Bissexualidade e a Heterossexualidade compulsória

introdução por Adriane Rica

O texto de hoje é um relato pessoal, mas que fala de uma experiência compartilhada por muitas mulheres que se entendem como bissexuais. Independente de você acreditar que nasce assim (não nasce) e que não dá pra mudar (dá sim), fato é que as mulheres bissexuais, como qualquer outra pessoa, escolhem com quem vão se relacionar. E dentro disso, podem escolher se relacionar apenas com mulheres, e fechar a porta para relações desiguais e violentas.

Centrar os relacionamentos sexuais e afetivos em mulheres definitivamente não é um dever, é possível ser feminista sem fazê-lo. Mas afirmar que é possível, se desejado, tem uma importância enorme para reconhecer que mesmo havendo pressões sociais que empurram as mulheres para a heterossexualidade, ela não precisa ser um destino. O desenvolvimento de uma consciência feminista abre novas possibilidades de amor, de afeto, de prazer.

Ainda que vivamos todas com contradições impostas pela nossa condição de mulher junto ao desejo de superá-la, tem um gosto especialmente amargo se engajar na luta e todos os dias chegar em casa e ter que cuidar, amar e se deitar com o inimigo. Feminismo é liberdade, inclusive de se libertar de partes da nossa vida que trazem alguma realização, mas junto com muita dor.

Bissexualidade e a Heterossexualidade compulsória

por colaboradora anônima

Como é difícil amar mulheres sob a sombra das vivências heterossexuais

Desde criança, tive contato com os amigos da minha irmã que eram assumidamente gays e com meu irmão que se assumiu na adolescência. Na escola eu também tinha amigos gays, e os defendia bullying que sofriam. Portanto esse contato me trouxe naturalidade sobre o assunto, apesar de na época não questionar minha heterossexualidade.

Mas um ponto é importante ressaltar: nunca havia convivido com mulheres lésbicas, pessoas bissexuais e nunca tinha ouvido o termo ‘bissexual’. Eu tinha amigos gays e nenhuma amiga assumidamente lésbica. Por mais difícil que seja, o contato com a homossexualidade entre os garotos é mais visível do que para as meninas.

Nos anos 90, quando eu era criança, ainda se falava em GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), e na minha cabeça, eu era simpatizante da causa, simpatizante dos meus amigos gays, do meu irmão gay, dos amigos gays da minha irmã. Até o início dos anos 2000, na minha adolescência, ainda se falava em GLS, pelo menos no meu convívio. Pode ser que nos meios da militância já se cunhava o termo LGBT, mas eu não fazia parte dele, e a internet nem tinha a abrangência que tem hoje, dificultando esse contato.

Quando você é uma pessoa que não gosta do sexo oposto, o mundo pede a você validação. “Como sabe que é lésbica se nunca ficou com o mesmo sexo ou com o sexo oposto?”. “Pode ser apenas uma fase, você está confusa”. “Você deve estar decepcionada com homens”. “Você deve estar carente”. Entre inúmeras frases colocando em dúvida seus desejos. A mesma validação não é exigida para saber se gosta do sexo oposto, porque o mundo é heterossexual. O esperado, é que você goste do sexo oposto, logo, ninguém te questiona sobre essa atração, inclusive te estimulam desde criança a gostar do sexo oposto através de frases, brincadeiras e referências midiáticas de massa (desenhos animados, filmes, novelas, religião, mitos, contos de fadas, propagandas, histórias, músicas).

Posta essa questão da validação, vamos lá para a experiência bissexual. O meu primeiro beijo foi com um garoto. Foi um beijo ruim, achei invasivo. Depois beijei algumas amigas em uma festa. Foi a primeira vez que beijava meninas. Para mim, tinha sido bom e normal. Não me trouxe nojo, repulsa ou qualquer sensação de estranhamento. Só que nessa época eu estava perdidamente apaixonada por um homem, e isso tirou totalmente o foco da sensação agradável de beijar meninas, afinal aquela relação heterossexual era o que eu desejava. Diversas questões vinham à minha mente, consciente e inconscientemente, como: proteção, realização, me sentir bonita, ou seja, me sentir importante através do olhar de um homem. E é nesse ponto que quero chegar.

Parece que para as mulheres bissexuais que vivem ou viveram relações heterossexuais existe sempre a sombra de um homem (real ou almejado) para encobrir a possibilidade de aprofundar relações com mulheres.

A vida seguiu. E novamente pensamentos e angústias sobre a possibilidade de ficar com uma garota começaram a aparecer, pois eu e uma colega estávamos nos sentindo atraídas. Mas nada aconteceu, travamos. E para variar (só que não), na mesma época eu estava a fim de um outro homem, e logo aquela sensação foi encoberta pelo desejo pelo masculino.

A vida seguiu. Tive dois namorados nos anos seguintes. Entre esses dois namoros, me envolvi com uma mulher, e assim tive tempo de desenvolver mais os afetos. Eu pude ver o quanto me sentia à vontade com uma mulher. Como eu gostava do beijo, do toque, da companhia. Essa experiência foi um registro importante para meu corpo, ali era um terreno fértil e familiar, que eu poderia aprofundar mais. Uma possibilidade se acendeu para mim.

A vida seguiu. Mais um namorado. Como podem ver, o desenrolar com homens era muito mais avançado, fui ensinada a cortejar homens, me portar de um jeito agradável, mesmo eu sendo uma pessoa meio fora dos padrões, ainda assim eu sabia os joguinhos do cortejo heterossexual (eu inconscientemente me anulando, é claro, e não dando ouvidos aos meus incômodos). Entre altos e baixos, aprendizados, toxicidades, machismo, inseguranças, aproximação com o feminismo e terapia, o relacionamento com este último namorado terminou. A partir desse término, e com muita terapia, resolvi me abrir para a bissexualidade. Isso com 28 anos de idade, minhas queridas. Demorei tudo isso para compreender e admitir meu desejo. Entrei em grupos de bissexuais e lésbicas e consumi todo material de páginas e vídeos falando sobre a temática. Nesse meio tempo, conheci minha atual namorada e estamos muito felizes.

