O movimento de libertação das mulheres no Japão.

por Fabíola Ladeira

Das várias acusações mentirosas que o feminismo radical recebe de queers e feministas liberais, que não têm coragem de estudar o movimento seriamente e têm medo do PDF, uma constante é atacá-lo e acusá-lo de ser exclusivamente europeu, americano e feito por mulheres brancas. Para mostrar que isso é uma mentira, trago a história das feministas radicais do Japão, que se organizaram também nas décadas de 60 e 70 e lutaram pela libertação e revolução, levando em conta as particularidades de seu país.

Início

A organização das mulheres, assim como em outros países, surgiu sob a influência de outros levantes que eram mistos. No caso do Japão, formaram-se os Zenkyoto, organizações de estudantes e professores que fizeram inúmeros atos durante os anos 60, mas também com influências de movimentos de mulheres anteriores, como o da revista *Seito* Bluestocking, criada por mulheres em 1911 (!!) e que, além de colocar em pauta questões sobre aborto e a situação das mulheres na sociedade japonesa por meio de diversas perspectivas, teve uma de suas editoras perseguida e presa pelo governo japonês.

As japonesas, assim como as americanas e europeias, estavam insatisfeitas com os seus papéis dentro dos movimentos mistos, pois suas pautas acerca da violência e do trabalho domésticos eram vistos como piada pelos homens. Assim, elas decidiram criar suas organizações. O movimento novo tinha uma diferença em relação aos antigos, que, apesar de terem várias pautas necessárias, ainda colocavam o papel das mulheres dentro de uma sociedade mais tradicional, representando-as como “mães” ou “donas de casa”. O movimento de libertação das mulheres (ou uman ribu, em japonês) trazia ideias de revolução e não de reformas da sociedade japonesa.

Grupo das Mulheres Lutadoras nos anos 70

Ações

Grupos foram formados desde o norte ao sul do Japão. Entre os mais conhecidos estão o Centro Rinbu Shinjuku — formado por sete mulheres e quatro gatos — e o Grupo das Mulheres Lutadoras. Esse último organizou um ato que contou com 200 mulheres em Tóquio, em um dia de protestos antiguerra do Vietnã. Em novembro desse mesmo ano, houve o “Simpósio da Libertação das mulheres: O que o movimento de libertação significa para mim”, que alcançou mais de 500 mulheres. Em agosto de 1971, ocorreu um encontro de quatro dias, que reuniu cerca de 1200 mulheres. Esse retiro foi essencial para o nascimento de muitos grupos feministas radicais. O Centro Rinbu Shinjuku virou um ponto de referência para o movimento, onde mulheres buscavam ajuda para obter pílulas anticoncepcionais, aborto e ajuda para se divorciarem. O centro foi fechado em 1977, mas foi responsável pela publicação de diversos materiais e de tradução de teorias vindas de outras partes do mundo.

A maternidade

Um ponto interessante do uman ribu foi a abordagem em relação à maternidade. As mulheres atacavam a ideia japonesa difundida pelo governo, de que as elas deveriam ser “boas esposas”, “mães sábias”. Uma das pesquisadoras sobre o assunto, Setsu Shigematsu, escreveu em seu artigo “O movimento de libertação das mulheres e sexualidade no Japão”:

(…) De fato no Dia das Mães em 1973, as ativistas ribu em Tóquio organizaram um ato com os dizeres ‘Dia das Mães, que piada!’. Ao fazer isso elas queriam apontar as contradições de uma sociedade que clamava por valores maternais, e só aceitaria suas crianças a serem ‘legítimas’ se essas mulheres fossem casadas com homens e registrassem as crianças no sistema nacional.

Dessa maneira, o Estado só reconhecia crianças que nasciam dentro de casamentos, e isso levava mães e crianças a receberem somente metade das heranças de seus familiares. As feministas radicais, então, encorajavam as mulheres a terem filhos fora dos casamentos com homens, mas em comunidade com outras mulheres, assim, poderiam se ajudar mutuamente e financeiramente!

Outra ação do governo proibia as mulheres de saírem para passear com seus bebês em carrinhos, porque afirmava que as mulheres e suas crianças deveriam ficar em casa. O movimento organizou um ato onde as mulheres e seus maridos saíram com seus bebês nos carrinhos pedindo a queda do patriarcado.

A Libertação pelo Eros e Onna Erosu

A questão da sexualidade foi muito importante no movimento, mas houve abordagens diversas, desde questionamentos do papel da mulher no casamento até a experimentação de uma liberdade de sexualidade ligada a trabalhos como o de “go go girls”. Mistu Tanaka, em 1970, escreveu o manifesto “Libertação pelo Eros”:

Assim, quanto à nossa libertação como mulher, deve ser uma libertação de eros, o que significa uma reforma do nosso fluxo de consciência que nega o nosso sexo… e direcionamos nosso movimento para o desmantelamento do ie (sistema doméstico). […] Enquanto continuamos a nos questionar completamente, na névoa da luta, nós que não podemos ser outro senão onna (mulher). Ao questionar os homens e a autoridade, desconstruiremos nossas próprias fantasias de amor, marido e mulher, homens, castidade, filhos, lar e amor materno. Ao projetarmos nossa própria formação subjetiva, gostaríamos de ajudar na (re)formação da subjetividade dos homens.

Em 1973, foi criado um jornal chamando “Onna Erosu” (A erótica das mulheres”), que trouxe importantes artigos sobre a sexualidade feminina, a experiência lésbica e a reafirmação do poder sexual das mulheres de formas contrárias às representadas pela mídia e pela pornografia.

Capa do jornal Onna Erosu

A segunda edição trouxe o título “O viver anti-casamento”. Outras edições colocaram o discurso anti-imperialismo americano e contra a exploração de mulheres prostituídas em Okinawa, onde existe uma base militar americana e que tem uma longa história de estupro por parte dos militares, prostituição forçada pelo governo japonês e constantes assassinatos violentos de mulheres e crianças por homens, geralmente americanos.

Libertação da privada

Grupo Mulheres Lutadoras

Talvez um dos textos mais simbólicos do uman ribu seja o manifesto “Libertação da privada”, escrito pela feminista Mitsu Tanaka e que, infelizmente, não se encontra por inteiro na internet, apenas pequenos trechos. A autora coloca que:

Quando dizemos que a sexualidade pode ser usada como meios básicos para manter humanos subjugados, nós queremos dizer que um mecanismo oprime a sexualidade das mulheres por meio da falta de consciência de um homem, uma falta de consciência que em troca oprime a sexualidade do homem. A falta de consciência dos homens, que age como um meio dessa opressão, é aquela que falha em entender a mulher como uma mulher completa, que tem a ternura e a sexualidade como uma expressão do amor dela.

Para um homem, a imagem da mulher é dividida – uma imagem representa o afeto materno (maternidade) e o outro representa uma mera ferramenta de satisfação do desejo sexual (privada). Dentro dessa consciência dividida os homens colocam esses dois sentimentos separados, um em cada um dos aspectos imaginados do que seria uma mulher, o que novamente são abstrações criadas pelo homem.

Encarar essa falta de consciência separada de um homem — uma ausência formada para servir à conveniência de uma classe dominante — a mulher, na qual sua sexualidade expressada como ternura e sua sexualidade expressada como sensualidade são apenas um, é dissecada e ela é forçada a viver como partes separadas. Mas o homem que compele a mulher a viver de maneira dividida, pela mesma ferramenta, também vive apenas por uma parte, suprimindo a sua própria sexualidade.

Já que homens e mulheres são mutuamente relacionados, a miséria da sexualidade das mulheres e a miséria da sexualidade dos homens e tudo isso é o símbolo da miséria da sociedade moderna”.

Esse manifesto ressoa até hoje na cultura japonesa, e Setsu Shigematsu aponta que ele faz um traçado entre a divisão sexual do trabalho e uma crítica ao governo por causa das “mulheres de conforto”, que eram mulheres forçadas a terem relações sexuais com soldados. Tanaka empregava uma linguagem sexualmente explícita como forma de discurso político.

Além de Tanaka, posso citar outras feministas radicais, entre elas Enoki Misako, farmacêutica, que lutou pela legalização dos métodos contraceptivos, e Emiko Funamoto, fundadora da revista Onna Eros.

Esse texto foi uma pincelada sobre um movimento de luta importante e que é pouco conhecido aqui no Brasil, mas pretendo fazer uma série de textos mostrando mais, inclusive sobre o movimento lésbico feminista no Japão!

Para aquelas pessoas que ainda precisam atacar o movimento radical, afirmo que essa onda não ocorreu apenas no Japão, mas em vários países orientais. No entanto, por termos muito pouco acesso a documentos e especialmente pela barreira da língua, temos dificuldade em entender toda essa história. O feminismo radical está presente em todos os continentes, e cada vez mais estamos conseguindo contato com outras feministas radicais, sejam elas jovens ou mais velhas. Mas todas entendem que o único feminismo válido é o feminismo radical.

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