Mulheres hétero podem ser aliadas das lésbicas? E as bi?

Por Adriane Rica

Passou o Agosto Lésbico, e também o nosso Setembro Lésbico, e agora é o momento de refletir: passamos realmente dois meses brigando por causa de datas num calendário?

O Blogueiras Radicais não veio pra brincadeira. A gente entende que o feminismo precisa superar certas polêmicas internas para conseguir avançar, e que o feminismo radical também tem muito para discutir. Nossa missão é trazer bons argumentos e evidências para o debate e facilitar esse processo. Por isso tantos textos de crítica interna: ainda que a gente acredite que a unidade vem com a luta, são tantos anos acompanhando o feminismo sofrer derrota atrás de derrota e ir perdendo cada vez mais a força e a resiliência frente a divisões internas cada vez mais inconciliáveis que começamos a achar urgente olhar cada vez mais pra dentro do próprio movimento e de nós mesmas.

Vemos também polêmicas resolvidas pela metade: a questão trans, muito bem discutida pelo feminismo radical, é algo que só tomou tal força e relevância com um conjunto de narrativas e práticas de ativismo que hoje são universais, como a ênfase no “local de fala” e não no conteúdo, o sofrimento como medida da legitimidade, e a noção de identidade como algo íntimo e não um conceito relacional, ou seja, algo que existe no encontro e choque com outros grupos.

Na nossa pequena trajetória de vida, já abordamos vários desses pontos. E aí a gente deu uma pausinha pra exaltar lésbicas, já que era agosto. Fizemos nossa primeira chamada aberta, que é sobre lesbianismo, convidando as lésbicas, e também as bi e as hétero, para produzir conteúdo sobre a temática lésbica. Que alegria! E aí fomos canceladas. 🤔

A polêmica com o lesbofeminismo era algo que a gente queria deixar pra depois, com a exceção de uma ou outra alfinetadinha. Mas, gente, olha, nós lésbicas do Blogueiras, estamos cansadas de ser chamadas de lesbofóbicas por lesbofeministas. É uma coisa que não faz sentido. As acusações não têm sentido. As pautas e cobranças também não. Enquanto escrevo esse texto, as mesmas pessoas que vieram xingar a gente pela nossa intenção de publicar um ou outro texto que não seja de uma lésbica estão indo xingar uma colabora lésbica e cobrar que ela rompa com o Blogueiras por conta de uma suposta lesbofobia da nossa parte. O problema: publicar textos das hétero e das bi em agosto. A solução: menos uma lésbica escrevendo para o nosso blog. 🤷‍♀️

Aí em setembro, mês eleito pelo movimento das que não querem ser confundidas com lésbicas dos bissexuais, fomos xingadas por continuar a pauta lésbica, fazendo a provocação de que valorizar relacionamentos com homens, ou a identidade de quem se relaciona com eles, não é papel do feminismo radical, e que a gente se interessa é pelas relações lésbicas de mulheres bissexuais. O problema, então, não era não dar visibilidade para lésbicas ou para bi, mas dar visibilidade para lésbicas e bi no mês errado. É realmente essa a prioridade do ativismo identitário? Brigar contra companheiras exigindo visibilidade aqui e agora como quem demanda um catchup extra no McDonald’s? Em vez de feminista, teríamos virado consumidoras de feminismo? O que dá o direito ao público de exigir com hostilidade que o conteúdo, o momento da publicação, a linguagem e a abordagem tenham que se conformar aos seus gostos? Teríamos nós, enquanto feministas radicais, perdido o direito de definir nossa própria agenda política? Questões importantes, mas voltemos para a polêmica com o lesbofeminismo.

Lesbofeminismo não é a mesma coisa que feminismo lésbico

Parte das acusações de lesbofobia veio de afirmarmos que lesbofeminismo é antifeminismo. A gente sabe que é uma posição polêmica. Apesar de já termos explicado no passado, faz sentido explicar esse ponto pra desfazer confusões na cabeça da leitora que não tenha sacado essa diferença: enquanto lesbofeminismo é um campo político específico, com teóricas e grupos específicos que pensam de uma determinada forma, o feminismo lésbico seria o feminismo feito pelas lésbicas. Sendo assim, existe também o feminismo radical lésbico, com autoras lésbicas produzindo teoria sobre a questão do lesbianismo. Sem nomear fica difícil de enxergar as diferenças, até porque ambos têm relações próximas e influenciaram um ao outro. Mas, independente da sua opinião, é importante compreender que nem toda feminista lésbica é lesbofeminista, e que é perfeitamente possível (e muito comum) lésbicas que são feministas serem de linhas políticas que não têm nada a ver com lesbofeminismo: radicais, socialistas, anarquistas, liberais, queers… os últimos dois fica a dúvida né, mas vocês entenderam.

