#DescancelaPietra: o “não-binário” é binário sim!

“Não binário” não tem nada a ver com lesbianismo, muito menos com feminismo

Esse assunto já tava na nossa listinha de textos tem várias semanas. A gente aqui do Blogueiras sente um gostinho de vômito na boca toda vez que pegam figuras lésbicas, vivas ou não, ficcionais ou não, pra dizer que elas na verdade eram transhomens, não binárias ou qualquer outra coisa, só porque a gente não se enquadra na feminilidade patriarcal.

Negar a feminilidade (como definida pela Sheila Jeffreys, o comportamento subalterno da classe das mulheres) é um pressuposto na vida de todas as lésbicas. Mesmo as que “parecem hétero”. Não sentir atração por homens não significa rejeitar apenas um órgão genital ou um tipo de prática sexual, mas também não se atrair pela masculinidade, pelo comportamento dominante da classe dos homens, e buscar outras formas de construir afeto e companheirismo – e também outra sexualidade, com novas formas de paixão, erotismo e também práticas sexuais não violentas e, falando bem sério, mais prazerosas. Reduzir o lesbianismo a uma prática sexual é incorreto, o amor e a política lésbicas vão muito além de transar com mulheres. Homens heterossexuais também fazem sexo com mulheres, e nós não podíamos ser mais diferentes deles. Não faz sentido nenhum dizer que lésbica “quer ser homem”.

Mas hoje em dia existe outra forma de antilesbianismo que é amplamente aceita por setores progressistas e de esquerda, que é a de redefinir o lesbianismo até a sua inexistência ou, no mínimo, neutralização política e afetiva: “lésbicas” agora são obrigadas a se relacionar com “mulheres de pênis” (homens), e lésbicas desfeminilizadas são não-binárias ou homens trans, e “sapatão” virou “identidade de gênero transmasculina”. É o jeitinho politicamente correto de dizer que a gente é/quer ser homem. E é lesbofobia também.

E é aqui que entra a treta de hoje: porque uma lésbica explicando que é contra a ideologia do gênero é tão atacada? O que significa um movimento LGBTQZYZ defendendo violentamente o sistema de gêneros? Ser contra a narrativa do “não binário” significa odiar e querer a morte de pessoas trans? Bom, na nossa opinião, esse monte de ataques tem o fim político de suprimir o debate e empurrar essa discussão, tão importante pras lésbicas hoje, pro pessoal, saindo do campo político. É pra fazer pessoas tipo a Pietra servirem de exemplo: se você ousar questionar o gênero, vai ser atacada também, violentamente. E pior, ninguém “de esquerda” vai te apoiar, então você vai ficar sozinha. Sua comunidade vai se voltar contra você. Você vai ser ostracizada.

Mas a gente aqui do Blogueiras, que já passou por isso na pele, já perdeu o medo, então vamos aproveitar a situação pra discutir ponto a ponto o vídeo da Pietra, apontar o que está certo e o que não está. Vamos começar essa análise falando o óbvio: não está certo ameaçar lésbicas de estupro e de morte. Infelizmente hoje a gente precisa fazer essa disputa, porque pra muitos virou “justiça social” fazer lésbicas se sentirem inseguras e com medo.

Se você é “Não-binário”, o resto do mundo é binário

“Com a cultura do cancelamento, todo mundo corre risco de ser cancelado o tempo todo”

Ela começa falando isso, e sobre como antes de postar fica se questionando mil vezes. E quem é feminista radical sabe: é todo mundo MESMO que corre o risco de ser cancelada por qualquer coisa. Peguem a questão trans, por exemplo: tem gente que acha que perguntar o pronome da pessoa é a única forma aceitável (ou seja, não transfóbica) de se referir a alguém, mas tem outra parte, também expressiva, que acredita que se você tá perguntando é porque não reconhece o gênero da pessoa, portanto você é transfóbica. E aí? Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega. Não dá pra você agradar aos dois grupos, então invariavelmente você vai ser considerada transfóbica. Não tem como acertar.

A cultura do cancelamento é maior que o feminismo, a esquerda ou a política, mas tem muita relação com eles. Essa semana teve uma mulher sendo cancelada como “burguesa” por postar foto de uma tábua de frios. Homens, no geral, são muitíssimo menos cancelados. Não tem muito tempo, o Juan hittou no tt falando essencialmente o mesmo que a Pietra. Ele não foi ameaçado de morte e de estupro.

