Carta aberta de uma sobrevivente do mundo hétero

O texto de hoje, contribuição de uma leitora, se relaciona com uma questão importante para o feminismo radical, que é: o que te torna uma lésbica? O que significa ser lésbica numa sociedade patriarcal? Quando defendemos o uso do termo ‘lesbianismo’ afirmando que é uma ideologia e que sua grafia segue em paralelo ao termo ‘feminismo’ (ao contrário do histórico de ‘homossexualismo’ e diferente de ‘heterossexualismo’ e ‘bissexualismo’, que não existem), o que estamos fazendo é defender que a questão da identidade, embora relevante, é secundária para o feminismo radical.

Foi por isso também que fizemos um mês temático de lesbianismo em agosto, e não simplesmente um “mês da visibilidade das lésbicas” falando sobre qualquer coisa tipo sei lá, veganismo. Isso foi mal recebido por leitoras, principalmente quando fizemos a divulgação da chamada aberta – nosso jeito de receber colaborações – e avisamos que mulheres heterossexuais e bissexuais também poderiam mandar textos (ainda que tenhamos deixado claro que esses textos não seriam publicados necessariamente em agosto). E agora, em setembro, recebemos as críticas previsíveis por manter a coerência e decidir não fazer um mês de valorização de uma identidade, e sim uma programação voltada para questões políticas.

Afirmar que há algo fundamentalmente diferente nas mulheres que não são heterossexuais vai contra o que o feminismo radical defende sobre a heterossexualidade ser um regime político, e não apenas uma identidade, orientação sexual ou norma. Qualquer que seja sua opinião sobre a tese do lesbianismo político (nós aqui temos várias), é inegável que a politização da sexualidade é central para o feminismo radical. E que a nossa concepção de política difere da concepção liberal e queer, e para nós ‘viver vidas autênticas’ ou ‘afirmar sua identidade’ não significa muita coisa. Nem tudo é político. Nem tudo das nossas vidas que desvia do padrão tem relevância política ou desafia sistemas de opressão automaticamente.

Sacralizar as identidades e fazer política baseada na afirmação das diferenças torna relatos como o dessa carta abaixo incompreensíveis. Como é possível sobreviver ao mundo hétero? É possível se tornar uma lésbica? Alguém que teve relacionamentos com homens, dedicou amor, carinho, tempo e trabalho nessas relações não é, enquanto está nessas relações, hétero? A exploração do trabalho reprodutivo que acontece no interior de uma relação heterossexual deixa de ser um efeito do regime político da heterossexualidade compulsória caso a mulher se identifique como bissexual? Quando uma mulher bissexual decide não se relacionar mais com homens, reivindicar essa identidade ainda faz sentido? Se ‘ser bissexual’, como afirmam algumas, é uma “posição política”, qual o objetivo político do movimento que formulou a ideologia e desenvolve a teoria do ‘ser bissexual’?

A resposta para essas perguntas já foi mais óbvia. As radicais da nossa geração, não importando grau de escolaridade ou acúmulo de leituras, via de regra têm uma base teórica eclética, incorporando contribuições de campos incompatíveis e tomando como universais concepções específicas que não têm espaço no feminismo radical como “heteronormatividade”, “autoidentificação”, “representatividade” e “interseccionalidade”. É difícil fazer um bom debate teórico quando sua identidade é a sua política, corrompendo nosso famoso slogan para compreender não que “o pessoal é político”, mas que o político é pessoal. Discordâncias e críticas viram motivo de ofensa, repúdio, dislikes e unfollows. Mas seguimos brigando por todos os meios possíveis para politizar – de fato – a discussão de hoje sobre sexualidade.

Carta aberta de uma sobrevivente do mundo hétero

por Lara Marinho

À partir do momento em que me vi no armário, eu saí. Quer dizer, vivi muito tempo nele, claro: dos meus 14 anos, quase 15, quando dei o meu primeiro beijo, até os 20 ou quase 20. Na verdade antes disso também estive no armário. Antes do beijo, minhas fantasias se resumiam a contos de fadas que eu nunca sentia vontade que de fato se realizassem. Eu sentia um descontentamento, um desespero, uma vontade de gritar que parassem de ficar no meu pé para falar de meninos. E que eles parassem, por um segundo, de fazer o que hoje em dia eu entendo como assédio: insistir em ter minha atenção e ficar comigo até tirar toda a minha energia.