Entender essa sutileza é fundamental pra conseguir ver o sentido dessa polêmica que tá rolando. O argumento de várias radicias hoje é que o lesbofeminismo se afastou tanto de premissas radicais fundamentais que rompeu completamente com o feminismo. O que, como explicamos ali em cima, não significa dizer que lésbicas não podem ser feministas, ou que todo o feminismo lésbico teria virado antifeminista, mas sim que essas pessoas, grupos e teorias específicas já tão muito mais pra lá do que pra cá.

Lesbofeminismo, hoje, é antifeminismo

O ponto central na nossa crítica de que o lesbofeminismo virou uma forma de antifeminismo é que ele está colocando mulheres hétero como suas inimigas. Vejam bem, feminismo, o movimento de libertação das mulheres, é um movimento de classe. Você pode fazer parte de um coletivo com pessoas específicas que faça uma luta específica. Existem coletivos só de mulheres negras, organizações só de lésbicas, e por aí vai. Mas para ser feminista é preciso compartilhar uma visão comum, que compreende que mulheres como um todo são um grupo que é afetado coletivamente por outro grupo, os homens. Essa descrição genérica aí que não fala em classe e gênero é porque esses são campos em disputa, aí há espaço para discordância. Mas essa visão define principalmente duas coisas: quem é o inimigo, e quem luta contra esse inimigo, ou seja, o sujeito político do movimento. Se a teoria ou as práticas desviam disso, estamos desviando do próprio feminismo, de sua definição e objetivos políticos.

Protagonismo + invisibilidade

Ao longo dos quase 300 comentários do nosso post explicando que, sim, hts e bis podem publicar em agosto no nosso blog, vários exemplos do nosso argumento surgiram: algumas vinham dizer que “as hétero sempre nos odeiam”, outras voltavam essa hostilidade inclusive para as mulheres bissexuais (“nos acusam de acusá-las de serem veículos de DSTs”), que também são afetadas pela lesbofobia e que têm interesses ainda mais direitos na luta lésbica. Outras acusavam de “heterossexualizadas” as lésbicas que discordavam delas em algum ponto. “Se comportam como hétero”, afirmavam. E teve um comentário específico que marcou como o mais ridículo de todos, exemplo da incoerência das lesbofeministas: “o mês é de protagonismo lésbico, então as autoras têm que ser lésbicas, escrevendo sobre qualquer assunto, tipo veganismo” 🙄. Ou seja: se a gente fizesse, como já vimos em outros espaços, um mês inteiro sobre lésbicas falando sobre qualquer coisa menos sobre lesbianismo então tudo bem. Que protagonismo hein! Que visibilidade! Que briga inútil.

Enquanto radicais, observamos com apreensão as lésbicas serem cada vez mais forçadas a estarem presentes apenas em corpo, principalmente no movimento LGBT mas também no feminista, e serem acusadas de opressoras ao fazer qualquer afirmação sobre a sua própria realidade. Quando questionamos a teoria do local de fala, apontamos também esse fenômeno: lésbicas impedidas de falar de si, podendo apenas falar em apoio a outros e sobre outras perspectivas (defendendo transgêneros, por exemplo). Isso não é protagonismo, não é visibilidade, não é sequer existência. É o silenciamento 2.0. Se o assunto lesbianismo é suprimido, não adianta lésbicas falando sobre, sei lá, veganismo. A invisibilidade lésbica permanece.

“As hétero nos odeiam e vão sempre nos odiar”

Essa pode até ser a sua opinião, mas ela é antifeminista e eu posso provar: feminismo não é uma entidade mística sororária que só existe quando não há conflito, mas um movimento político. Vez ou outra, é dedo no cu e gritaria. Todo movimento político tem suas contradições internas, e muitas são relacionadas a opressões (como racismo e homofobia no interior dos movimento). Mas existem conflitos que são apenas humanos também. Pessoas que não se gostam. Grupos que não fizeram o esforço de se entender. Dizer que “as hétero nos odeiam” ou que “vão sempre nos trair” não é um fato, é uma teoria da conspiração. Afirmações como essa são comuns em todos os movimentos identitários (como o lesbofeminismo, e diferente do feminismo radical lésbico), porque, se toda identidade é baseada na diferença, hoje temos um agravante que é ter o sofrimento como validador da experiência e do pertencimento. “Héteros nunca vão entender o que passamos”, ou “Vocês não podem falar porque não sentem na pele”, frases como essas exemplificam esse desdobramento complicadíssimo das políticas de identidade. É um pensamento fatalista, derrotista, que vê nas diferenças, e portanto nas identidades, a impossibilidade da vitória. Em vez de transformar a sociedade, como um movimento social almeja, as ações passam a ter como fim somente afirmar as diferenças. Exatamente o contrário do que qualquer tipo de feminismo propõe.