“Eu estava perdendo a minha autenticidade”

E é isso que tá rolando com o feminismo todo. Nossa autonomia intelectual e política em relação à classe dos homens, construída com muito custo, está sendo usurpada por “mulheres com pênis” que cumprem uma função de patrulha ideológica (“vocês não podem falar de transgênero sem uma mulher trans presente”). Mas pras lésbicas, no geral, é a nossa própria existência cotidiana que é patrulhada: com quem você namora, fica e transa, do que você ri, e tudo o que pensa e fala sobre ser mulher e ser lésbica e a sociedade em que a gente vive. Não precisa ser feminista radical, nem feminista. Não precisa ser nem ligada em política pra sofrer os efeitos nisso.

“Liberdade de expressão é diferente de propaganda de ódio”

Para uma parcela relevante da militância da lacração, não existe mais diferença. Discurso de ódio é qualquer discordância política, ou até seu relato sobre alguma experiência pessoal que “não é inclusivo” (como pode incluir outras pessoas se o relato é sobre você?). E como essas pessoas que acusam discordam entre si e com frequência têm posições antagônicas, em que uma nega a outra, qualquer pessoa que tenha qualquer opinião sobre o assunto vai ser considerada como “fóbica” ou “propagando ódio”. Nessa sinuca de bico, nem o silêncio é permitido: quem não se posiciona (do jeito certo) tem “sangue de trans nas mãos”. Mas precisa concordar. Com todas as pessoas. Que discordam entre si.

A questão do “local de fala”, na sua atual concepção, também é um problema, porque o ódio passa a não ser a fala, mas o local. Um branco falando sobre a questão racial vai ser sempre racismo, por que ele “rouba o local de fala”. Ainda que esteja falando sobre a importância do combate ao racismo e divulgando ideias e concepções do movimento negro. Nós, enquanto escrevemos esse texto, estamos sendo canceladas por “lesbofobia” por fazer uma chamada aberta pra textos do Agosto Lésbico que foca em lésbicas mas aceita também submissão de textos por mulheres HTs e Bis. Vejam bem, canceladas por textos que nem publicamos e ainda não existem. Fomos chamadas de “página hétero” (como se ser hétero fosse por si só uma opressão, ainda mais sendo mulher…) e quando revelamos que na verdade não somos, a resposta foi: “Pior ainda”.

“Foi algo muito sutil que eu postei sem maldade nenhuma, que poderia muito bem ter sido resolvido na conversa”

Essa onda de ódio direcionada às mulheres tem um objetivo político, que é calar as mulheres. Essa tática tem sido muito efetiva. Não importa se é a YouTuber lésbica com 700k de inscritos no canal ou a lésbica recém saída do armário que está buscando novas amizades e mal tem 50 seguidores no Twitter, a violência cumpre o papel de falar que você não tem espaço, não tem voz, não tem direito a ter uma opinião. E se não obedecer, vai ser atacada. Não tem diálogo porque num diálogo é preciso escuta mútua, boa vontade e argumentos razoáveis.

As mulheres estão sempre dispostas a acolher e dialogar, até quando não deveriam – condição da feminilidade, o comportamento subalterno feminino, como define a Sheila Jeffreys – e isso é usado contra nós por pessoas que apesar de “se identificarem como mulheres” operam como homens sem pudor algum e usam de táticas patriarcais contra nós. E esse ódio foi internalizado pelas mulheres e institucionalizado no feminismo, que hoje defende transmulheres, não-binários e homens gays e negros e ataca principalmente mulheres lésbicas e feministas radicais, mas também qualquer voz rebelde e dissidente.

“É muito triste a gente ter que ficar se blindando por causa dessa repressão”

Realmente. O feminismo já foi um grito de rebeldia, e hoje, policiado ideologicamente em tempo real por meio das mídias sociais, qualquer passo fora da linha já é prontamente reprimido. Não há espaço para erro e experimentação, nem para testar novas ideias. Nem para trazer de volta ideias antigas, esquecidas, mas ainda boas e aplicáveis. E para as mulheres individuais, feministas ou não, não há espaço para reflexão e diálogo honesto, há apenas a conformidade ideológica ou o isolamento social e o cancelamento. E as mulheres têm ajudado e promovido essa censura fazendo a autocensura feminista e justificando como “justiça social”.

