Transtorno alimentar tem tudo a ver com feminismo

por Juliana Nasser Gimenez

Quando um fenômeno prejudicial atinge mulheres, em sua absoluta maioria, é necessário que ele seja submetido a uma análise política sob a ótica feminista. Esse é o caso dos transtornos alimentares. A taxa de mortalidade por quem sofre com tais transtornos é a mais alta dentre todos os distúrbios psiquiátricos, seja por desnutrição severa ou por suicídio. Neste texto, falarei principalmente de anorexia e bulimia.

Análises da psiquiatria e da psicologia

As ciências e a medicina são dominadas por homens, que produzem aparentes consensos que por vezes ignoram até o método científico e se mostram um retrato ideológico perfeito da classe masculina – e uma perspectiva particular da sociedade que é tomada como universal. Logo, não é surpreendente que o entendimento das causas da anorexia e bulimia pela psiquiatria e psicologia tradicionais ignorem o caráter político do crescente culto à magreza nas últimas décadas. Diversas teorias foram desenvolvidas sob a perspectiva dos acadêmicos dessas áreas, e, em várias dessas análises, os transtornos alimentares são tratados como questões principalmente individuais. Elas seriam fruto da dificuldade dessas mulheres de se sentirem capazes de atingir a auto-realização, do excesso de necessidade de controle, ou por não terem desenvolvido a capacidade de auto-suficiência. Ou possivelmente de uma predisposição genética. Teorias psicanalíticas da década de 60 afirmaram que o relacionamento mãe-filha na primeira infância, ou mesmo na fase da amamentação, teria influência. Mulheres com transtorno alimentar teriam tido uma relação de excesso de cuidado ou de ausência dele com suas mães, o que as tornaria incapazes de suportar a pressão para alcançar a independência na adolescência, fazendo-as buscar um corpo que parecesse o de uma criança para poder permanecer longe de tais responsabilidades. Foi proposto também que a abstinência alimentar teria uma dimensão espiritual, baseado no fato de que jejum voluntário é prática comum para fins religiosos e por haver registro de jejuns extremos realizados por freiras na idade média (comumente associados à autoflagelação e privação do sono).

Apesar das áreas da psiquiatria e psicologia que teorizam sobre esse assunto considerarem a influência das pressões estéticas e o caráter sociocultural no desenvolvimento dessas doenças, não fazem uma análise política dessas questões. Ignoram que a feminilidade é uma construção social que objetiva manter a subordinação feminina. Ignoram que é a construção da feminilidade que desencoraja mulheres a se tornarem independentes, e que responsabilizar a mãe é mais da mesma misoginia. Não consideram que, mesmo que a religiosidade pudesse ter alguma influência, religiões são mais um mecanismo patriarcal para manter mulheres alienadas de suas questões, para naturalizar sua posição de subordinação e impedi-las de buscarem sua libertação ao esperarem intervenção divina. Ignoram que baixa autoestima das mulheres também é uma manifestação da feminilidade. E não analisam os motivos do surgimento do culto à magreza.

“No fim do século vinte, psiquiatras e psicólogos notaram e buscaram explicar o que parecia ser uma epidemia de automutilação em 149 sociedades ocidentais envolvendo cortes, furos, queimaduras e outras formas de causar dano ao corpo (Favazza, 1996). Essa epidemia, como a epidemia de transtornos alimentares com a qual é claramente relacionada (Shaw, 2002), afeta particularmente mulheres jovens. Ela tem sido analisada por feministas como um assunto que parece claramente relacionado com a condição da mulher, apesar de homens que discutem o assunto terem a tendência de ignorar esse aspecto (Strong, 1998).”

Beleza e Misoginia – Sheila Jeffreys (p. 149)

Culto à magreza: backlash (contra-ataque) às insurgências das mulheres

As práticas de inanição e vômito provocado não são recentes, há registros médicos do século XIX, no Reino Unido e nos EUA, de sintomas semelhantes aos da anorexia que acometiam meninas adolescentes. Referiam-se ao conjunto desses sintomas como clorose, popularmente “doença das virgens”. Acreditavam que a doença seria curada com o casamento, as relações sexuais e a maternidade. Há também registros de sintomas como os da bulimia em escritos médicos do século XVII.

