Pronomes são um “Boa-noite Cinderela”

por Barra Kerr

No original, “Pronouns are Rohypnol”. Rohypnol é um medicamento da classe dos benzodiazepínicos, que induz o sono de forma rápida e intensa, tendo também efeito ansiolítico, anticonvulsivante e relaxante muscular. Também são efeitos de sua administração a redução do desempenho psicomotor, com diminuição dos reflexos e da atenção, e ocorrência de amnésia. Conhecido no Brasil como “Boa Noite, Cinderela”.

Esse texto foi postado inicialmente no Mumsnet, um fórum de mães britânicas, e a autora foi banida por 7 dias e o post removido. Foi então editado e postado no Medium e em seguida banido novamente, e por fim apresentado sem edição em outra plataforma para que as leitoras tirem suas próprias conclusões.

traduzido por Juliana Nasser Gimenez

Muito se tem falado sobre pronomes. Especificamente sobre “pronomes de escolha”. Isso usualmente significa os pronomes que uma pessoa prefere que sejam usados quando outras pessoas referem-se a ela. 

“Essa é a maneira que eu gostaria que você falasse sobre mim”.

Quase sem exceção, as pessoas que requerem, ou demandam, que outros falem sobre elas usando pronomes específicos, estão pedindo que se use pronomes associados ao sexo oposto a seu próprio. 

Uma simples gentileza. Uma cortesia.

Eu ouvi muitas pessoas me dizendo que elas não se importam de fazer isso como uma cortesia, apesar disso exigir algum esforço para manter a ginástica mental de perceber o sexo da pessoa, mas usar consistentemente o pronome associado ao outro sexo. Essa é uma escolha pessoal, e eu respeito as razões pelas quais algumas pessoas fazem isso.

Eu também ouvi muitas pessoas dizendo que qualquer um que não que não concorda em fazê-lo (e isso é dito usualmente a mulheres) é ofensivo, mau, hostil e desagradável. “Misgendering” (usar o gênero “errado”) é discurso de ódio. Eles dizem.

Mas eu me recuso a usar pronomes femininos para referir-me a qualquer homem.

Porque pronomes são como Boa Noite, Cinderela.

Um dos maiores obstáculos para interromper a retirada dos direitos das mulheres é a cortesia dos pronomes e nomes “de escolha”. As pessoas subestimam o impacto psicológico dessa conformidade para si mesmas e para os outros.

Pronomes são como um ‘Boa Noite, Cinderela’ para suas defesas mentais.

Você duvida dessa afirmação que acabei de fazer, obviamente. Você tem resistência mental suficiente para não ser influenciada por algo tão trivial, e eu que entendi isso errado. Eu compreendo. Mas aguente aí.

E tente esse rápido experimento.

O custo de você usar “pronomes de escolha”:

O Efeito Stroop:

Desafio das cores impossíveis de dizer

Você já ouviu falar do  TESTE DE STROOP?

É um fenômeno psicológico bem conhecido chamado “nomeie a cor”. Um experimento rápido e simples em que você tem que dizer a cor das palavras escritas na sua frente. Simples assim. Só que a velocidade e a precisão das suas respostas são muito influenciadas por qualquer incongruência entre a cor que você vê e a palavra escrita.

Tente AQUI, se você gosta de testes interativos divertidos. Ele toma menos de um minuto para ser completado. Compare as diferenças entre a primeira e a segunda partes do teste.

Você terá de lutar conscientemente contra o conflito mental o tempo todo. E isso te deixa confusa, distraída, mais lenta, frustrada e cansada.

Forçar seu cérebro a ignorar as evidências que você vê, ignorar o conflito entre o que você vê e sabe ser verdade, e o que você espera dizer, nos afeta.

USAR pronomes escolhidos pela pessoa tem o mesmo efeito. Isso altera sua atenção, sua velocidade para processar, sua automação. Você pode perceber que isso te deixa ansiosa. Você presta menos atenção no que você quer dizer do que no que espera-se que você diga. Isso te deixa mais lenta, confusa, e menos reativa.

Não é uma boa coisa.

O custo de OUVIR ou LER pronomes de escolha sendo usados por outras pessoas:

Experimento 2:

Por uma semana, retraduza todos os artigos e comentários sobre transgêneros que você encontrar, usando os pronomes, substantivos e nomes originais baseados em sexo. Reescreva-os de acordo com a verdade nua e crua e leia-os de novo. Fazer esse exercício apenas mentalmente é suficiente, mas editar em frente a uma tela é melhor.