“Recebi ameaça de agressão, recebi ameaça de estupro, recebi ameaça em relação à minha família, tudo isso na DM. E detalhe: tudo isso não foi de macho top, foi do público LGBT, isso que eu acho mais bizarro.”

A gente acha também.

“Eu jamais faria algo pra invalidar a existência de alguém”

A gente entende o que ela tá querendo dizer, mas o que significa “invalidar a existência de alguém”? Como a existência da pessoa pode depender da nossa aceitação irrestrita da autoficção que ela constrói? Vejam bem, questionar o que as pessoas dizem sobre si é uma atividade corriqueira, não é “coisa de radical” ou “transfobia”. Eu, Adriane Rica, gostaria de poder dizer que eu sou uma pessoa pontual e organizada. A verdade é que eu tento muito – agora na pandemia estou até conseguindo – mas me coloca pra ter que andar de ônibus na cidade pra ver se eu não escolho chegar atrasada em vez de ficar lá esperando sozinha geral chegar na reunião. Minha identidade, de “pessoa pontual”, não existe separada da realidade material que são meus atrasos frequentes inclusive em compromissos sociais. O mesmo vale pra assuntos mais sérios: pais ausentes que pra não pagar pensão querem a guarda dos filhos e tentam se vender pra um juiz como super responsáveis podem se devem ser questionados, por exemplo.

O problema de fazer política com a identidade é esse: cria aberrações em que crítica política é percebida como ataque à existência, visto que a “existência” se torna um conceito relacional, que depende da validação alheia. Se o fulano barbudo fala “eu sou mulher, depile o meu pinto já que você faz ‘depilação feminina'” e uma pessoa fala “olha, eu não faço depilação masculina, que é a que se faz em pessoas de genital masculino, ou seja, pênis”, estaria, de acordo com essa tese, “invalidando a existência” da pessoa. Quer dizer, ela continua existindo, mas deixa de ser o que ela diz que é. A narrativa que ela constroi sobre si fica comprometida… pela realidade. E apontar isso vira discurso de ódio.

Parece um exemplo bobo, mas isso é uma situação real que aconteceu, em que um cara chamado Jessica Yaniv, um homem “que se identifica como mulher” processou várias mulheres, em sua maioria imigrantes incluindo uma brasileira, por transfobia. Algumas foram à falência pelos custos do processo. E temos também aqui no Brasil a situação das agentes penitenciárias, que estão sendo forçadas a fazer revista íntima em pênis, algo extremamente degradante para elas, e ainda sendo chamadas de transfóbicas por buscarem soluções para esse conflito. Elas nem são radicais, respeitam o gênero de pessoas trans, mas não querem ser forçadas a tocar em pênis por conta do trabalho. O que “invalida a existência” da roupa do rei não é a pessoa que fala que ele está nu, é a realidade dele mesmo peladão na frente de todo mundo.

“Eu postei que pra mim gênero não existia”

Esqueceu que existe um patriarcado, mas tirando isso, explicou – e muito bem, por sinal – feminismo radical e abolicionismo de gênero.

“Eu basicamente falei que pra mim, na minha visão de mundo, no mundo perfeito, eu queria que o gênero não existisse. Eu acho o gênero é opressor pra todo mundo. Sem gênero não existe o machismo (…). A igualdade de gênero é impossível, porque o gênero já é construído como uma hierarquia, gênero masculino tá acima do feminino. Se você quebra esse gênero, as pessoas viram pessoas, logo, não tem mais machismo”

Simples, direta, e correta. Quem discorda disso só pode ser conservador, antifeminista e misógino. Né?

“Não tem mais opressão de gênero, não tem mais disforia, porque, por exemplo, eu sou uma mulher “cis” [aspas da própria Pietra], sou uma mulher que se identifica como mulher. Eu não posso sair andando sem camiseta na rua. Muitas vezes eu já pensei em fazer a mastectomia pra poder ficar sem peito pra poder andar assim na rua! Ia ter que mudar o meu corpo pra ter uma liberdade que eu não posso ter, senão eu sou assediada, sou presa por atentado ao pudor, porque o peito da mulher é sexualizado, porque a mulher é mulher e o homem é homem.”

