Visibilidade para quem?

por Adriane Rica

O movimento lésbico tem uma história complicada com a questão da representatividade. “Visibilidade”, a principal bandeira que articula lutas e campos políticos distintos nesse movimento, não consegue mais agregar sujeitos políticos em torno de uma luta comum. “Visibilidade”, mas onde? “Visibilidade”, mas para quem?

Pautar visibilidade significa compreender que a invisibilidade existe e que ela é um problema. Nenhuma polêmica aqui, não é? A coisa começa a se complicar quando percebemos que perguntas muito básicas sobre a bandeira da visibilidade hoje estão sem resposta: queremos ser vistas por que? Por quem? E onde?

Parece óbvio, mas não é. Na verdade, as respostas só parecem auto evidentes porque a política se desenvolveu de tal forma que a afirmação da identidade se basta, deixando de ser um meio para transformação social e se transformando no fim da política. A força e importância dos discursos do “eu sou” é tamanha que confrontar as autonarrativas hoje é considerado violência e opressão. As políticas de identidade, tão passíveis de crítica, deram um passo além e se transformaram em políticas da “auto identificação”, em que o direito de se afirmar algo, independente da opinião alheia ou até mesmo dos fatos, da realidade, é soberano e inconfrontável.

Buscando respostas fundamentais

Qualquer ativista envolvida com os movimentos LGBT, feminista ou negro hoje se sente eternamente pressionada para “dar visibilidade”. Escrever um post simples em mídia social significa um processo intenso de revisões e cobranças públicas para garantir, às vezes no tamanho reduzido de um tweet, que todas as categorias consideradas relevantes foram citadas por nome e na ordem considerada correta. “Viva as mulheres!” não basta, é preciso dizer “Viva às mulheres negras, trans, bissexuais, indígenas, periféricas”… de vez em quando alguém se lembra das lésbicas, mas é menos importante. Tampouco importa se é um post de campanha publicitária de uma grande empresa ou a circular de um pequeno coletivo que busca dialogar com a sua base e conta com pessoas não profissionalizadas ou não acostumadas a lidar com esse clima generalizado de hostilidade e tensão sobre o discurso feminista: quem exclui está violentando, por isso merece ser violentada.

Na prática, isso significa que nos atacamos intensamente, dentro dos próprios movimentos, entre os movimentos, e é justamente contra ativistas e militantes que o efeito dessa hostilidade é mais sentido. O motivo é simples: só conseguimos despertar reações de quem nos vê. Brigar no âmbito da sociedade para transformá-la é muito menos efetivo do que brigar com o pequeno grupo de militantes que organiza uma Caminhada da Visibilidade Lésbica porque “as bi não se sentem incluídas”, por exemplo. Ou com um pequeno blog que decide fazer um “agosto lésbico” mas convoca também mulheres hétero e bissexuais para colaborarem na produção de conteúdo sobre lesbianismo, entendendo que é importante engajar toda a classe das mulheres na pauta da visibilidade – e que não adianta sermos visíveis só para nós mesmas. É o paradoxo da (in)visibilidade: só conseguimos eficientemente acusar e denunciar como agentes da invisibilização quem nos vê. Quem não vê também não enxerga a crítica, e não é vulnerável aos ataques.

Então, visibilidade onde? Fica claro que a demanda tem que ser colocada para a sociedade, pelo movimento. E não pelo movimento para ele mesmo. O objetivo deveria ser transformar a sociedade, e não criar uma bolha que viva com suas próprias regras internas diferentes da sociedade mas seja incapaz de afetar a maioria da população. Quem busca visibilidade são justamente esses sujeitos políticos que buscam a transformação social, não por meio da afirmação da identidade, mas por meio de um projeto político que transforme objetivamente a forma que vivemos. O por que não poderia ser outra coisa além da transformação social.

Política identitária vs política revolucionária

A política de identidade coloca outros dilemas para qualquer movimento que seja de fato progressista e queira atuar para melhorar as coisas:

  • Iguala concepção política – o que se pensa sobre o que se é – e identidade – o conjunto de características que distingue um sujeito coletivo de outro (como lésbicas são diferentes de mulheres heterossexuais, por exemplo)
  • Coloca o reconhecimento da diferença como um objetivo em si mesmo, sem vínculo com os interesses concretos das classes
  • Celebra efeitos da opressão como características identitárias a serem valorizadas (como o “putafeminismo” e as ativistas que afirmam “orgulho de ser puta” – mas deixando de reconhecer e até atacando as ativistas abolicionistas sobreviventes da prostituição)
  • Torna injusto e irracionalista o processo de identificar e resolver conflitos dentro do movimento – se alguém afirma estar sofrendo opressão porque “se sente” oprimido/ofendido/triggered isso não pode ser questionado por meio de critérios objetivos e essa pessoa não pode ser confrontada, porque isso seria considerado opressão também
  • Valoriza o sofrimento como afirmação da identidade e medida de autenticidade – “eu sou mulher por que sofro violência igual a uma mulher/sinto disforia”; “minha opressão é legítima porque eu me sinto mal”

Essas formas de antipolítica que atravessam o movimento feminista contribuem para um cenário em que a superação do sofrimento e a transformação da sociedade se tornam impossíveis. Nossas armas se voltam contra nós mesmas, criando um clima de denuncismo e alarmismo que anda em paralelo com a atual “cultura do cancelamento”.

