio institucional de plataformas. Não faz o menor sentido do ponto de vista do sofrimento mental cobrar que alguém deixe de falar algo sobre você ou outras pessoas como você, sendo que ela não está falando com você e nem perto de você. Fica explícito, assim, que essas pessoas que estão incitando as massas contra publicações feministas radicais não estão em sofrimento e seu sentimento é outro, é ódio de classe. Seu objetivo também não é se protegerem, mas controlar ideologicamente aquelas com quem discordam. Aceitar isso não significa empatia nem gentileza, e sim uma derrota para o movimento de mulheres e o fim da liberdade de expressão pra todo mundo. Para continuar existindo e não ser neutralizado, o movimento de mulheres não tem alternativa senão desobedecer.

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2 comentários em “Não é gatilho, é controle ideológico

  1. Os textos de vcs são maravilhosos. Sempre achei o movimento trans meio extremista e intolerante, e de fato, pude ver que são (nem todos, acredito né.). Também achei um absurdo o que fizeram xom o QG. De todo lado existem pessoas querendo calar as mulheres, lamentável 🙁

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