O que ela tá dizendo aqui é a experiência de muitas mulheres – hétero e lésbicas, transicionadas ou não. Se partes do nosso corpo são consideradas imorais até o ponto de termos que escondê-las, enquanto homens podem mostrá-las e se sentir confortáveis com ela, faz sentido que a reação de muitas seja rejeitar essas partes do corpo, odiá-las e querer cortar fora, não é? O feminismo vem questionar isso e dizer que o problema é a sociedade, e não seu corpo. Que é melhor mudar a sociedade do que mudar os corpos das pessoas. Por isso somos contra transicionar mulheres que “não se adequam”. Pra gente, faz muito mais sentido fazer peitaço do que mastectomia!

“Quando eu falei que não acreditava em gênero, perguntaram se eu era não-binário.

🙄

“Pra quem não sabe, pessoas não-binárias são pessoas que não são binárias, binário é homem ou mulher, então são pessoas que não se encaixam nesses dois padrões de gênero. E eu respondi que não, não sou não-binária, porque se eu afirmasse que eu era não-binária eu ia aceitar o binarismo pra dizer que eu tô fora dele”

E tem outro jeito de ser feminista? A gente diz que é ‘mulher’ porque o patriarcado nos fez assim, a socialização feminina fez e faz isso com a gente o tempo todo. Nomear a condição é um ato essencial pra superá-la. A gente não “se identifica” como mulher, a gente existe objetivamente enquanto mulher, porque é isso que é feito com quem nasce do sexo feminino na sociedade patriarcal. Falamos que somos mulheres para poder no futuro deixar de ser! E não é fingindo que somos outra coisa, homem trans, não binário ou o que seja, não é mudando na linguagem, mas na realidade material. Queremos acabar com a divisão da sociedade em classes sexuais, exatamente como a Pietra falou lá atrás.

“Só que o gênero, por mais que eu queira que ele não existisse, ele existe, então a gente convive com ele né, fazer o que. E eu coloquei isso, falei que no mundo ideal, pra mim, eu queria que as pessoas nascessem só pessoas”

De novo: tem como discordar disso sem se revelar conservador, fundamentalista de gênero?

“Por exemplo, a gente nasce com o nosso sexo biológico, mas isso não importaria nada porque não teriam expectativas para isso, por exemplo, eu nasci com uma pepequinha, então vou ter que ser um mulher, o que é ser uma mulher? É se vestir de tal forma, atender expectativas desse gênero em comportamento, em aparência”

Nada a comentar aqui, na nossa opinião isso no contexto do movimento feminista nem deveria ser polêmico, mas estamos vivendo uma onda conservadora inclusive dentro do movimento né, infelizmente, e tem gente defendendo gênero e atacando mulheres, sendo que o objetivo político do feminismo é exatamente o contrário disso.

“O que eu queria dizer é que quando você nasce e você olha pro seu sexo biológico, ele não importa em como você vai se expressar, você é livre pra se expressar da maneira que você quiser. E eu achava que era isso que as pessoa trans em sua maioria também acreditavam, porque elas também sofrem muito com as expectativas de gênero. Todo mundo sofre muito com isso”

Faltou pra Pietra ler nosso texto sobre autoginefilia pra entender que o sofrimento de uns é opressão, enquanto o de outros é um fetiche sexual reprimido. O feminismo não tem nada a ver com o segundo. E digo mais: assim como ser ‘não binário’ pressupõe que exista um binário, ‘transgressão’ pressupõe uma regra. O deleite de ‘experimentar o gênero’, um fetiche decididamente masculino, só faz sentido com a manutenção da opressão das mulheres por meio do gênero e da divisão sexual do trabalho. Como eles priorizam o próprio prazer, atacam as feministas. Sua prioridade é masculina, seu movimento é conservador.

“Não existiria isso de ‘cis’ ou ‘trans’ porque não existiria gênero.”

Sim! E é por isso que o único projeto político que aborda a questão da disforia de gênero com uma solução real é o feminismo radical. De resto, existe só a universalização do sofrimento.

“E aí foi isso que eu postei (…). E aí eu postei embaixo que isso é uma ideia utópica que eu tenho sobre isso, que isso não acontece agora, e como gênero existe, as pessoas têm sim que se sentir confortáveis pra expressar o gênero da maneira que elas se sentirem felizes, então se o gênero existe, vamos lidar que ele existe, é por isso que eu me considero uma mulher lésbica, porque senão não teria nem sentido eu me considerar lésbica porque eu não seria mulher se o gênero não existisse”

As queers tão teorizando a dissonância cognitiva apontada pela Pietra ignorando o termo ‘lésbica’ e reivindicando que ‘sapatão’ é uma identidade de gênero transmasculina e não equivaleria a ‘lésbica’. É o famoso puxadinho teórico: quando o centro da teoria não faz sentido você estica ela pra cobrir o que precisa, e depois apara as pontas pra ficar no formato desejado. Faz sentido? Não. Mas é uma problematização chique.

“E eu realmente me expressei mal ao dizer que era uma ideia capitalista liberal, as pessoas já levaram pro lado de que o capitalismo e o liberalismo que criaram o gênero. Não foi isso que eu quis dizer. Eu quis dizer que o capitalismo e o liberalismo econômico lucram em cima dessa ideologia de gênero. A gente sabe disso. Foi isso que eu postei.”

Aqui foi na trave, Pietra. Assim, a crítica faz sentido porque a divisão da sociedade em classes sexuais diferentes, ou seja, homens e mulheres, precede em muito o desenvolvimento do capitalismo e do liberalismo. Por isso a gente usa o conceito de patriarcado pra ajudar a localizar a exploração das mulheres na história e caracterizar a dominação masculina e forma como ela estrutura as sociedades. Mas de resto, correto, o capitalismo reforça essa divisão e a explora para o lucro das mais diversas formas.

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Traduzindo: O capitalismo também depende do trabalho doméstico.

“Aí uma pessoa não-binária postou uma montagem me ridicularizando, colocando meu rosto num vestido, escrito ‘radfem’ e colocou um trans não-binário falando ‘vai estudar, Pietra’, e a galera começou a me descascar: transfóbica! transfóbica!”

Daqui pra frente a Pietra explica que foi sim influenciada pelo feminismo radical, e que hoje não se identifica mais como ‘feminista radical’ por que concorda com vários pontos de várias correntes (mas não explica quais). E tudo bem! A gente fica feliz que o feminismo radical serviu para te dar respostas sobre questionamentos muito comuns a várias lésbicas hoje, sobre a nossa relação com gênero, corpo, disforia e masculinidade, se somos mulheres ou não e o que significa ser mulher. A disputa ideológica que a gente faz não é só porque queremos provar que estamos cercas (algumas coisas são autoevidentes rs), mas porque sabemos que compreender essas questões salva vidas lésbicas. Salva a gente de mutilar nossos corpos para nos enquadrar em ideias conservadoras sobre o que é ser homem ou mulher. Salva a gente de se sentir mal por não ser tratada como a gente gostaria, e de sentir culpa por não se adequar. Então que bom que funcionou pra você!

Também não vamos entrar em detalhes aqui sobre os pontos que discordamos, ou tentar comentar sobre o que a Pietra afirma sobre algumas radicais serem realmente transfóbicas (como ela não explica o que quer dizer, não tem como a gente refutar). Mas vamos fechar falando o seguinte: a violência que a Pietra recebeu por falar coisas simples e óbvias sobre gênero e como lésbicas se relacionam com gênero é mais uma evidência das intenções de quem é a favor do gênero. O sentimento de ódio que um discurso abolicionista de gênero desperta não tem outra justificativa, é a reação violenta daqueles que querem manter o gênero. E se acabar com o gênero é a missão do feminismo, quem deseja mantê-lo é por definição antifeminista, não importa se a pessoa é neoconservadora, da Opus Dei, bolsominion, cultua o sagrado feminino ou é queer. Nem toda ‘valorização da mulher’ é feminismo. Não tem nada de feminista na valorização da mulher como submissa. Lembrando lá atrás de como a Jeffreys define feminilidade: o comportamento subalterno feminino. Ele é imposto, e tem que acabar. A feminilidade tem que acabar. O gênero tem que acabar. Só tem um nome pra quem ameaça de estupro e morte quem faz essas afirmações políticas: misógino. Descancelem a Pietra, ela não está errada e não falou nada demais.

Tem algo de muito errado com um feminismo e um movimento LGBT em que uma lésbica recebe ameaças de morte e estupro e tem que fazer vídeo pedindo desculpas.

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