Converta pronomes femininos de volta para masculinos, use sobrenomes em vez de primeiros nomes, e converta termos como mulher trans de volta para “homem”.

Melhor ainda, se você sabe o nome original do sujeito, use, seja Luiz, ou Omar, ou Tobias, ou Sérgio ou Arthur.

Uma rosa com qualquer outro nome teria o mesmo cheiro doce, certo? Não devia importar. Ninguém será machucado ou afetado por esse experimento privado. É totalmente entre você e sua própria mente resiliente.

(Tente não ser banido de lugar algum durante esse experimento)

Leia sua versão traduzida novamente.

Se esses pequenos atos de conformidade com pronomes de escolha são realmente concessões insignificantes (contudo, veja acima o potencial de banimento por se trazer evidência contraditória de importância), dadas como cortesia a outros sem nenhum custo a você ou outras mulheres, então esse exercício privado não vai mudar nada, custar nada, afetar a ninguém. Você vai sair disso pensando, sim, como eu imaginei, tempestade em copo d’água.

Afinal, nada *deveria* mudar simplesmente com a alteração de pronomes e nomes, deveria? Você já sabe o sexo real do sujeito sobre o qual você está lendo. Pronomes, masculinos ou femininos, não adicionam nenhuma informação a mais. Como eles podem de qualquer forma alterar sua percepção, ou influenciar você quando você já sabe os fatos? Eles são irrelevantes, a concessão mais fácil de se fazer. Não vale a pena fazer considerações, não tem consequências. Certo?

Cognitivamente, você deveria ser imune aos efeitos desse crossdressing linguístico. Pronomes são irrelevantes, então você faz essa concessão facilmente, porque eles não têm poder nenhum de te influenciar, já que você já está vendo claramente. Certo?

[E você pode confessar aqui, está tudo bem. Você talvez já pense que a minoria das mulheres que se recusam a fazer tais concessões com pronomes são apenas umas esquisitas que não conseguem pensar estrategicamente, não sabem quando deixar pra lá, provavelmente são extremistas. Não fazem a si mesmas nenhum favor, prejudicam a própria “causa”, até. Não são razoáveis.]

Mas tente o experimento. Traduza pronomes e referências de volta ao masculino. Insira “nomes mortos” (expressão usada para se referir ao nome original de pessoas auto identificadas como “trans”) ou use sobrenomes (Ninguém saberá além de você). Leia uma segunda vez. E seja honesta com você mesma.

No caso da matéria da Gazeta, o próprio texto entrega o gênero da suposta “mulher” trans e facilita para quem lê compreender o absurdo da situação

Você se sente diferente, lendo dessa forma?

Você reage diferente?

Como está sua ansiedade?

Você está mais brava?

Você se sente mais assustada?

Seu senso de injustiça foi acionado?

Em qual nível suas defesas naturais foram levantadas?

Você pode descobrir que, apesar do que você pensa, você tem uma reação visceralmente diferente ao que está na frente dos seus olhos.

Mesma história, mesmos participantes, mesma informação.

Pronomes diferentes, reações diferentes.

Pronomes são como um ‘Boa Noite, Cinderela’.

Eles desarmam suas defesas. Eles mudam suas inibições. Eles pretendem fazer isso. Você teve um aprendizado baseado numa experiência de vida inteira para ficar alerta ao “ele” e relaxada ao “ela”. Por uma boa razão. Essa resposta instintiva te mantém segura. Não é nem uma coisa consciente. É como sentir aquele arrepio na nuca. Seu subconsciente está te ajudando a não ser devorada pelo tigre dentes de sabre que seus olhos ainda não notaram.

“Ande como se tivesse três homens atrás de você”.

Oscar de La Renta

Oscar provavelmente não planejou a resposta instintiva de mulheres que suas palavras provocaram.

Pronomes incongruentes fazem seu cérebro trabalhar muito mais; não só quando você está os usando, mas quando você está os recebendo como informação. Você está trabalhando constantemente para manter aquela história clara na sua cabeça. Homem ou mulher? Qual, novamente? Concentra-se mais. Ignora seus instintos, ignora sua reação.

E isso é só você. Você já está consciente de toda a informação pertinente, já está alerta, você sabe os fatos importantes, você não pode ser facilmente enganada.