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Porém, na história recente, a ascensão do culto à magreza esteve associada a momentos de insurgência das mulheres. O incentivo a dietas e a associação da magreza à beleza, segundo Naomi Wolf em O Mito da Beleza, teve seu primeiro marco nos anos 20, logo após o sucesso do movimento sufragista na Inglaterra. Nos anos 50, houve um recuo desse incentivo à magreza: mulheres estavam novamente confinadas à esfera doméstica. Porém, não muito depois, quando mulheres brancas começaram a adentrar em massa o mercado de trabalho (mulheres negras sempre precisaram trabalhar), ele retornou. Nas décadas seguintes ao Movimento de Libertação da Mulheres, o peso das modelos diminuiu a níveis extraordinários e o culto à magreza aumentou em igual proporção. Não é estranho que tenha se dado dessa forma. Mulheres unidas, cientes das raízes de sua opressão e dos mecanismos usados para sua manutenção são uma ameaça ao patriarcado. Mulheres enfraquecidas física, emocional e psicologicamente não apresentam risco. É sedação política. É backlash claro ao feminismo.

O culto à magreza vem fazendo parte da construção do ideal de beleza, que é uma das manifestações da feminilidade, sendo portanto mecanismo de controle tanto físico quanto psicológico das mulheres. 

Uma perspectiva feminista

É inegável que a privação voluntária ao alimento e purgação são tipos de autoagressão, inclusive a automutilação (que também é praticada majoritariamente por mulheres) é realizada por uma parcela considerável de mulheres com transtornos alimentares. E pode-se argumentar que a autoagressão e a automutilação estão intimamente relacionadas à misoginia: são respostas a traumas relacionados a abusos e ao auto ódio decorrente de ser mulher em uma sociedade que odeia mulheres. A dissociação em relação ao próprio corpo é mecanismo de defesa comum de vítimas de abuso (abuso sexual infantil é considerado pela psiquiatria como fator de risco para desenvolvimento de transtornos alimentares). 

A negação das características sexuais secundárias, como seios e curvas, que se alcança com a magreza extrema, pode muito bem estar relacionada com um impulso inconsciente de evitar abusos sexuais. Pode ainda ser uma negação à maternidade compulsória, uma vez que a interrupção da menstruação e a infertilidade são consequências comuns dos transtornos alimentares. Algumas análises feministas defendem que a anorexia, a bulimia e a automutilação podem representar uma tentativa de retomar o poder e o controle do corpo que nos é negado pelo patriarcado. Diferente da magreza que faz parte do padrão de beleza, embora essa já seja extrema, quando chega a níveis ainda mais inimagináveis, essas mulheres deixam de fazer parte do ideário masculino de mulher sexualmente desejável. Isso pode explicar a suposta preocupação social em torno da anorexia e bulimia – mulheres machucando seu próprio corpo de uma maneira que não sirva diretamente aos homens não é algo culturalmente tolerável. Mas na conclusão dessa análise há divergências. Sheila Jeffreys aponta, em Beleza e Misoginia (p. 151), que existem feministas que defendem que essas são práticas legítimas de resistência ao patriarcado, enquanto outras argumentam, acertadamente, que elas prejudicam o desenvolvimento pessoal, limitam as possibilidades e a liberdade das mulheres e com frequência, as matam. Além de, como já sabemos, ser uma anestesia à prática política.

“O fato de que a maioria esmagadora das pessoas que estão no ranking dos que praticam autolesões serem mulheres sugere que a autolesão está associada com o baixo status das mulheres na sociedade. Mulheres e meninas que não tem válvula de escape para o ódio e dor que experienciam pela violência e abuso masculino e para outras lesões de uma cultura dominada por homens, atacam seus próprios corpos. Com frequência estão emocionalmente dissociadas de seus próprios corpos, tendo aprendido esse mecanismo para sobreviver a abusos.”

Beleza e Misoginia – Sheila Jeffreys (p. 150)

Decorrências dos transtornos alimentares incluem diminuição da função cognitiva, enfraquecimento físico e pensamentos obsessivos sobre comida e perda de peso. Depressão está comumente relacionada, bem como tentativas de suicídio. Mulheres com esses transtornos têm, com frequência, a vida social extremamente prejudicada. Encontros sociais estão geralmente relacionados a comida, e essas mulheres não querem ser vistas comendo, principalmente de forma compulsiva, não querem correr o risco de quebrar a dieta, não querem que saibam que estão vomitando. Estão novamente removidas da vida pública, novamente confinadas à vida privada.

Socialização feminina

Meninas cada vez mais novas estão preocupadas com o próprio peso, começando a se submeter a dietas bastante restritivas cada vez mais cedo, ensinadas desde pequenas que a aprovação masculina e sua validação como sexualmente desejáveis – que somos socializadas para buscar e a acreditar que só seremos definidas a partir disso – depende da ausência completa de gordura em seus corpos.  A prática sexual heterossexual é baseada em dominação e submissão. A prática de ensinar meninas desde cedo que devem se mutilar e se auto agredir para serem sexualmente desejáveis aos homens é só mais uma forma de dizer a elas que isso é natural e não passível de questionamentos, e que elas devem ser indiscutivelmente masoquistas.

