Mulheres da Luz: coletivo apoia mulheres em situação de prostituição durante a pandemia

A ONG Mulheres da Luz atua desde 2013 na promoção da cidadania e da garantia de direitos humanos das mulheres em situação de prostituição do Parque da Luz e entornos, no centro de São Paulo. A maioria das mulheres acompanhadas pelo coletivo tem mais de 40 anos, moram em bairros distantes, possuem baixa escolaridade e dificuldade de acesso às políticas públicas.

O Blogueiras Radicais traz um relato sobre a realidade dessas mulheres, que, diante da pandemia do coronavírus, estão ainda mais vulneráveis, seja porque pertencem aos grupos de risco da Covid-19 ou porque precisam continuar sustentando suas famílias — que, muitas vezes, desconhecem o que elas fazem para sobreviver. Para ajudá-las, a ONG Mulheres da Luz conta com doações e apoio voluntário. Veja aqui como ajudar.

por Xis – Coletivo Mulheres da Luz

Cleone Santos atua com as mulheres em situação de prostituição desde o começo dos anos 2000, quando se encontrava na mesma situação.

Irmã Regina é uma guerreira de peso. Por ter denunciado o tráfico de mulheres onde vivia, sua congregação foi ameaçada e ela, enviada para outra cidade. De lá, mudou-se para São Paulo e procurou Cleone.

Foi assim que a puta e a santa iniciaram sua atuação com as mulheres em situação de prostituição, nos bancos do Parque da Luz. Aconteceu em 2013, quando Cleone já tinha conseguido sair da prostituição.

Conseguir um local para se reunir com as mulheres sempre foi uma luta. No começo, Irmã Regina e Cleone usavam um espaço no Museu da Língua Portuguesa. Aos poucos foram ocupando o porão da administração do Parque da Luz. Com o fechamento do Parque, tiveram a ajuda de Paulo, do Teatro Pessoal do Faroeste, que disponibilizou o espaço para recebermos doações e distribuirmos às mulheres. A Casa do Povo também foi uma importante parceria que abriu espaço para distribuição das doações, deu curso de produção de sabão e sabonete e nos incluiu em sua campanha de pandemia.

Hoje, estamos na Igreja Metodista da Luz e buscamos alugar um local próprio para atuarmos com autonomia. Cleone sonha com um sobrado ao lado do Parque da Luz; não podemos nos afastar do local, pois isso dificultaria o acesso das mulheres.

Fomos o primeiro grupo a lançar uma campanha no início da pandemia e, desde então, tivemos o apoio de diversas pessoas e grupos, muitos artistas contribuíram conosco, voluntárias vieram e se foram. Conseguimos dar ajuda de custo, cestas básicas, de higiene e limpeza, cobertores, alimentação e roupas para seus bebês. Tudo proveniente de doações e de alguns editais de apoio emergencial para os quais submetemos projetos.

Temos dificuldades para prestar contas das doações, pois além de não termos “braços”, as mulheres não podem ser fotografadas. Sabem aquelas fotografias de pessoas “alegres” segurando as cestas básicas? Nem que elas autorizassem, tiraríamos. Alguns doadores pediram para entregarmos as cestas e registrarmos, porém, isso é fora de cogitação, pois as famílias não sabem o que elas fazem e nós levamos muito tempo para conseguir a confiança delas.

Um fotógrafo tirou foto de uma delas de costas, mas ela foi reconhecida e linchada na vizinhança. Até os áudios que postamos, nós conversamos muito e pedimos autorização. É uma questão de confiança delas para conosco e de segurança delas próprias. Não publicamos fotos delas nas nossas redes sociais e no site. Não é porque elas não existem e nós comemos todas as cestas, mas porque elas não podem existir em segurança na situação em que estão.

Para auxiliar na obtenção de renda neste período, as mulheres começaram a produzir máscaras, sabão em pedra, sabonete líquido e em barra para venda. Como não temos espaço para essa produção, algumas conseguem produzir em casa, mas a grande maioria não tem condições materiais e psicológicas de produzir por si, por enquanto.

Precisávamos de uma pessoa que auxiliasse nas vendas, conseguindo parcerias que comprassem os produtos (como organizações e lojas) e também administrasse a loja do site e organizasse a comercialização online dos produtos.

Atualmente, contamos com mais de 200 mulheres cadastradas. Quase todas têm mais de 40 anos, escondem a atividade da família e dos amigos, ao passo que sustentam suas famílias e podem ter até bisnetos. As mulheres ficam constantemente grávidas, de modo que receber alimentação e roupas infantis são necessidades constantes e prioritárias.

Temos o sonho de conseguir uma parceria para exercitar a autonomia das mulheres, porque elas sabem como se prevenir de doenças e da gravidez, porém, os homens insistem em marcar o território para terem seus filhos, e assim, chegamos em mulheres com 20 filhos.

Além dessa conscientização para não atenderem aos pedidos dos homens que farão os filhos e sumirão no mundo, gostaríamos de uma parceria para oferecer o DIU, contemplando a colocação e o acompanhamento.

Precisamos de acompanhamento psicológico e médico. Como a maioria tem mais de 40 anos, sofre com problemas típicos da idade, além dos danos psicológicos acumulados desde a infância. Há mulheres com Síndrome de Down, esquizofrênicas e depressivas. A lista de problemas é extensa e não totalmente conhecida.

As histórias tristes são muitas, porém, nos divertimos juntas e, mesmo à distância, continuamos trabalhando em conjunto. Há mulheres ativistas pelos animais: alimentam, castram, medicam e resgatam os animais abandonados na região, que são mais de 70. Precisam de auxílio para compra de ração constantemente. Recentemente, tinha uma gatinha presa próxima ao Parque e a diretoria do local não deixava elas entrarem para resgatar. Chamaram protetores de animais, o delegado Bruno e resgataram a bichinha! Agora, elas acharam uma gata com quatro filhotes e estão tentando pegar para doar.

A outra, que manda áudios longos e mensagens de bom dia, boa tarde e boa noite, dividiu a primeira cesta da campanha de pandemia e ficou sem alimento em uma semana. Demos um jeito, mas ela disse que, se vir alguém precisando, vai dividir a dela sim.

Uma das mulheres perdeu o pé e precisava de muletas. Pedimos no Instagram e, em minutos, conseguimos mais de uma e ela nem acreditou na velocidade. Atuamos com as mulheres em situação de prostituição, mas elas têm esse olhar empático e não deixamos de atendê-las.

Nossa atuação também se dá no âmbito do enfrentamento à regulamentação da prostituição e precisamos de pessoas para estudar a lei e produzir materiais de enfrentamento e conscientização.

A discussão sobre prostituição é vergonhosa na esquerda e tomada por cafetões. Nós não podemos nos retrair. Temos que gritar ao mundo que prostituição é violência, que a visão da mulher “empoderada” é uma farsa e não condiz com as mulheres que estão em situação de prostituição longe das mídias e coletivos liberais.

Escrevi o texto cheio de pedidos e com dados sobre a realidade dessas mulheres. Este não é um texto teórico porque isso temos aos montes. O que não temos são pessoas que nos deem o apoio de que tanto precisamos, pessoas que venham até aqui e se comprometam com o fim da exploração sexual dessas mulheres, que precisam ser felizes HOJE.

Post criado 1

Um comentário sobre “Mulheres da Luz: coletivo apoia mulheres em situação de prostituição durante a pandemia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo