Vestindo a camisa de força do gênero: psicologia e teoria queer

O texto de hoje é colaboração de mais uma feminista radical obrigada a permanecer anônima sob risco de perder a carreira que ainda nem teve oportunidade de construir, só por defender o óbvio, o senso comum sobre quem é homem e quem é mulher. O que ela defende é uma posição feminista clássica, e pra gente do Blogueiras não faz sentido que hoje a maioria do movimento a rejeite: a forma como nosso corpo é tratado, odiado, violentado, influencia a forma como tratamos nosso corpo e como nos sentimos em relação a ele. Ridicularizado ou sexualizado, nossos corpos são dos homens, não nossos. Por isso, amamentar em público é proibido, mas tem nudez na propaganda enorme no ponto de ônibus, pra todo mundo ver. Por isso o aborto é proibido e ao mesmo tempo mulheres são esterilizadas à força. Por isso, coisas para mudar seu corpo para enquadrar ao gênero (qualquer um dos dois) são incentivadas, e discursos a favor da aceitação dos corpos são rechaçados.

Nos comentários aqui no blog, vieram perguntar pra gente essa semana: mas e as pessoas trans que realmente rejeitam seu próprio sexo, o corpo, rejeitam o formato, a sensação? E nós respondemos: não faz sentido você ter um sentimento negativo (que passa pela sua cognição, seus pensamentos, e é influenciado pelas suas experiências vividas) em relação a qualquer parte do corpo, seja uma perna ou uma vagina, se você não atribui sentido a ela. Esse sentido é o gênero. Se ter peitos e vagina não tivesse significado, não significasse que seus peitos são para ser olhados e apalpados e transformados em pornografia, se fossem uma parte politicamente e semanticamente tão neutra quanto a sua canela ou seu cotovelo, ninguém rejeitaria o próprio corpo. É isso que as feministas radicais querem: que a diferença sexual pare de significar desigualdade. Só acabando com o gênero mesmo.

Vestindo a camisa de força do gênero: psicologia e teoria queer

texto de colaboradora anônima

Começo deixando claro que sou uma estudante qualquer de psicologia, área que, como qualquer campo de conhecimento, deveria estar sendo incentivada a questionar e, dessa forma, fazer ciência. Hoje o que nós temos é um conselho profissional covarde, cooptado pela teoria queer. Um CRP (Conselho Regional de Psicologia, órgão que fiscaliza a atividade de psicólogos) que pode caçar quem senta na frente de um cliente trans e questiona a sua experiência como faria com qualquer outro cliente em qualquer outra situação. Diante disso, me coloco algumas interrogações diante da tentativa de doutrinação que vejo nos cursos de psicologia hoje.

Para a vertente behaviorista, por exemplo, que é uma dentre tantas que permeiam a psicologia, existe um tipo de comportamento que tem a função de fuga e esquiva. Isso significa o seguinte: a emissão de respostas de fuga são comportamentos operantes que permitem que uma pessoa fuja de estímulos aversivos depois que eles aparecem. E respostas de esquiva são aqueles operantes que permitem a prevenção do aparecimento desses estímulos aversivos. A socialização feminina por si só, a meu ver, é composta por um conjunto de estímulos aversivos. Isso significa que a educação dada às meninas a partir da sua realidade biológica é violenta e opressiva. As experiências da história de vida de mulheres e meninas são, em grande parte, de controle e manipulação. É de se estranhar que mulheres rejeitem essa realidade, vivendo em negação, odiando seus próprios corpos e tentando se mutilar para se aproximar dos corpos masculinos? Não seria essa uma forma de evitar entrar em contato com estímulos aversivos como a violência masculina?

A psicologia é autorizada a caçar quem questiona o que leva alguém a rejeitar seu gênero. Isso mesmo, se você atuar de forma crítica ao gênero, pode perder a licença para atuar como psicólogo. Mas a psicologia permite afirmarmos que o ódio que a pessoa aprendeu a sentir do seu próprio é uma verdade biológica, a disforia de gênero/sexual. Psicólogos são incentivados e obrigados a afirmar que uma mulher é um homem porque “se sente” homem (qual de nós “se sente” mulher?), mesmo que esse sentimento tenha surgido a partir de experienciar a misoginia na pele. A fonte dessa rejeição ao próprio corpo, para a psicologia, seria o cérebro que nasceu “errado”, e não o próprio patriarcado. Não é papel da psicologia negar esse sentimento, mas alimentá-lo? O que a psicologia ganha com a rejeição das mulheres aos próprios corpos? Quem ganha com o controle dos corpos femininos? Quem vence ao afirmarmos o patriarcado, ao legitimá-lo? Se não é isso que estaremos fazendo, o que é então? Como futura psicóloga, não me é autorizado nem realizar esses questionamentos, naturais de uma estudante, em nome próprio. E quando me formar, não posso explorar, na clínica, o que leva pacientes a sentirem esse desconforto em relação ao corpo. As minhas dúvidas não são sanadas e os dogmas são autorizados. A psicologia nunca se preocupou com a saúde das mulheres e sempre foi e deu palco para que teorias misóginas ganhassem força, como a sexologia, que foi de onde surgiu o conceito de “identidade de gênero”. O que acontece agora pode parecer progressista, mas não é nada mais que a normatização da sexualidade patriarcal, assim como foi feito no passado, e a patologização da não-conformidade, da rebeldia, fundamentais para o movimento feminista. É mais importante escrever “TODXS” do que apontar a violência masculina. É nós por nós. Elus por Elus.

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Um comentário sobre “Vestindo a camisa de força do gênero: psicologia e teoria queer

  1. Texto muito necessário e esclarecedor. Pela primeira vez, ao estudar o Feminismo Radical, encontro respostas esclarecedoras. Tenho questionado todo conhecimento aprendido durante a graduação. Sou psicóloga e me interesso muito por esse tema. Se puder trocar mais, ou mesmo participar de alguma pesquisa, tenho muito interesse.

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