“Para uma menina de sete anos no nosso tempo, subir numa balança e exclamar com horror é um ritual de feminilidade, indissociável da promessa de gratificação sexual, tanto quanto as poses provocantes de salto alto diante do espelho da minha geração e os vestidos de cetim branco das bonecas da geração da minha mãe. Se elas começarem a fazer regimes aos sete anos e só forem fazer sexo em meados da adolescência, já será tarde demais. Terão passado metade das suas vidas aprendendo o masoquismo como preparação para o prazer sexual.” 

O Mito da Beleza – Naomi Wolf (p.286 da tradução)

Paralelamente, não podemos ignorar que a restrição alimentar em meninas crianças e pré-adolescentes pode também estar relacionada com a sensação de necessidade de impedirem seus corpos de tornarem aqueles de mulheres adultas, tanto para evitarem – por terem experienciado abuso – a compulsoriedade das relações sexuais, quanto para evitarem a imposição de se engajar em práticas de beleza que percebem causar sofrimento nas mulheres que elas têm por referência.

Política identitária ou questão social?

Ressalto que neste contexto as políticas identitárias queer vêm mais uma vez ameaçar tanto a luta das mulheres como um todo, quanto as mulheres individualmente. Existem comunidades virtuais – pró-ana (pró-anorexia) e pró-mia (pró-bulimia) – que defendem que os transtornos alimentares não são doenças, mas sim uma identidade, um estilo de vida. O ódio extremo ao corpo, a desconexão com ele e a ânsia desesperada por mudá-lo, pelos que meios forem, até mesmo mutilatórios, são experiências comuns para pessoas com transtornos alimentares. Isso também é comumente descrito como sendo vivido por aqueles que se autoidentificam enquanto trans. Essas experiências são usadas para justificar que gênero seja considerado identidade: tal aversão ao próprio corpo viria de uma incompatibilidade entre “quem a pessoa é” e seu sexo. A pergunta óbvia é: por que transtornos alimentares são considerados doenças e a chamada “disforia de gênero” é tratada como uma questão de identidade? Uma análise dessa questão poderia muito bem nos ajudar a argumentar que a disforia de gênero, assim como a dismorfia corporal e os transtornos alimentares, deve ser tratada como a questão social que é, e que essas angústias vêm da própria existência da feminilidade/masculinidade. Mas as políticas identitárias queer têm tido sucesso em se estabelecer e impor suas demandas. Os discursos identitários dão margem para que os transtornos alimentares sejam reivindicados enquanto identidade.

Dentre a pequena população masculina que sofre com esses transtornos, a incidência é substancialmente maior em homens gays e bissexuais do que em homens heterossexuais. Isso está de acordo com o fato de que transtornos alimentares são fruto da misoginia, uma vez que o preconceito que esses homens sofrem é derivado dela. Homens heterossexuais enxergam gays e homens bissexuais como homens feminilizados, direcionando a eles parte do seu ódio às mulheres, e a autoagressão é uma expressão do auto-ódio resultante. Além disso, homens gays são mais influenciados pelas expectativas estéticas do que os homens heterossexuais, uma vez que sua sexualidade está direcionada a agradar outros homens e estão mais propensos a enxergar seus corpos como objetos sexuais.

O feminismo é a ferramenta

O culto à magreza – e a decorrente inanição, ou prática excessiva de exercícios físicos, ou até mesmo a compulsão (que é com frequência resultado da prévia restrição alimentar) – é tática patriarcal bem sucedida de alienação e enfraquecimento das mulheres. Se você não tem energia e força física para pensar e para estar no mundo, se não há lugar em sua mente – dominada pela fixação em comida e perda de peso – para pensar nos propósitos de terem te colocado nessa posição, se você não tem condições emocionais e psicológicas para imaginar uma vida fora desse contexto, então não há espaço para entender sua posição na sociedade. Não há espaço para se reconhecer em outras mulheres e em consequência, enquanto classe. Não há espaço para compreender que esse é só mais um mecanismo para te manter na posição de subordinada, ou até mesmo para se reconhecer nessa posição. Não há espaço, não há energia, não há condições para fazer política. Não há lugar para o feminismo.

Mas o feminismo é a ferramenta. Estudos recentes mostram que apresentar a teoria feminista a mulheres com transtornos alimentares têm tido resultados positivos na recuperação. Estudando o feminismo, elas passam a entender que não estão sozinhas, que não há algo “errado” com elas como indivíduas dissociadas do contexto social. Podem reconhecer que o que elas vivem é resultado de uma imposição que tem por objetivo as manter dóceis e desconectadas.

É prática feminista divulgar nossos entendimentos. É prática feminista urgente pensar formas de impedir que meninas sejam educadas para terem como objetivo de vida uma magreza doentia, e tudo que ela envolve e significa. O que precisamos realmente, é abolir a beleza por completo.

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