Lembro que quando eu era bem novinha pedi para meus pais me trocarem de turno na escola para me livrar de um menino, e senti um alívio muito grande quando meu pai foi transferido no trabalho e mudamos de cidade. Lembro também de um garoto no fundamental que falava frases de sexo para mim, frases sujas que, mesmo que eu não entendesse bem o sentido, fizeram eu me sentir violada. Uma vez pesquisei na internet o que ele queria dizer com determinada palavra e me deparei com um site pornô. Hoje em dia percebo que provavelmente aquele garoto foi vítima de acesso precoce à pornografia e o que ele fazia comigo era um reflexo da socialização que ele teve e da maneira como ele aprendeu a enxergar as mulheres.

Eu me sentia tão mal pelas investidas dos garotos que não gostava nem que eles encostassem em mim, eu sentia nojo. Me pergunto se no minha irmã e minhas amigas realmente não percebiam que havia algo de diferente na maneira como aquela garotinha estava tão brava com aqueles meninos, não se atraia por eles.

Eu poderia dizer que era feminista ou sapatão por natureza. Mas feminista é preciso aprender a ser, você lê sobre o assunto e encara essa luta política, logo, eu era uma menina lésbica sem saber. Me pergunto se a heterossexualidade é tão compulsória que vendou os olhos de quem convivia comigo para identificar em mim uma garota sapatão. Quando dei o meu primeiro beijo, eu sentia que precisava fazer aquilo. Na verdade eu só queria me sentir normal e desejada, queria saber qual a sensação de beijar e entender porque isso era algo tão importante para todas as outras garotas que eu convivia.

Mas mesmo assim, adiei o beijo e o “romance”, talvez por um desinteresse subconsciente de beijar aquelas bocas masculinas. Me escondi em livros, o que acabou me ajudando depois. O fato é que durante esse período de descobertas e sentimentos, que é a adolescência e o início da juventude, eu quase não sentia nada, porque eu estava lá: no armário, adormecida. Entorpecida por um mundo heterossexual que me sufocava quase que até a exaustão, envolvida nessa atuação quase perfeita – mais pra mim mesma do que para os outros – de “Eu te amo” vazios e trocas de olhares que quase sempre não levavam à nada.

Minha realidade era tão envolta de uma fachada de concreto heterossexual que na minha infância eu nem sabia que existia a possibilidade de amar mulheres. Eu não tinha referências, e ser a primeira pessoa na família a ser assumidamente homossexual não é só triste (quando penso nas vidas que não foram vividas) mas também desafiador. É difícil viver em um mundo onde os parâmetros são suas próprias escolhas como é o mundo de ser lésbica, sem receitas prontas como a receita heterossexual de formar, casar e ter filhos. Receita que as pessoas geralmente seguem ou perdem a vida tentando seguir, sem questionar muito.

De qualquer forma, esses anos adormecida no mundo hétero não foram sobre escolha. Foram sobre sobrevivência. Se existe algo de que posso tirar proveito no meu tempo vivendo no mundo hétero é que as pessoas não têm absolutamente nenhuma noção do quão cômoda é a vida delas, não percebem o quanto a quantidade exagerada de referenciais que elas têm moldam as suas formas de pensar e agir no mundo o tempo todo. Percebi que elas tendem a perguntar umas às outras, indignadas, “Por que ele ficou tanto tempo no armário? Por que ela se casou e teve filhos? Como ela teve coragem de mentir para o marido?” Como se nós fossemos autorizados socialmente a assumir para nós mesmos de quem nós gostamos. Como se o armário não fosse uma mentira até para nós mesmos.

Por isso tudo afirmo que assim que me percebi no armário, saí. Quando percebi que me lembrava perfeitamente do rostinho da Rafinha, minha melhor amiga aos 4 anos, mas não me lembrava em nada do rosto do Orlandinho, o garotinho que família e amigos brincavam sobre ser meu namorado, quando me lembrei das admirações secretas que se transformavam em tentativas de amizade ou rivalidade rápido demais para que eu pudesse perceber. Quando percebi sobre os toques sutis e a falta de forças para resistir a experiência de beijar uma garota na adolescência e, depois disso, a necessidade crescente de arranjar um namorado, um homem para me validar. Quando me lembrei e refleti sobre os beijos em garotos de festinha, todos tão forçados, ruins. quando percebi tudo isso, saí do armário. No mesmo instante. Após me perceber ali não aguentei nenhum segundo a mais. Minha infância e juventude são recortes de histórias que só agora posso entender e contar. Por isso percebo o quanto é importante essa fase da formação humana, o quanto nós somos inteligentes e sensíveis ao meio.