E ainda assim você é afetada emocionalmente e instintivamente por pronomes, substantivos e nomes incongruentes. Apesar de seus esforços para ficar imune. Você não está imune a esse efeito. Você pode saber que aquela pessoa é na verdade do sexo masculino, e ainda assim você reage diferente se alguém o chama de ela ao invés de ele. 

E então o que, isso tem impacto em todos que nem estão cientes ainda, que não compreenderam completamente o que está acontecendo?

Pronomes são Rohypnol. Eles mudam essa percepção, baixam nossas defensas, nos fazem reagir diferente, alteram a realidade à nossa frente.

Eles têm o objetivo de fazer isso.

Eles nos deixam dormentes.

Eles nos confundem.

Eles removem nossas respostas instintivas de segurança.

E isso funciona.

Se você fizer esse experimento, você ainda pode decidir aceitar ou usar pronomes femininos para homens, talvez com mais sabedoria, mas consciente da influência disso em você e em outras. Essa é uma escolha que você faz. Pelo menos agora você sabe que pode estar voluntariamente suprimindo suas respostas naturais. Seus olhos estão mais abertos.

Talvez você continue a traduzir mentalmente os “pronomes de escolha” de volta para a realidade, todas as vezes, como eu faço. Isso se torna mais fácil com a prática. Eu quero meus instintos o mais intactos possível.

Talvez você dê de ombros. Você pode viver com esse pequeno fenômeno. Ou não funcionou assim pra você, você não vê isso.

Mas por favor não julgue tão duramente aquelas de nós se se recusam a se submeter, se recusam a consentir ao uso dos pronomes de escolha. Há boas razões pelas quais nós estamos fazendo isso, para nosso próprio bem, e pelo bem de outras.

Pronomes são Boa Noite, Cinderela.

Eu quero estar alerta. Eu quero que as pessoas vejam a realidade, e eu quero aquelas reações instintivas que sentimos quando algo está errado, eu quero deixar de estar embotada, quero deixar de estar entorpecida por esse truque psicológico barato, porém efetivo. Eu sinto que devo isso a mim mesma, e eu absolutamente devo isso a outras mulheres.

E mais do que qualquer coisa, eu devo isso a meninas. Eu não quero ter participação, nem mesmo que pequena, em criá-las para negligenciarem seus instintos naturais de proteção. Esses instintos estão lá por um motivo. Elas precisam desses instintos intactos, aguçados.

E é por isso que não usarei pronomes de escolha.

Usar ‘Boa Noite, Cinderela’ nos outros não é cortesia.

Post criado 12

12 comentários em “Pronomes são um “Boa-noite Cinderela”

  1. “Mas eu me recuso a usar pronomes femininos para referir-me a qualquer homem.”
    Transfobia pura e falta de respeito com o próximo. Eu vou me abster de deixar um comentário grosso porque prefiro acreditar que você errou por ignorância, do que por maldade. Se eduque.

    1. “No caso da matéria da Gazeta, o próprio texto entrega o gênero da suposta “mulher” trans e facilita para quem lê compreender o absurdo da situação
      Você se sente diferente, lendo dessa forma?
      Você reage diferente?
      Como está sua ansiedade?
      Você está mais brava?
      Você se sente mais assustada?
      Seu senso de injustiça foi acionado?
      Em qual nível suas defesas naturais foram levantadas?
      Você pode descobrir que, apesar do que você pensa, você tem uma reação visceralmente diferente ao que está na frente dos seus olhos.
      Mesma história, mesmos participantes, mesma informação.
      Pronomes diferentes, reações diferentes.”
      O seu problema é que quando você leu a matéria a que esse trecho se refere, o seu primeiro foco foi na mulher ser trans o que, sinceramente, não faz o menor sentido e só mostra sua transfobia mais uma vez. Tal matéria é, sim, revoltante mas só me diz sobre o caráter da pessoa em si e sobre a falha no sistema carceral (não porque ela foi colocada na prisão feminina). Boa escolha de matéria para tentar manipular seus leitores, pena que há pessoas que usam os próprios cérebros.
      Aliás, há vários casos de abuso sexual por detentas cis (mais até) também, mas isso você falhou em incluir.

