Precisamos falar sobre misoginia e o apagamento da história das lésbicas negras na comunidade LGBT

Esse foi publicado originalmente no AfterEllen, site lésbico estadunidense que tem dado espaço para discussões importantes que foge do que hoje é considerado como politicamente correto, mas com frequência é factualmente e historicamente incorreto. Postado com a chamada “Lésbicas negras estão sendo apagadas da história LGBT por causa da misoginia”, o texto recupera o levado de Stonewall, que tem sido atribuída à figura de Masha P. Johnson, na tentativa de falsificar a história para forjar lideranças “mulheres trans” em um passado em que esses homens não estiverem presentes.

Malcom, um homem gay e negro que fazia Drag Queen (“Masha” era seu nome artístico), foi transicionado à sua própria revelia na memória alheia e colocado no centro de uma revolta em que não esteve presente. Ele mesmo afirma que chegou depois, mas a narrativa falsa de uma “mulher trans” é sedutora e estratégica demais para um movimento que se forjou falsificando histórias, tanto a social quanto as histórias pessoais, afirmando não só que “pessoas trans sempre existiram” (quando na verdade o fenômeno da transexualidade é uma invenção recente ligada à conservadora sexologia) e que uma determinada pessoa trans “sempre foi trans” mesmo antes de transicionar.

Explicado esse contexto, esses homens não são o foco aqui. O foco são as lésbicas negras que construíram o movimento que hoje serve para movimentar milhões de dólares fazendo paradas, festas e produzindo pornografia violenta. Lésbicas que eram feministas e propunham uma sociedade muito diferente da distopia gay das barrigas de aluguel e chicotes sadomasoquistas. Lésbicas que rejeitavam “se identificar como mulheres”, numa linguagem mais contemporânea, rejeitando as expectativas sobre aparência e comportamento que recaem sobre as mulheres na sociedade patriarcal, confrontando o racismo e a misoginia para transformar a sociedade. Lésbicas que não falavam apenas em “visibilidade e aceitação”, mas marchavam em defesa da revolução feminista, do orgulho e do prazer lésbico. Lésbicas como Stormé DeLarverie, quem de fato deu o primeiro soco que serviu de estopim para toda essa história.

Precisamos Falar Sobre Misoginia e o Apagamento da História das Mulheres Negras Pela Comunidade LGBT

traduzido por Gi Thomazini para o Blogueiras Radicais

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Portrait of two young women

Encontrar histórias de nossas antepassadas negras não é sempre uma tarefa fácil. E isso não é porque elas não existem. Apesar do que os livros de história nos contam, mulheres negras lésbicas estiveram por aqui por centenas de anos, vivendo vidas preenchidas com o extraordinário e o cotidiano do dia a dia. Mulheres como Stormé DeLaverie têm conduzido revoluções. E mesmo assim histórias de mulheres negras lésbicas são difíceis de serem encontradas.

As pessoas que tradicionalmente dominaram o poder de decidir quais acontecimentos poderão ser lembrados como história são brancas, do sexo masculino, e envolvidos na ordem social que faz mulheres viverem suas vidas em torno de homens: o sistema do heteropatriarcado. Na maioria das vezes, esses historiadores consideram as experiências e a vida particular de mulheres negras inferiores demais para serem noticiadas. Reflexões mais íntimas sobre a vida da mulher negra mediana em algum momento nas últimas centenas de anos poderiam trazer o risco de tornar muito mais difícil manter o mito de que pessoas negras não são realmente seres humanos, trazendo à tona as verdades incômodas da supremacia branca.

Além do mais, as histórias de mulheres lésbicas têm sido deliberadamente apagadas da história em todos os continentes e culturas. Como resultado, as vidas de mulheres negras lésbicas são muito mais desconhecidas. Homens esperavam que, ao negar às mulheres um plano para uma vida lésbica, eles poderiam nos confinar a heterossexualidade – a uma fonte inesgotável de trabalho sexual, reprodutivo, doméstico e emocional. Mas mulheres lésbicas sempre se encontraram, em todas as épocas, mesmo com as probabilidades contra elas – ainda que muitas cartas, diários e fotos que compunham a prova disso tenham virado pó.

Assim, a história lésbica é difícil de ser encontrada. A história lésbica negra é ainda mais difícil. É graças aos dedicados esforços de mulheres lésbicas e feministas nos últimos quinze anos – historiadoras, acadêmicas, ativistas, arquivistas e todas que são engajadas pelo mesmo objetivo – que nenhuma dessas histórias reprimidas rompeu a superfície da consciência pública.

Para cada passado lésbico que conhecemos, outras inúmeras histórias de mulheres foram enterradas para sempre pelo vandalismo cultural.

Audre Lorde foi e é uma inspiração para mulheres em todo o mundo. Ela era profundamente consciente do que a falta de histórias lésbicas visíveis significava para as mulheres – como isso tornava a vida lésbica ainda mais difícil de ser reivindicada. Em Zami, sua própria historia, Lorde escreveu: “até hoje eu acredito que sempre houve sapatões negras por perto – no sentido de mulheres poderosas e centradas em mulheres – que prefeririam ter morrido do que usar esse nome para si mesmas”. Lorde descreveu Zami como uma biomitografia. Isso significa que além de documentar as verdades literais e espirituais da sua própria vida, ela também estava ajudando a construir o mythós que é parte de uma cultura, comunidade e identidade coletiva.

Quem foi Audre Lorde e o que ela nos ensina sobre autocuidado feminino -  CartaCapital

Eu sou grata a Audre Lorde por ter tido a visão e generosidade de preencher essa lacuna, de diminuir a falta de histórias de lésbicas negras. Lorde morreu no ano em que eu nasci, então, apesar de relativamente recente, sua vida é história para mim. É um ponto de conexão com esse mundo. Também é uma modelo de referencia de como viver minha própria vida de lésbica negra nele. Durante minha criação dentro do catolicismo, eu não era exatamente encorajada a buscar histórias de mulheres lésbicas como fonte de inspiração. Apesar de minha mãe também ser lésbica, o mais próximo que chegamos a conversar sobre representação foi quando ela notou meu entusiasmo pela Tempestade, do “X-Men”. Storm era a única super-heroína que eu conhecia que não era apenas uma garota assim como eu, mas também negra como eu: a primeira evidência que eu vi de que mulheres negras até poderiam ser o herói.

Representação negra, representação feminina e representação lésbica não são sempre fáceis de encontrarespecialmente quando você procura por todas as três ao mesmo tempo. E é por isso que pareceu como tomar um chute nos dentes quando o Centro Nacional para os Direitos das Lésbicas (National Center for Lesbian Rights) apagou Stormé DeLarverie como a revolucionária que iniciou a Rebelião de Stonewall e inspirou o movimento internacional do orgulho gay [nota das Blogueiras: “Pride movement”, no original, que significa literalmente ‘orgulho’, e é associado ao termo ‘gay’, que em inglês era usado de modo a incluir principalmente homens homossexuais mas também mulheres homossexuais, e mais recentemente foi virando a sopa de letrinhas que conhecemos].

Stormé, com toda sua magnificência negra sapatão, se expôs a um risco extraordinário para lutar contra a injustiça – e ela merece ser lembrada por isso. Ainda que a vida esteja longe de ser perfeita para gays e lésbicas ao redor do mundo, suas ações pavimentaram o caminho para o progresso que usufruímos hoje.

E, mesmo assim, no Twitter e no Facebook, a NCLR escreveu o seguinte post:

“Hoje é o 49º aniversário da Rebelião de Stonewall. Liderada por mulheres transexuais negras, a primeira #Pride [orgulho/parada do orgulho gay] foi um protesto: ela sempre foi política. Hoje, mais do que nunca, nós estamos seguindo a liderança de nossas mães do movimento: Marsha P. Johnson & Sylvia Rivera e lutando por todo o povo LGBTQ.”

Mas foi Stormé DeLarverie quem liderou a resistência à brutalidade policial homofóbica no Stonewall Inn. Quando a polícia invadiu Stonewall, um famoso bar gay em Greenwich Village, eles atacaram as pessoas com punhos e cassetetes. Drag kings e queens, assim como gays e lésbicas assumidos, foram presos. Aqueles sortudos o suficiente para conseguir escapar da prisão se reuniram no lado de fora, ou para testemunharem ou para aguardarem seus amigos e namorados. Quando a polícia usou violência contra ela, Stormé revidou: “O policial me bateu e eu bati nele de volta.” Quatro policiais a atacaram e a algemaram em resposta.

Quando Stormé alegou que suas algemas estavam muito apertadas, um dos policiais bateu na cabeça dela com o cassetete. Ela se virou para a multidão e gritou “Por que vocês não fazem alguma coisa?” E foi assim que as sementes da rebelião foram plantadas. A revolução de Stonewall teve seu pontapé inicial enquanto Stormé era colocada em uma van policial.

Em 28 de junho de 1970, o primeiro aniversário de Stonewall, gays e lésbicas marcharam em Nova York, Chicago, e Los Angeles. No ano seguinte, no segundo aniversário, as marchas se espalharam para Paris, Londres, Berlim e Estocolmo. O Movimento de Orgulho Gay tinha nascido.

Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera foram ambos* figuras incrivelmente importantes na organização da população LGBT, e acredito que seja absolutamente vital se lembrar deles. Os dois fundaram a Street Transvestite Action Revolutionaries (Revolucionários da Ação de Travestis de Rua), um projeto comunitário criado para ajudar jovens drag queens sem teto. Ambos se descreviam como homens gays e drag queens que tornavam esse mundo um lugar melhor. Durante a crise da AIDS nos anos 80, Johnson passou a lutar com fervor por proteções legais, pesquisas e tratamento médicos, e políticas estruturais elaboradas para proteger pessoas que viviam com o vírus. Rivera lutou por pessoas transexuais, homens de aparência feminina, e mulheres sapatonas nos movimentos de orgulho LGBT por todo o mundo.

Ainda que Johnson tenha participado da revolta de Stonewall, ele não iniciou a rebelião – e de acordo com seu testemunho aos historiadores, foi levantada a informação de que Rivera não estava lá e, portanto não poderia ter dado o primeiro soco. E, ainda assim, é impossível negar que Marsha e Sylvia trouxeram tantas coisas boas para a comunidade LGBT. É insultante para seus legados sugerir – como NCLR fez – que qualquer um dos dois precisa ser lembrado pelas ações de Stormé para serem dignos de serem lembrados como ícones do LGBT.

Considerando quão incompleta é nossa imagem da história lésbica, e quão precária sua preservação continua sendo, a NCLR foi profundamente irresponsável ao tornar uma lésbica negra e sapatão invisível dentro de sua própria história.

Os posts deles me lembraram um romance de jovens adultos que eu li uma vez sobre crianças em idade escolar no Texas logo após a dessegregação. No recital de natal, uma garotinha negra encanta a todos com sua voz. Ela fica de pé atrás da cortina enquanto uma garotinha branca vestida de anjo dubla no meio do palco e recebe aplausos arrebatadores. Uma garotinha negra não era considerada digna de ser o anjo natalino. Algo semelhante aconteceu no filme que dramatizou Stonewall: previsivelmente, homens brancos foram o foco e formaram os rostos da resistência – Stormé não apareceu em nenhum lugar.

Existe uma longa e dolorosa história de mulheres negras que tiveram os devidos créditos negados por suas conquistas, de mulheres negras lésbicas sendo completamente apagadas. E a NCLR aumentou isso.

Stormé, Marsha e Sylvia eram todos pessoas de cor, homossexuais e em não-conformidade de gênero em um contexto onde era extremamente difícil de ser qualquer uma dessas coisas, que dirá as três juntas. Mas Stormé era uma mulher. Marsha e Sylvia, em suas próprias palavras, eram homens gays e drag queens – homens pouco convencionais, mas igualmente homens. E pela forma que a história foi construída, nós fomos ensinadas a valorizar homens e apenas homens. Esse problema é tão profundo que as pessoas ficam confusas sobre como celebrar as conquistas de uma mulher e as atribuem a um homem também para evitar o dilema. Foi assim foi com a descoberta do DNA, a invenção da internet, e agora parece que há o risco de acontecer o mesmo com a narrativa da rebelião de Stonewall.

O apagamento da Stormé pela NCLR veio num momento volátil na comunidade LGBT. A tensão entre políticas de gênero radicais e queer se tornou explosiva. A misoginia tem sido um problema na comunidade LGBT desde o começo, porque a misoginia está no núcleo da sociedade – e enquanto a comunidade LGBT está centrada em desafiar as políticas por trás da maioria dos males sociais, a misoginia, de alguma forma, continua a passar despercebida.

A Gay Liberation Front [Frente da Libertação Gay] da Grã-Bretanha, grupo radical de homens gays e mulheres lésbicas dos anos 70 que se uniram para fazer um trabalho extraordinário, acabou desmoronando por causa do sexismo. Até hoje, a misoginia ainda é uma fratura na base da solidariedade LGBT compartilhada. Ainda que feministas lésbicas estejam falando sobre isso por pelo menos 40 anos, o problema permanece amplamente ignorado.