Porque nos importamos com o que elas pensam?

Vamos pensar aqui um pouquinho sobre o que é e para que serve um movimento político: temos sujeitos políticos (no caso, as lésbicas), lutando por reconhecimento (é o mês da Visibilidade Lésbica!) e também pela redistribuição de recursos (queremos que o SUS capacite ginecologistas para atender bem as lésbicas! queremos políticas públicas preventivas de DSTs também entre lésbicas, que têm necessidades diferentes de mulheres hétero e homens gays!). Alguns vão além e lutam também pela transformação da sociedade (pelo fim da heterossexualidade compulsória!), e outros são revolucionários e querem alterar a estrutura da sociedade (fim do patriarcado! fim do capitalismo e do racismo!).

E como é possível atingir esses fins? Bom, os métodos são muitos, mas destacamos aqui três: a luta institucional, o trabalho de base e a disputa ideológica. Luta institucional a maioria das pessoas já conhece: nós votamos, escolhemos representantes, e, num nível maior de organização, disputamos a agenda política desses representantes, o que eles vão defender, o que vão fazer, e até construímos nossas próprias candidaturas, que tenham mais a nossa cara e foquem no que achamos importante. Essa compreensão de “representação” se choca com concepções que hoje são mais comuns (e na nossa opinião, são antipolíticas) que afirmam basicamente que “só eu posso representar a mim mesma”. Então, se a gente toma como dado que “elas nunca vão entender”, não temos esperança de conquistar direitos no diálogo nem fazendo pressão política, porque nunca teremos apoiadores que sejam diferentes da gente. Uma mulher hétero que seja vereadora, por exemplo, nunca apresentaria um projeto de lei para instituir um Dia da Visibilidade Lésbica no município. E uma mulher hétero nunca faria um texto defendendo lésbicas de ataques dos queer. Se sua opinião for essa, é bom clicar nos links e dar uma checada na realidade. Elas “não entendem”. “Todas elas nos odeiam”.

O trabalho de base é, a grosso modo, o trabalho com a base. Base é a própria população, com quem precisamos dialogar para conseguir apoio para nossas pautas, seja por que também afeitam aquela população específica com quem estamos dialogando de forma direta, ou porque indiretamente também são afetados então é bom se interessarem, ou mesmo porque a nossa pauta é justa e precisamos de apoio pra ela, mesmo não afetando mais ninguém. No caso das lésbicas, a questão lésbica é de interesse da classe das mulheres. A possibilidade lésbica frente à compulsoriedade do regime heterossexual é algo que, se apresentado à totalidade da classe das mulheres, não só oferece uma possibilidade real de transformar a própria vida, mas também pistas sobre a motivação do controle e da violência masculinos. Existe até uma tese que afirma que “toda mulher pode ser uma lésbica”, é o lesbianismo político. Você pode não concordar com ela, mas é bom conhecer!

E, por fim, existe a disputa ideológica, que é a batalha das ideias. Nós aqui no Blogueiras nos enquadramos principalmente nessa tática, e isso ajuda a entender quais brigas queremos comprar, inclusive com as leitoras se necessário. Qualquer movimento social precisa convencer a sociedade de suas ideias. Um movimento que deseja transformar a sociedade, ainda mais. Essas visões derrotistas, e que baseiam a identidade política na diferença e no sofrimento “só nós sentimos na pele” e portanto “só nós podemos falar” também significam que a disputa ideológica seria um esforço inútil. Se a gente acreditasse nisso, não faria sentido ter o Blogueiras Radicais. A gente também não seria um movimento social. Sobraria só reclamar que “ninguém nos entende” e “todos odeiam a gente” e ficar gritando no vácuo… igual as lesbofeministas.

Mulheres hétero podem e devem ser aliadas das lésbicas

Porque a luta das lésbicas não é apenas por “visibilidade” (visibilidade pra que?), mas também uma luta feminista.

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