Entrevista: Afrontosa – você não vai acreditar no que essa branca tá falando

por Adriane Rica

Essa pegou a gente de surpresa. Entrevistamos hoje para o Blogueiras Radicais a XX. Ela, que é branca, está indo contra a tendência e chega a defender que mulheres brancas não só podem como devem se posicionar em relação a assuntos como raça, classe, e qualquer outra coisa no feminismo e sobre a sociedade em geral. A descoberta, para nós, é chocante: em 2020, temos uma mulher, que muitos classificariam como cisgênera, de classe média (ela ganha mais ou menos 3 mil por mês, mas hoje basta pra ser heteroidentificada como ‘privilegiada’ e estar pré-cancelada online), adulta, com educação formal (embora não de humanas, então talvez não conte), defendendo que mulheres brancas têm um papel no feminismo além de ecoar pontos de vista populares e/ou majoritários.

Nós chegamos até ela por meio de fóruns obscuros que não podemos citar o nome. Neles, pequenos grupos de feministas negras, brancas e também algumas indígenas, convivem numa espécie de mundo paralelo em que o dissenso, a crítica e o debate são permitidos – e até estimulados. É realmente desconcertante, e vai contra tudo que temos visto recentemente. A entrevista foi concedida para o Blogueiras Radicais sob condição de anonimato. Ela pediu para ser identificada apenas como XX nesse momento. A impressão que temos é que esse grupo está tramando alguma rebelião secreta, mas não fica claro na entrevista. Leia e tire suas próprias conclusões (caso seu local de fala permita, é claro).

A.R. – XX. como você se percebeu uma mulher branca com… eu não sei bem como falar… uma mulher branca com opinião?

XX. – É realmente difícil dizer, não consigo precisar exatamente quando foi. Mas já tem um tempo que tenho sentido necessidade de falar sobre todos os assuntos, e, principalmente, apoiar as mulheres negras com quem eu realmente concordo, não apenas as que estão na lista de emissoras de opiniões pré-aprovadas. Percebi que as mulheres negras que eu achava que tinham posições razoáveis eram muito maltratadas e que ninguém as defendia. Enquanto isso, muitas opiniões completamente descabidas eram apoiadas por uma multidão de gente branca – inclusive e principalmente homens. Fica o questionamento do por quê. E todo dia era um posicionamento mais esquisito, mais difícil de entender, sempre apoiado por muita gente branca. Parece que concordar com o absurdo é percebido como uma ação solidária, como ‘rever seu privilégio’. Hoje não concordo mais com isso.

A.R. – Entendi. Mas se você não faz uma média ponderada das opiniões das mulheres negras na internet por número de seguidoras, como decide então qual é a posição correta a adotar? 

XX. – Foi uma metodologia que desenvolvi junto com as mulheres negras que têm puxado esse processo do qual eu faço parte. Primeiro, o mais importante (e acredito que também seja o mais difícil pra muita gente), é desenvolver, aos poucos, uma sensibilidade, uma necessidade de… realmente se importar com o que as mulheres negras estão falando. Eu fui percebendo, conversando também com outras mulheres brancas como eu, que “ouvir” as mulheres negras é uma atitude passiva, né, preguiçosa. Não basta ouvir e aceitar como verdade a primeira coisa que passar pela nossa timeline. Quem faz isso, eu acho, é porque não conhece muita gente negra, aí não está acostumada com… como se diz? Com um diálogo, assim, com uma conversa. Com manter contato, acompanhar o que várias pessoas negras pensam num momento e como seu pensamento vai mudando ou se reafirmando e se qualificando. 

A.R. – Quero dizer, todas nós sabemos, falando aqui entre mulheres, que se discordarmos de certos assuntos seremos canceladas… então pra que se dar o trabalho de… pensar? 

XX. – Pra mim, o ponto de virada foi quando eu descobri que pessoas negras podem ter várias opiniões diferentes sobre um mesmo assunto. Foi aí que eu percebi, por exemplo, que eu, que sou socialista, vegana e protetora animal, não podia pegar o que eu penso sobre sei lá, meio ambiente, e juntar com o que uma mulher negra que é CEO de uma empresa que defende que temos leis demais no Brasil e precisamos flexibilizar a responsabilidade social das empresas pra gerar mais empregos… percebi que não fazia sentido, e que o correto seria fazer sentido né? Aí eu fui atrás de realmente ler e estudar diferentes perspectivas negras, conhecer mesmo, com profundidade, igual a gente faz com autores brancos. Hoje isso é pouco incentivado, eu acho, que é porque afirmar que ‘não é o seu local de fala’ te dá o benefício de ser vista como uma pessoa politizada, né, de te enxergarem assim, o benefício da aprovação social, sem ter nenhum custo envolvido. Não precisa gastar tempo estudando ou se engajar intelectualmente e afetivamente com as questões que atingem as pessoas negras. Não precisa fazer nada pra ajudar, pra mudar as coisas. Até entendo quem pensa assim, mas não concordo mais.