Meu pensamento pode parecer conservador ao afirmar que crianças não deveriam ser expostas à sexualidade. Concordamos que sexo, namoro e relações pessoais típicas de adultos não deviam ser expostas para crianças. Elas deviam ter uma noção básica de que essas relações existem, claro, deviam ter noção de que todas essas relações existem, mas só. É assim, por meio dessa exposição da mídia, dos veículos de comunicação, das pessoas influentes e, inclusive, das supostas “feministas” liberais, que usam seus corpos como mercadoria sexualizada, que meninas são hipersexualizadas desde crianças.

Não estou falando que uma criança de 11 anos escolhe se relacionar com homens adultos, mas que essa criança foi treinada para achar que isso era algo possível e aceito para ela, o que de fato é, porque a sociedade trata assim. Mas, quando acusam a comunidade GBT e/ou a as lésbicas de estarem forçando uma exposição da vida sexual e sexualidade às crianças, o que os conservadores não entendem é que essa exposição já acontece. Mas é a sexualização heterossexual que temos acesso diariamente, e que tem como objetivo manter a ordem patriarcal.

Mesmo depois de perceber que a minha questão com os homens não era atração sexual, eu ainda insistia em me relacionar com eles. Eu percebi que mesmo que minha atração por eles não fosse sexual, eu ainda tinha muitos tipos de atração por homens, meu afeto era direcionado à eles, minha sensação de ego, de eu, de beleza, de validação… Tudo isso era voltado para o que eles pensam sobre mim. E é por isso que até hoje preciso me policiar para não superestimar os homens que, apesar de tudo que me despi para agradar à eles, sorriem para mim e me aprovam. Eu sei que não preciso da aprovação deles, mas preciso me lembrar disso todos os dias.

É difícil afirmar a sua própria existência quando ela nega ou, no mínimo, não se importa com o que fomos ensinadas desde sempre que era a coisa mais importante do mundo: os homens. Por isso, a experiência de ser lésbicas não poderia ser mais oposta à experiência de ser gay. Os homens são ensinados a odiar as mulheres, a se sentirem superiores a elas. Homens podem sentir nojo de mulheres. Eles seguem a vida achando que é perfeitamente natural não consideram as palavras, pensamentos ou presença de mulheres como merecedoras de atenção e admiração. Garotos gays apenas exacerbam esse valor, a admiração e atração que sentem por homens. Ter nojo de vaginas, no fundo, não é algo exclusivo a homens gays. E a exaltação do falo masculino é uma regra que, na minha adolescência, implicitamente vi ser compartilhada por todos os garotos, de todas as sexualidades.

Quando me sentava em uma carteira com um pênis desenhado e todas as outras carteiras, livros e paredes da sala de aula tinham esse desenho, exaltado pelos mini homens que ali coexistem comigo, eu sabia: o falo era a ordem. Portanto amar mulheres era uma subversão que eu ainda não teria coragem de sustentar ou imaginar. A experiência gay, ainda que difícil, não é a mesma experiência lésbica. Nós fomos ensinadas a doar nosso tempo, atenção, beleza, caráter, dons e habilidades para os homens. Fomos ensinadas que existir para eles era a ordem natural da vida. Como questionar essa existência?

Quando me percebi nesse estado, que por um tempo eu chamei de bissexualidade, senti ódio do meu corpo, dos meus pensamentos. Ódio de tudo em mim que lembrava deles, ódio de tudo que fiz e deixei de fazer para agradá-los, de todas as vezes que me intoxiquei e nem estou falando de maneira totalmente metafórica. E você sabe, não importa o quão conservadora você seja, se você é mulher e está lendo esse texto, sabe que pelo menos 80% do que você é foi construído para agradar aos homens e que se você fosse livre tudo seria diferente. Desde seu cabelo até a sua relação com inteligência, independência e força. Você sabe que você já fingiu ser frágil em um encontro, que você não é você mesma.

Eu pensava que eu era a atriz, por ser lésbica, mas todas somos, todas atuamos em troca de validação masculina. Esse é um processo natural de se libertar da masculinidade que atua nos nossos pensamentos e nos nossos corpos: arrancar. Arrancar de si a feminilidade, os falsos sentimentos que acreditamos ser próprios de nós mesmas, as ideias, criatividade e intelectualidade limitadas. Arrancamos de nossas peles todas as marcas, feridas e dores que sofremos para viver de acordo com eles. Tudo que ouvimos eles sussurrarem entre eles sobre o que gostam ou deixam de gostar no que eles entendem que sejam as mulheres. E nos reconstruímos, não só fazendo o exercício diário de viver com nossas próprias regras, mas nos afirmando enquanto mulheres que não amam homens, mulheres que, apesar de viver em uma cultura que não ama mulheres, as amam, as priorizam e as valorizam.

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