O que quero primeiro explicitar é que mulheres bissexuais não são as vilãs das lésbicas. Tem sim muita bissexual irresponsável. E você, amiga lésbica ou bissexual bem resolvida, caia fora. Como também tem muita lésbica que pisa na bola, como qualquer ser humano. Todas nós sabemos que existe uma pressão para ser heterossexual e priorizar relacionamentos heterossexuais. Se você tem uma formação religiosa e misógina, que é o meu caso, você é ainda mais doutrinada a gostar de homem, precisar de homem, valorizar homens e se desvalorizar por homens (sejam eles namorados, amigos, professores, pais). E isso de suprimir o desejo por mulheres também acontece com mulheres bissexuais, afinal, se relacionar com homem é viável, então é melhor “focar nos homens, que vai dar mais certo”. Todo o traço e desejo homoafetivo é massacrado em mulheres bissexuais em detrimento de se relacionar com homens.

Refletindo sobre a minha história, pensei em quais eram as brincadeiras que eu fazia quando criança. Por exemplo: minhas bonecas namoravam entre si. Por algumas amiguinhas da escola eu tinha verdadeira devoção, queria ficar perto, sentia ciúmes e inveja, porque afinal rivalidade feminina nos é ensinada desde cedo. A mulher é colocada como ameaça, mal sabíamos que os homens é que eram os inimigos. Eu achava que essa confusão de sentimentos era apenas admiração, mas tem uma grande chance de em alguns casos ter sido “paixonite” e eu nem ter me dado conta. Porque sempre havia a sombra do masculino cobrindo meu olhar e meu imaginário desejante, mesmo quando criança (criança não pode ser criança apenas, desde cedo sinais, frases, ensinamentos já mostram para meninas que elas precisam ser desejadas por um homem salvador).

A heterossexualidade compulsória roubou de mim diversas experiências com mulheres. Roubou de mim conhecer mais do meu corpo, do meu prazer. Roubou relações verdadeiras, de afeto, de carinho. De iguais. Hoje, namorando uma mulher, percebo o abismo que tinha entre eu os homens que me relacionei. Tive bons momentos com eles, não vou fingir que não. Mas ainda assim existe um abismo patriarcal e misógino, que por mais desconstruído que o homem seja, ou diga que é, jamais será transponível. Sabemos bem que esses tipos de homens que se dizem desconstruídos o são até a namorada engordar, parar de depilar ou ter mais títulos que ele, entre outros exemplos.

Hoje, mais velha, percebo o quanto se relacionar com mulheres é revolucionário. O quanto não desejar, não precisar, não colocar o desejo do homem como um foco é incrivelmente potente. O falo representa na sociedade patriarcal e misógina o status, proteção, força, violência, dominação e poder hegemônico. Ser um ser desejado aos olhos do homem, servi-lo, é ser um ser válido. Somente quando homens me ouviam eu realmente me sentia inteligente ou capaz.

Constatar que não precisa se relacionar com um homem para existir, ser amada, amar, sentir prazer é libertador. Preferir uma mulher a um homem é libertador.

A quebra dessa estrutura da heterossexualidade compulsória quebra a reprodução compulsória, quebra o estupro dentro de casamentos, rompe com tanta coisa que fica até difícil listar todas neste texto. Quebrar essa lógica nas relações é combater esse sistema.

Deixar de sentir culpa e medo por amar uma mulher foi o primeiro passo para mim. A sombra do poder masculino assolando minhas decisões desde o nascimento ou desde minha socialização como mulher servil. A culpa cristã do Deus/homem, e não-mulher, sempre presente em minhas possibilidades. “Há um problema na construção da sua sexualidade se você não considera se relacionar com um homem”. Eles dizem. E eu digo pra vocês: não há problema algum dar preferência a mulheres.

Concluindo o texto, gostaria de deixar registrado aqui, como é importante para nós mulheres bissexuais nos permitirmos viver profundamente e intensamente relações com mulheres. Virão aquelas bissexuais que dirão que a bissexualidade não é linear, que tem gente que curte sexo com o mesmo sexo, mas não relacionamento afetivo. Eu sei que não é linear. Mas proponho, como boa artista e educadora que sou, um exercício importante por meio de perguntas. É através delas que iniciamos processos de criação e aprendizagem. Por que tenho dificuldade em assumir minhas relações com mulheres? Onde moram meus medos e inseguranças em relação a isso? Por que é mais fácil assumir namoro/flertar/transar com homens? Como me senti ao me relacionar com homens? Como me senti ao me relacionar com mulheres? Olhe para trás, veja seu histórico afetivo, trace um caminho de suas amizades, de suas experiências amorosas. Veja quantos exemplos de casais de lésbicos você teve e tem ainda hoje? O autoconhecimento foi parte fundamental para o processo de aceitação da minha sexualidade, da percepção da qualidade de meus relacionamentos e do abafamento dos meus afetos e decisões em relação a me relacionar com mulheres.

Poder dizer não a relações com homens, mesmo se sabendo e sendo bissexual, é um ato de coragem, um ato libertador, e principalmente um ato afetivo-político. Manas bissexuais, se permitam amar mulheres e viver essas relações. Façamos a luz das relações entre mulheres ser mais forte do que a sombra da heterossexualidade compulsória.

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