A.R. – Eu preciso te falar que nossa, isso vai contra tudo que está sendo dito por aí. Você se recusa então, a ‘rever seus privilégios’? E como você lida com ser considerada, na opinião de muitos, como racista?

XX. – Olha, isso pra mim é muito difícil, mas eu tento não deixar me abalar. Porque, assim, já fui xingada de racista sim, mas sei que não sou, e tento não colocar meu sentimento, minha necessidade de me sentir querida e aprovada socialmente, na frente da necessidade que temos de mudar a sociedade pra tratar melhor pessoas negras. Eu acho, e é a minha opinião, que ser chamada de racista sem ser é bem menos impactante do que sofrer racismo. Tá tudo esquisito agora, nesse momento, com a política extremamente polarizada, mas eu tenho defendido que nós mulheres brancas temos que aguentar esse tranco. Senão, as mulheres negras com quem a gente realmente concorda e não só faz o sacrifício de fingir concordar, ou cumpre a tarefa mecânica de repassar o que elas falam sem nem pensar sobre, senão as que a gente concorda ficam falando sozinhas, sem apoio, e são atacadas também. Já vi muitas companheiras minhas que são negras serem xingadas de racistas, chamadas de ‘feministas brancas’. Já vi na minha frente uma mulher negra que tinha uma visão mais pós-moderna assim, mais aceita, mais popular hoje, olhar na cara da outra, que era marxista e radical, e falar numa reunião aos gritos “Eu, enquanto a única mulher negra nesse espaço, digo que é o seguinte…”. Então assim, eu sei que isso está sendo usado contra as mulheres negras que são divergentes. Mas não podemos, nós que não sofremos racismo e não estamos acostumadas a sentir essa dor o tempo todo, nos esquivar de apoiar essas mulheres, principalmente hoje eu acho que as que são negras, radicais, e as lésbicas também, que são muito mal vistas hoje. Não podemos deixar de falar junto com elas e de levar as perspectivas delas pros espaços em que estamos e elas não. 

A.R. – Então você acha que é papel de branca estimular divisão e racha entre as mulheres negras…?

XX. – Olha, essa divisão já existe. Como te falei, é resultado do fato de que as mulheres negras pensam né, e quem pensa pode chegar a diversas conclusões, discordando. É mito que as mulheres negras têm um único pensamento sobre as coisas. É um mito que é propagado porque existem pessoas que têm poder de apagar essas divergências. Você vê por exemplo discurso de ONG, de banco que paga de moderninho, de revista de moda, até da ONU, é tudo o mesmo discurso. Tem muitas teóricas por aí que são muito eloquentes mas de pensamento mesmo não existe muito ali, é só uma reelaboração dessa mesma linha, que eu chamaria de liberal, mas aparece com diversos nomes. Essa divisão, ela existe, mas apontar que isso é um ‘racha’, que é briga, baixaria, pra mim é também uma atitude racista. As mulheres negras conseguem enxergar suas prioridades e lutar juntas pelo que é necessário. Quem só segue influencer no Instagram realmente só vê as tretas, precisa estudar a história, e também conhecer as pessoas. Eu soube por exemplo que a construção da Marcha das Mulheres Negras aqui no Brasil foi cheia desses desafios, de construir unidade, e isso não é um problema de mulheres negras pelo fato de serem negras, mas por que onde há política, onde existe potência, força, vida, paixão, existe discordância. No fim, a Marcha das Mulheres Negras, que eu fiz questão de divulgar e apoiar como pude, aconteceu e foi muito importante aqui no Brasil. Falar dessas discordâncias internas não enfraquece, só mostra que existe um movimento forte e imenso em que cabem várias ideias diferentes. Nem tudo que é diferente é contra a outra. Então assim, eu não estimulo briga não. Eu não estimulo nada. Nas articulações entre as mulheres negras eu não tenho papel. Meu papel é apoiar as mulheres negras que estão sendo invisibilizadas porque têm algo a mais a dizer. 