  2. “USAR pronomes escolhidos pela pessoa tem o mesmo efeito. Isso altera sua atenção, sua velocidade para processar, sua automação. Você pode perceber que isso te deixa ansiosa. Você presta menos atenção no que você quer dizer do que no que espera-se que você diga. Isso te deixa mais lenta, confusa, e menos reativa.” Não. Dados científicos/fonte: juro por Deus.

  3. Acho engraçado sua utilização de um artigo sobre UMA travesti que esfaqueou duas pessoas para justificar sua transfobia. Consigo nem sentir raiva. Realmente hilário.

    1. “E você pode confessar aqui, está tudo bem. Você talvez já pense que a minoria das mulheres que se recusam a fazer tais concessões com pronomes são apenas umas esquisitas que não conseguem pensar estrategicamente, não sabem quando deixar pra lá, provavelmente são extremistas. Não fazem a si mesmas nenhum favor, prejudicam a própria “causa”, até. Não são razoáveis.” Na verdade eu considero vocês know-it-alls, criaturas do hábito que se recusam a aprender e se acham superiores. E sim, se você se considerar feminista, está invalidando muitas mulheres e dizendo o que elas devem ou não fazer, hipócrita, não?

    2. “Mas por favor não julgue tão duramente aquelas de nós se se recusam a se submeter, se recusam a consentir ao uso dos pronomes de escolha. Há boas razões pelas quais nós estamos fazendo isso, para nosso próprio bem, e pelo bem de outras.” Você passou literalmente esse tempo todo querendo propagar a ideia de que mulheres trans são agressivas e abusadoras e agora pede para que pessoas não te julguem? Ok. E, por favor, você não escreveu isso pelo seu próprio bem e o de outras, não me faça rir.

  4. “Mas tente o experimento. Traduza pronomes e referências de volta ao masculino. Insira “nomes mortos” (expressão usada para se referir ao nome original de pessoas auto identificadas como “trans”) ou use sobrenomes (Ninguém saberá além de você). Leia uma segunda vez. E seja honesta com você mesma.” Não importa o que você acredita, se você se refere a alguém com seu nome morto, você é um ser humano sem um pingo de empatia. Completamente nojento.

  5. Esqueci de incluir no último comentário: se você fizesse a menor ideia do quanto mulheres trans que são colocadas em prisões masculinas sofrem, você não diria isso. Sua falta de empatia me impressiona tanto quanto você se dizer feminista.

  6. “Eles pretendem fazer isso. Você teve um aprendizado baseado numa experiência de vida inteira para ficar alerta ao “ele” e relaxada ao “ela”. Por uma boa razão. Essa resposta instintiva te mantém segura. Não é nem uma coisa consciente. É como sentir aquele arrepio na nuca. Seu subconsciente está te ajudando a não ser devorada pelo tigre dentes de sabre que seus olhos ainda não notaram.” Não, usar o pronome errado não te mantém segura, só te faz ignorante.

    1. “Pronomes incongruentes fazem seu cérebro trabalhar muito mais; não só quando você está os usando, mas quando você está os recebendo como informação. Você está trabalhando constantemente para manter aquela história clara na sua cabeça. Homem ou mulher? Qual, novamente? Concentra-se mais. Ignora seus instintos, ignora sua reação.” Fontes: juro por Deus.
      Não, usar o pronome que a pessoa se sente confortável não faz seu cérebro trabalhar mais (embora possa significar que você teria que aprender algo novo dependendo do pronome. Chocante, eu sei, mas estimular o seu cérebro não o fará explodir nem nada, é até saudável).
      “Homem ou mulher?” Simples, pergunte.

    2. “E ainda assim você é afetada emocionalmente e instintivamente por pronomes, substantivos e nomes incongruentes. Apesar de seus esforços para ficar imune. Você não está imune a esse efeito. Você pode saber que aquela pessoa é na verdade do sexo masculino, e ainda assim você reage diferente se alguém o chama de ela ao invés de ele. ”
      Se você se afeta/emociona com os pronomes que outras pessoas usam nem sei o que dizer, provavelmente um terapeuta saberá explicar!

  7. “Eu quero estar alerta. Eu quero que as pessoas vejam a realidade, e eu quero aquelas reações instintivas que sentimos quando algo está errado, eu quero deixar de estar embotada, quero deixar de estar entorpecida por esse truque psicológico barato, porém efetivo. Eu sinto que devo isso a mim mesma, e eu absolutamente devo isso a outras mulheres.” É engraçado porque você diz que quer estar alerta, mas é tudo menos isso.

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