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Mês passado durante o Orgulho LGBT, o Pink News [nota das BR: site de notícias LGBT notadamente queer e misógino] divulgou que um terço das mulheres lésbicas e bissexuais entrevistadas disseram não se sentir confortáveis o suficiente em espaços comunitários para sequer considerar ir a celebrações do Orgulho LGBT. Apesar de estar destacando um problema generalizado, o Pink News em nenhum momento destacou o sexismo como uma causa das mulheres se sentirem isoladas. E a misoginia não é única forma de intolerância que divide a comunidade. O racismo nos divide também. A maioria da população LGBT negra relatou experienciar “descriminalização ou tratamento inferior” em sua rede LGBT local em um projeto recente de pesquisa da Stonewall [ONG].

A vida na intersecção da misoginia, do racismo e da homofobia é seu próprio tipo peculiar de dificuldade – assim como Stormé e qualquer outra lésbica de cor sabe. Precisa existir espaço para nós que estamos sob o guarda-chuva arco-íris falarmos sobre como fomos marginalizados quando chegamos procurando abrigo.

Nós precisamos ser capazes de ter debates difíceis sobre o que não está funcionando nos espaços LGBT – conversas onde ninguém sinta medo de ser honesto; senão, nada vai mudar. Nós ficaremos presos lutando as mesmas batalhas entre nós mesmos ao invés de usar nossa energia para desmantelar o heteropatriarcado supremacista branco e capitalista. Dentro da comunidade LGBT existem necessidades, interesses e objetivos concorrentes – é uma comunidade ampla que está constantemente crescendo. E se nós aprendermos uma coisa com a experiência compartilhada de sermos forasteiros em um mundo heterocêntrico, deveria ser sobre a importância de achar caminhos para reconhecer e aceitar a existência de nossas diferenças dentro da comunidade.

Até que consigamos lidar com as diferenças coletivamente, nós continuaremos presos dentro de ciclos supérfluos de rivalidade.

Uma feminista negra que respeito profundamente disse algo que ficou marcado em mim e moldou minha postura com relação às lutas coletivas. Na primeira conferência anual Women of Colour in Europe [mulheres de cor na Europa], Akwugo Emejulu destacou que nós pessoas marginalizadas precisamos parar de pensar no sucesso e reconhecimento do outro como uma ameaça. Ela disse que precisávamos parar de brigar pelo mesmo pedacinho de espaço, porque essa mentalidade de escassez nos impedia de olhar para o quadro geral.

Porque deveríamos tentar tomar esse pedacinho de espaço e reconhecimento uns dos outros quando as pessoas mais poderosas – brancas, heterossexuais, sem deficiências, de classe média, e todo o resto – têm a vasta maioria do espaço na vida pública? Ainda assim essa mentalidade de escassez molda como pensamos sobre nós mesmas e umas das outras, a não ser que isso seja desaprendido conscientemente. Ela nos ensina a pensar que nós podemos celebrar Stormé ou Marsha, Stormé ou Sylvia, em vez de ver que podemos honrar todos eles por conquistas diferentes.

Traduzir línguas que não usam gênero gramatical, como o inglês, é sempre um desafio, e a gente aqui do Blogueiras acha importante traduzir sendo mais fiel possível ao sentido original, e não fazer uma leitura ideológica (que promova uma falsa consciência) e nos aproveitando das ambiguidades causadas pela diferença linguística. Masha P. Johnson era o nome artístico usado por Malcolm, um homem gay e negro que fazia drag. “Transvestite” no contexto da época não era reivindicado ou sequer conceitualizado como uma “identidade de gênero”, e sim como uma prática artística/performática ou uma atividade cultural praticada por homens gays e também por homens héteros e clubes de cavalheiros. O movimento trans hoje faz uma leitura anacrônica dessas pessoas, conceitos e histórias de vida, reivindicando que essas seriam trans, e que temos que tratar no feminino ou seria transfobia. Independente da sua opinião sobre a questão dos pronomes, chamar esses homens no masculino é falsificar a história e apagar suas identidades. Por isso os chamamos no masculino aqui na tradução, seguindo o texto original, que é taxativo ao se referir a ambos como homens gays.

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