A.R. – Mas como assim, é branca e não é racista? Todas as pessoas brancas não são racistas?

XX. – Olha, eu não aceito isso não. Se você falar que porque é branco é racista, está caindo num fatalismo muito complicado. Se não tem jeito de resolver, você não tem nenhuma responsabilidade. Racista, eu defendo isso e mulheres negras com quem atuo lutam que isso seja definido assim, é quem enxerga pessoas brancas como superiores às outras raças e etnias. É quem tem um projeto de sociedade que exclui, é quem tem preconceito e quem discrimina – conscientemente ou não. O racismo, ele beneficia todo mundo que é branco, sem dúvidas. Mas a gente não precisa aceitar esse benefício como algo dado também não. Podemos e devemos questionar essa lógica e rejeitar esses benefícios quando são oferecidos por outras pessoas brancas, conforme for possível. Podemos, por exemplo, rejeitar convites quando somos chamados pra falar em mesas que só têm outras pessoas brancas, deixando explícito o motivo. Mas precisamos entender que mesmo assim, o racismo continua de pé. Não existe ‘checar seus privilégios’, isso é uma bobeira. Você só ter noção de que é privilegiado e não fazer nada não resolve nada pra ninguém negro, que dirá destruir o racismo sistêmico, estrutural. Só lutando mesmo. O racismo influencia tudo, inclusive a forma que a gente pensa, mas temos que rejeitar isso com muito estudo e reflexão. Agora eu não aceito dizerem que eu sou racista porque eu não aceito ser racista. Não aceito ter preconceito, discriminar. Não faço, brigo e corto relações se eu conhecer alguém que faz de propósito. Estou sempre aberta pra críticas caso eu cometa um erro, mas não ser racista não é uma identidade de quem ‘checa seu privilégio’, é um compromisso de luta, de ser ativa no combate ao racismo, de apoio às pessoas negras. É um compromisso pra vida toda, e que é muito mais difícil e mais importante do que dizer ‘fazer o que, todo branco é racista mesmo’ e dar de ombros porque essa questão não te toca. A gente não milita só pelo que vivemos, a gente milita pelo que é correto, pelo que é justo.

A.R. – Entendi. Bom, e o que você deixaria de mensagem para outras mulheres brancas que estão em cima do muro e não sabem ainda se querem fazer alguma coisa ou continuar só não fazendo nada e postando uma coisa ou outra no Facebook (que ninguém nem vê mais né) pra ganhar um tapinha nas costas no barzinho quando a pandemia deixar a gente reabrir?

XX. – O que eu posso dizer é que a gente precisa assumir esse ônus junto com as mulheres negras dos nossos movimentos, das nossas entidades, que é de defender uma linha política. Que não podemos deixar elas sozinhas nessa tarefa. E que estudemos, muito, pra realmente entender o que elas estão falando. Essa coisa de local de fala significar que você não pode falar de um assunto é um erro. Local de fala só serve pra você refletir de onde você fala, de onde alguém fala, de que local parte o discurso. Mas o que deve ser analisado mesmo é a fala, e não o local. O local é só contexto pra fala. Então, se a nossa fala tá certa, devemos falar. E pra saber se tá certa, só estando realmente junto com as mulheres negras na luta. Não adianta nada você ser reconhecida como linda perfeita falou tudo e ser ao mesmo tempo a pessoa que não faz nada, não contribui com nada. Eu estou aqui conversando com você como anônima, mas no meu cotidiano não me escondo não. Podem xingar o quanto for, não vou deixar as mulheres negras com quem eu luto falando sozinhas não.

P.S.: Se você achou esse texto ofensivo, saiba que ele foi escrito por uma mulher negra. E aí, ainda está ofendida? Quem fala realmente importa mais que o que é falado? Hm.

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2 comentários em “Entrevista: Afrontosa – você não vai acreditar no que essa branca tá falando

  1. “Essa coisa de local de fala significar que você não pode falar de um assunto é um erro. Local de fala só serve pra você refletir de onde você fala, de onde alguém fala, de que local parte o discurso. Mas o que deve ser analisado mesmo é a fala, e não o local. O local é só contexto pra fala.”

    Excelente reflexão!
    Entender o lugar de fala como único e absoluto valor é validar qualquer fala de um Sérgio Camargo ou de um Fernando Holiday, por exemplo. O lugar de fala é um marco essencial pra conduzir qualquer discussão, mas não é suficiente para ser a única métrica no debate.
    Força e caminhemos lado a lado!

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