Mulheres agora são empoderadas por tudo que uma mulher faz – The Onion

O artigo do respeitadíssimo jornal americano The Onion, que, assim como nosso Sensacionalista, é um jornal isento de verdade, foi escrito em 2004, mas com poucas adaptações poderia ter sido um texto publicado ontem em qualquer revista online feminista brasileira séria.

A premissa ainda vale: tudo que uma mulher faz é empoderador, incluindo tutorial de make, submissão “voluntária” ao marido, casamento, maternidade, pornografia, prostituição, anorexia e tantas outras coisas.

Vale a leitura, tantos anos depois, nem que seja pra lamentar juntinho com quem sobreviveu o feminismo nos anos 2000 (e hoje tem que aturar o feminismo 2020).

OBERLIN, Ohio — De acordo com um estudo lançado na segunda-feira, mulheres — antes empoderadas primeiramente pela afirmação de direitos reprodutivos ou igualdade no mercado de trabalho em relação aos homens — agora são empoderadas por virtualmente tudo que a típica mulher faz.

“Do que ela come no café da manhã até o jeito que ela limpa a casa, a mulher de hoje vive em um estado de empoderamento quase constante,” disse Barbara Klein, professora de estudos das mulheres na Oberlin College e diretora do estudo. “Nem quinze anos atrás, uma mulher só poderia se sentir empoderada ao avançar num mundo do trabalho dominado por homens, afirmando suas próprias necessidades e desejos sexuais, ou pressionando por uma presença mais forte na política. Hoje, uma mulher pode se empoderar através de ações aparentemente sem importância como levar os filhos para o treino de futebol ou assistir GNT [Oxygen network, no original].”

Klein disse que comprar roupas, algo que já foi considerado um ato mundano com poucas implicações sócio-políticas, agora é uma declaração feminista ousada.

“Comprar sapatos surgiu como uma forma poderosa por meio da qual mulheres afirmam sua autonomia,” disse Klein. “Possuir e usar dúzias de pares de sapatos é uma forma convincente de uma mulher anunciar que ela é forte e independente, e que pode se calçar sem a ajuda de um homem. Ela está dizendo ‘Cuidado, mundo dominado por homens, aqui vou eu e meus sapatos.'”

Comer barras de cereais especialmente fortificadas com nutrientes “para mulheres” se transformou numa tendência feminista também.

“Diferente de barrinhas tradicionais, falocêntricas, cujo chocolate, proteína de soja, castanhas e granola ignoravam as necessidades nutricionais e de saúde de mulheres, suas contrapartidas novas e orientadas para mulheres como Luna são balanceadas perfeitamente com uma quantidade mais apropriada de chocolate, proteína de soja, castanhas e granola,” disse Klein. “Pioneiras proto-feministas como Elizaneth Cady Stanton e Susan B. Anthony [famosas sufragistas estadunidenses] nunca poderiam ter imaginado que empoderamento feminino um dia viria em formato de barrinha.”

Enquanto as primeiras feministas lutavam incansavelmente por melhorias no sistema de saúde e aborto legal e seguro, com frequência tendo que confrontar a indiferença ou hostilidade do público, a feminista de hoje afirma controle sobre seu destino biológico vestindo uma camiseta baby look com a palavra ‘Vadia” escrita em glitter.

“Não diga para essa vadia o que fazer,” disse Kari Eastleu, 24, uma participante do estudo da Oberlin e, de acordo com uma das suas camisetas, uma “Deusa Vagabunda.” “Eu visto o que eu quero quando eu quero, e nenhum homem vai me falar pra fazer outra coisa. Nós estamos falando no Poder da Buceta, bebê.”

Outros atos de empoderamento incluem fofocar sobre as propensões sexuais de conhecidos homens, almoçar com outras mulheres em pequenos grupos, tomar comprimidos de antiácido ricos em cálcio, e ler O Diário de uma Babá.

O estudo também cita o ato de levantar o punho em um gesto de solidariedade feminina contra as forças opressoras da pressão atmosférica.

“Quase 90% das participantes do estudo fizeram isso ao menos uma vez em suas vidas, frequentemente acompanhando sua ação com a exclamação ‘Vai, garota!’ ou, simplesmente, ‘Uhuuuuuuuuul!'” disse Klein.

Talvez mais notavelmente, o mero ato de ganhar peso agora é considerado um ato feminista. Apesar de algumas mulheres expressarem reservas sobre o impacto negativo da obesidade sobre a saúde de alguém, mulheres gordas demonstram um nível de assertividade, ou “petulância”, que mulheres mais magras não possuem.

“Mulheres se declaram ‘gordas e no comando’ se recusam a serem limitadas pelas noções tradicionais de beleza e saúde,” disse Carla Willets, uma professora de estudos das mulheres da Vassar College. “Elas se amam por quem são, algo que nenhuma mulher ‘de tamanho normal’ poderia fazer.”

“É claro, mulheres podem ser empoderadas perdendo peso também, ” Willets complementou. “Na verdade qualquer mudança de peso — pra cima ou pra baixo — é empoderadora.”

Klein disse que empoderamento agora é acessível a mulheres que há muito eram excluídas.

“Não é qualquer mulher que pode se tornar uma física ou fazer lobby para impedir uma usina de despejar metais pesados perigosos no lago em que suas crianças nadam, ” disse Klein. “Apesar dessas ações serem incríveis, elas marginalizam a maioria das mulheres que estão impossibilitadas, ou que apenas particularmente não se importam em, conquistar tais coisas. Felizmente para as menos impressionantes entre nós, um novo tipo de feminismo surgiu em que atividades mundanas são defendidas como afirmações orgulhosas e ousadas da independência da hegemonia patriarcal opressora.

Jeanne Bradley, residente de Long Beach, na Califórnia, recebeu recentemente um prêmio especial pela cidade de Los Angeles por ir regularmente a jogos da WNBA, a liga feminina de basquete.

“De comedoras de torta de madrugada a mães que não mexem com dor, conquistas feministas cobrem um grande espectro,” disse Bradley em seu discurso de aceitação do prêmio. “É grandioso ser uma mulher atleta, senadora ou física. Mas nós precisamos não desconsiderar a dona de casa que usa um esfregão equipado com toalhinhas descartáveis convenientes, a estudante que escolhe se abster de sexo, e a estudante que escolhe fazer muito sexo. Só mesmo aplaudindo cada coisinha que uma mulher faz, não importa quão banais, é que você pode mesmo ir lá, garota.”

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