1 mês de JK Rowling e as “TERF Wars”: O surrealismo transgênero cada vez mais exposto

Por Valéria Sólamento

Embora a gente ainda tenha fresco na memória um outro episódio sobre a Joanne e o feminismo – em que ela apoiou o Johnny Depp, apesar de todas as evidências de que ele era um lixo humano, nessa ela acertou, e muito. Hoje fez um mês Joanne Rowling publicou seu artigo sobre questões de sexo e gênero, que ela chamou de “TERF Wars” (guerras TERF), apresentando suas inquietações em relação ao movimento trans. O que a motivou a escrevê-lo foram as constantes ameaças e acusações de transativistas que ela tem recebido no Twitter desde que curtiu comentários da feminista radical lésbica Magdalen Berns e defendeu Maya Foster, uma mulher que perdeu seu emprego após ter publicado tweets dizendo que sexo biológico é real, que foram considerados “transfóbicos”. Joanne também criticou a expressão “pessoas que menstruam” e fez a internet no mundo inteiro parar quando manifestou seu desgosto em relação ao apagamento das mulheres que está sendo feito em nome da “inclusão”. A escritora reacendeu um debate antigo e contínuo, reverberando-o por todos os cantos da internet. E a gente te conta os desdobramentos dessa história 😉

O conto do não-binarismo do sexo

Desde que Joanne Rowling entrou para o rol de mulheres-transfóbicas-que-devemos-cancelar-mas-não-vamos, figuras públicas têm cada vez mais opinado sobre questões de sexo e gênero. A maioria não endossa as preocupações e discussões levantadas pela escritora nem se engaja no debate que ela propôs. Apenas repete, exaustivamente, que “mulheres trans são mulheres”, provocando uma reação em cadeia em uma das maiores redes de indiretas sociais, o Twitter. 

E foi por lá que a escritora canadense Margaret Atwood deu sequência ao debate reverberado por Rowling. Para quem não sabe, ela é a autora de “O Conto da Aia” (1985) – obra adaptada também para uma série de TV homônima que estreou em 2017 – e de “Os Testamentos” (2019), uma continuidade do primeiro romance. Se você não leu os livros nem assistiu à produção, fique tranquila porque abaixo contextualizamos a trama.

Tudo começou quando Atwood postou, em seu perfil no Twitter, o artigo When Sex and Gender Collide (Quando sexo e gênero colidem, em tradução livre), escrito por Kristina R. Olson, que traz, como tema, “crianças transexuais” (que, para nós, não deveriam existir, mas esse é um assunto para outro texto). O conteúdo faz parte de uma série de textos chamada “The New Science of Sex and Gender” (A nova ciência do sexo e gênero, em tradução livre), publicada em 2017 pela Scientific American

    Para Atwood, a biologia não lida com compartimentos fechados, como masculino ou feminino, e fazemos parte de uma curva fluida. Essa afirmação é surpreendentemente irônica, já que a escritora criou uma sociedade distópica em que mulheres são submetidas ao poder masculino por sua capacidade reprodutiva. Nem parece uma distopia, né? Na verdade, é mais ou menos isso que define o patriarcado.

Em “O Conto da Aia”, os Filhos de Jacob, grupo fundamentalista cristão, aplica um golpe de estado em uma parte dos Estados Unidos, instaurando a República Gilead. Nessa nova estrutura social e política, os direitos das mulheres são imediatamente retirados e elas passam a ser divididas em castas, conforme o papel que devem desempenhar no novo regime. 

As Tias são as responsáveis por doutrinar as aias. As Esposas são mulheres inférteis da elite religiosa, casadas com os Comandantes. As aias são destinadas à reprodução, elas são estupradas fertilizadas pelo Comandante, gerando filhos para ele e sua Esposa. As Marthas são cozinheiras e empregadas domésticas. As Econoesposas são mulheres de baixa classe social. As Jezebels são as prostituídas. Já as mulheres inférteis, desobedientes e em fase terminal vão para as Colônias, locais degradantes onde são submetidas a trabalho forçado. 

Não demorou muito para que o posicionamento de Atwood fosse questionado. Uma usuária pontuou o que todas nós pensamos: que seus livros demonstram que ela entende que as mulheres foram e ainda são oprimidas por causa de sua biologia. Mesmo concordando que mulheres foram e são oprimidas e que homens e mulheres não são iguais em todos os aspectos, é estranho saber que autora acredita em e celebra uma suposta “variedade infinita da natureza”. Considerar que a biologia do sexo é um espectro de possibilidades é negar a materialidade dos corpos. 

A escritora e filósofa Jane Clare Jones perguntou como, então, era possível saber quais pessoas se tornariam aias em Gilead. Em sua resposta, Atwood se limitou a dizer que essa definição é baseada, principalmente, no divórcio (que é proibido naquela sociedade) e na fertilidade. Bom, então a biologia, somada a outros fatores sociais, continua sendo determinante para que uma mulher seja sistematicamente violentada na distopia que a escritora criou, certo? E, sim, estamos falando de uma sociedade hipotética e totalitária que existe apenas nos livros e na TV, mas os questionamentos feitos à Atwood sobre sua história são válidos para apresentar, ainda que rapidamente, os pontos contraditórios das afirmações da autora.

    Debater o que aconteceria ou não em Gilead em termos de sexo e gênero, portanto, poderia ser infrutífero se essas questões também não fizessem parte de nossa realidade. Todas concordamos que as diferenças biológicas entre o sexo feminino e o sexo masculino não torna mulheres inferiores aos homens, mas a diferença social, sim. E é na biologia que os valores patriarcais se sustenta e concebe o gênero.

“Mas eu disse a eles que eu era não-binária”

O patriarcado se mantém como modelo de poder utilizando a hierarquia de gênero como ferramenta de opressão. Isso quer dizer que a subordinação de mulheres começa desde o nascimento (ou até mesmo antes dele), porque ter uma vagina significa ser socializada de uma maneira, e não de outra. O gênero, assim, nos é imposto de acordo com nosso sexo biológico, e a ele são atribuídos estereótipos que devem ser seguidos. Não é uma escolha, uma identidade, um sentir. E, isso, o movimento feminista vem dizendo, literalmente, há séculos.

Uma coisa é certa: o não-binarismo de sexo e as noções não-binárias de gênero atuais não propõem a abolição – ou sequer a superação – da estrutura opressora de gênero. Não é um conto de fadas, é um conto de terror. E olha que nem vivemos em uma distopia. Esse episódio com a Atwood só mostra o quanto as pessoas estão dispostas a fechar os olhos para manter a ilusão de gênero. Seja para sermos “gentis”, ou “respeitar as identidades”, verdades fundamentais não só para o feminismo, mas para as mulheres, verdades íntimas que conectam cada mulher à sua própria história, ficam apagadas. Se a Atwood, que escreveu uma das melhores representações sobre a exploração reprodutiva, uma forma de opressão que não tem como argumentar que não é baseada no sexo, pode “esquecer” da realidade das mulheres, estamos realmente perdidos. A não ser que apareça uma mulher corajosa disposta a destruir sua própria reputação para poder dizer o que todos estão vendo e pensando. Hoje faz 1 mês que Joanne Rowling mudou os rumos do feminismo com meia dúzia de tweets. Hoje é dia de comemorar!

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