Mas mais que isso, esse processo desarma o feminismo para confrontar a sociedade, porque torna impossível identificar, definir e apresentar demandas coletivas. Ficamos presas num círculo infinito de sofrimento, não encontrando referências e companheiras nem entre nós mesmas.

‘Invisibilidade’ lésbica não é um problema de identidade, mas uma tática de controle social e reprodutivo

Se a possibilidade lésbica permanece suprimida, as mulheres têm como única opção a heterossexualidade, que é o regime político que organiza a reprodução social no patriarcado. Ela implica em trabalho reprodutivo gratuito organizado por meio das instituições da família e do casamento. Viver uma vida lésbica é se rebelar contra essa ordem social. Essa é a política lésbica, a política do feminismo lésbico. Lutar por ‘visibilidade lésbica’ é relevante para todas as mulheres porque apresenta a possibilidade de escapar da heterossexualidade para a classe. Tornar lésbicas invisíveis significa suprimir a possibilidade de viver sem se submeter a essas regras. Para os homens homossexuais as coisas são diferentes: eles são expulsos de casa, expostos e agredidos. Nós somos trancadas em casa, escondidas e “corrigidas”.

O que seria então uma “política bissexual” ou “pansexual” ou “queer” ou o que quer que seja? Não pode ser outra coisa senão uma política de identidade, que busca ‘visibilidade’ como um valor em si mesmo, e não como meio de transformar algo. As bandeiras são via de regra algo como “combater o preconceito” ou “quebrar tabus” ou “exigir respeito”. Outras pautas são copiadas do movimento lésbico, como a questão do assédio: mulheres bissexuais têm afirmado que a sociedade não trata sua sexualidade como legítima e que são consideradas promíscuas, e que essa seria uma diferença que tornaria necessária a existência de um ‘movimento bissexual’ ou de um ‘dia da visibilidade bissexual’.

Mas se essa seria uma pauta específica, então como fazer sentido de que para maioria da sociedade não existem lésbicas, apenas mulheres que não encontraram o homem certo? O que pensar então de homens que assediam lésbicas, se oferecem para “entrar no meio” de casais e não se intimidam em sugerir sexo com lésbicas em qualquer situação? Estariam as lésbicas sofrendo “bifobia”? Ou será que a possibilidade lésbica é combatida tão violentamente que afeta junto mulheres lésbicas e bissexuais, tendo implicações inclusive para as mulheres heterossexuais?

Um movimento para todas nós

O que diferencia lésbicas e mulheres bissexuais é o desejo e a recusa de se relacionar com homens. O direito de se relacionar com mulheres não está garantido e é uma luta política, com implicações diretas tanto para lésbicas quanto para mulheres bissexuais. O desejo de mulheres se relacionarem com homens não precisa ser defendido. Qual o objetivo então de ter um movimento separado? A única resposta possível é “afirmar as diferenças”. Não existe um movimento bissexual que não faça puramente política identitária. O que existe é o movimento lésbico, do qual mulheres bissexuais participam desde o começo por entenderem que as pautas importam para todas. ‘Lésbico’, porque mulheres bissexuais também têm relações lésbicas e são afetadas pela lesbofobia.

A transformação do movimento lésbico em “das lésbicas e bi”, “lésbico e bi”, “lesbi” (oi Senalesbi!) é símbolo dessa guinada identitária e da ruptura com o feminismo. Lésbicas, sob a falsa bandeira da “bifobia”. foram transformadas em inimigas e opressoras dentro do movimento que nós mesmas criamos. Hoje fazer qualquer Caminhada, evento ou ação lésbica sem incluir ‘e as bissexuais’ é automaticamente considerado opressivo e ‘exclusionário’, motivo para atacar as organizadoras e destruir a atividade. É mais politicamente correto não fazer nada do que lutar por umas sem por as outras em evidência. Que erro. Precisamos superar essas polêmicas e voltar a construir um movimento que consiga dar respostas para as questões reais que afetam a sexualidade e a vida das mulheres que se relacionam com mulheres.

Post criado 36

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo