Você precisa ser lésbica para ser feminista?

Texto publicado na revista Off Our Backs, Volume 20, N. 8, da edição de agosto/setembro de 1990.

O texto que segue é uma fala feita por Marilyn Frye na conferência da National Women’s Studies Association no fórum de Teorias da Sexualidade.

tradução por Juliana Nasser Gimenez

Quando fui convidada a falar nesta sessão, entendi que seria um espaço e momento focado em dar atenção às vozes de lésbicas para o propósito, ao menos em parte, de sinalizar e facilitar um compromisso renovado sobre os problemas do heterossexismo entre nós e na nossa vida acadêmica, programas e projetos institucionais. Fiquei maravilhada quando li no folheto da pré-conferência que esta sessão foi intitulada “Teorias da Sexualidade”. Estou ainda mais maravilhada com a descrição deste fórum no programa.*

Acredito que este título e esta descrição devem ser um tipo de código. As mulheres heterossexuais têm uma sexualidade apenas quando há mulheres obviamente lésbicas ao redor, cujas presenças sexualizam todo mundo presente: então se a palavra sexualidade aparece, você pode inferir que há lésbicas na cena. Por uma lógica similar, você poderia assumir que a sessão plenária intitulada “Teorias de Raça” no folheto pré-conferência, não consistiria em  pessoas brancas [colorless, no original] teorizando de maneira abstrata e neutra sobre Raça, mas estaria cheia de mulheres de cor e será sobre o que elas decidam falar a esta conferência da NWSA [National Women’s Studies Association – Associação Nacional de Estudos das Mulheres]. Usar tais códigos exercita o heterossexismo e o racismo, e obriga o leitor, o decodificador, a valer-se de lógicas heterossexistas e racistas para interpretar a mensagem.

Esse título parece ter intenção de transmitir algo bastante diferente a um público mais amplo – a comunidade acadêmica local e jornalistas. Para eles, tem a intenção de indicar que tratamos (inequivocamente) de assuntos relacionados ao sexo, mas o fazemos da maneira mais segura, mais trivial, mais profissional, mais higiênica – nós o abstraímos dos corpos e atos e neutralizamos seu valor – por isso a palavra “sexualidade”, que é abstrata e soa neutra em valor. E o título indica que não falaremos realmente sobre sexualidade, mas de teorias sobre sexualidade. Enquanto o primeiro pode ser um pouquinho.. uhn.. “úmido” (desconfortável), o segundo só pode ser, sem sombra de dúvidas, puramente acadêmico e seco como pó. Convencido pelo título de que essa sessão será indiscutivelmente entediante e “feminina”, aquele público geral não dará nenhuma atenção a ela, e podemos nos safar com atos indecentes bem debaixo de seu nariz, e a NWSA não precisará explicar porque foi dado às lésbicas essa plataforma e legitimação. 

Evitar associação pública com lésbicas e com lesbianismo é um exemplo de heterossexismo. Neste caso, revela uma ausência de entendimento do porquê lésbicas e lesbianismo são centrais para a libertação das mulheres e de porque a NWSA tem um seção lésbica. Expressa medo de ser associada a lésbicas e, finalmente, um medo de ser uma lésbica. 

Irei provocar e abordar diretamente esses medos aqui. Falarei aqui de maneira bem direta, por impaciência e por causa do meu peculiar e levemente perverso otimismo.

Chega um momento em todos os meus cursos sobre feminismo, em que minhas alunas heterossexuais colocam a pergunta: Você precisa ser lésbica para ser feminista? Eu não sei o quanto outras professoras de Estudos das Mulheres ouvem essa pergunta. Minha sala de aula é uma situação que faz com que se preste atenção na conexão entre feminismo e lesbianismo. Eu sou lésbica, e deixo isso claro para minhas alunas de Estudos das Mulheres, e eu as exponho a uma grande variedade de pensamentos maravilhosos e fortes de feministas de diversas culturas e lugares que são lésbicas. Na sala de aula, essa pergunta sinaliza nossa chegada ao ponto em que recém-chegadas ao feminismo estão começando a alcançar o entendimento de que atos sexuais, desejo sexual e o medo e tabu sexual são profundamente políticos e que as políticas feministas são tanto sobre o uso de nossos corpos, sobre a manipulação de desejos e excitação, e as ligações de intimidade e lealdade, quanto sobre os estereótipos de gênero, oportunidades econômicas e direitos legais. Essa pergunta introduz a fase em que começaremos a nos conciliar com o fato de que o político é pessoal, bem pessoal. Mas o que acontece nas minhas aulas claramente não é o único motivo para o surgimento dessa pergunta.

Acusações antifeministas

Uma coisa que leva estudantes a colocar essa questão é que muito eles comumente se deparam com pessoas que aparentemente acreditam que se você é feminista, então você deve ser uma lésbica. Pessoas que não são lésbicas feministas extremistas.

Eu costumo perguntar para as mulheres nas minhas aulas de Estudos das Mulheres se elas já foram chamadas de lésbicas ou sapatão ou se já foram acusadas de serem lésbicas, e quase sempre a maioria delas diz que sim. Uma mulher foi chamada de lésbica quando rejeitou as investidas de um homem em um bar; outra foi chamada de “butch” quando abriu e segurou a porta para um amigo homem; outra foi questionada se era lésbica quando desafiou uma descrição machista de outra mulher feita por um homem. Uma mulher disse a um homem que não queria fazer sexo com ele e foi chamada de lésbica. Uma jovem mulher disse a sua mãe que estava indo a Washington participar de uma grande marcha “pró-escolha”; sua mãe, desaprovando e temendo pela segurança de sua filha, disse: “Oh, então agora você vai sair e virar uma lésbica?”. Uma mulher que se divorciou do marido e agora vive sozinha foi motivo de fofocas que sugerem que ela seja lésbica. Uma mulher disse que é frequentemente tida como lésbica por causa de sua compleição atlética e recusa a usar saias. Uma mulher que não sente excitação e não tem orgasmos com seu marido foi questionada sobre suas tendências lésbicas por seu médico e terapeuta. Uma mulher contou que suas amigas se referem às suas aulas de Estudo sobre Mulheres como “suas aulas de lésbica”: muitas outras mulheres disseram que suas amigas fazem o mesmo. 

Essas trocas mostram claramente que uma mulher que é feminista ou faz qualquer coisa ou demonstra qualquer atitude que seja claramente feminista é tida como lésbica.

Ansiando por uma análise radical

Mas anti-feministas e misóginos não são os únicos que sugerem às novas feministas que elas não podem ser feministas sem serem lésbicas. Muitas feministas heterossexuais, incluindo muitas professoras de Estudos das Mulheres, sugerem isso a elas de diversas maneiras. 

Estudantes que são expostas a dados bem conhecidos sobre espancamento de esposas, estupros na rua e estupro por conhecidos, pornografia, abuso sexual infantil,  incesto e outras violências contra mulheres, e a qualquer análise feminista profunda e acurada sobre as estruturas patriarcais do casamento, reprodução e maternidade – estudantes que são expostas à análise feminista das religiões patriarcais e da mitologia promulgada pela cultura popular nas sociedades contemporâneas – estudantes que entendem alguma coisa sobre trabalho pago e não-pago de mulheres em várias economias modernas e as práticas e instituições que determinam a acumulação e distribuição de riquezas – estudantes que tem alguma ideia do escopo e propósito de conspirações históricas contra as mulheres tais como a Inquisição, e o apagamento das mulheres da história, e a campanha de propaganda pós segunda guerra para converter mulheres trabalhadoras em donas de casa-consumidoras – tais alunos compreendem que isso com que estamos lidando é profundo, que vai às raízes da civilização e da sociedade e está gravado nas fontes mais profundas dos nossos pensamentos e paixões. Elas entendem que qualquer resposta adequada a isso vai requerer uma análise radical, estratégias radicais e imaginação radical, e que a rebelião será perigosa e custosa. O currículo dos Estudos das Mulheres – para seu crédito – os ajuda a avaliar o caráter e a magnitude dos problemas; então eles buscam, nesses estudos e em nós, recursos para responder a esses problemas – recursos intelectuais, espirituais, artísticos, emocionais e políticos. Mas quando elas expressam essa necessidade, frequentemente escutam, implícita ou explicitamente, que apenas lésbicas buscam análises radicais e soluções radicais e que apenas lésbicas oferecem essas. (E deve ser acrescentado que as circunstâncias constantemente conspiram a sugerir à mulheres de cor que apenas mulheres brancas são lésbicas).

Por exemplo: Estudantes registram queixas à comissão coordenadora do curso de Estudos das Mulheres dizendo que seus cursos não são radicais o suficiente, e um membro importante da comissão supõe que elas sejam lésbicas. As alunas insatisfeitas, das quais poucas se identificam como lésbicas, percebem essa reação, e aquelas que não são lésbicas aprendem que estão desajustadas, vivendo uma contradição, pois elas querem sua radicalidade e rebelião estimuladas e elas não são lésbicas. Estão dizendo para elas que um feminismo forte e raivoso que não aceitará nada menos que ir à raiz do problema pertence às lésbicas.

Outro exemplo: Alunas que cursaram outra disciplina dada por uma feminista lésbica e trazem as ideias dessa disciplina para um outro curso de Estudos das Mulheres e tem essas ideias depreciadas pela professora, dizendo que tais ideias seriam consideradas apenas por lésbicas separatistas. Mas essas alunas consideraram essas ideias e as acharam interessantes, até mesmo atraentes, e se sentiram empoderadas apenas por pensarem em tais ideias. Está sendo dito a elas que essas ideias pertencem à lésbicas, e que mulheres heterossexuais não acreditam nessas coisas ou as levam a sério. 

Não dar exemplo de deslealdade

Estudantes sentam nas salas de aula de professoras heterossexuais (ou até mesmo de professoras lésbicas que passam como heterossexuais) que vivem em conformidade com as normas feitas por homens de feminilidade, na aparência, voz, gestos e políticas, que parecem de todas as maneiras serem mulheres normais e aceitáveis nas normas patriarcais, que não afastam os homens, com maridos e filhos e uma quantidade razoável de aprovação masculina, que mimam seus alunos homens e por vezes são intimidadas por eles em suas aulas. Para algumas estudantes, toda sua exposição a professoras heterossexuais é uma exposição a professoras que não são exemplos,  não aprovam e não encorajam qualquer insubordinação radical, qualquer deslealdade a homens e seus projetos, qualquer blasfêmia contra homens e seus deuses. Em geral, a experiência que mulheres estudantes têm de verem tais coisas representadas,, de ouvirem a violência dos homens contra as mulheres serem nomeadas sem reservas, de ouvirem zombarias engenhosas sobre a arrogância dos homens, é dada por lésbicas – tanto professoras quanto alunas. Professoras heterossexuais de Estudos das Mulheres, em grande medida, deixam toda a tarefa de “ser radical” para lésbicas, deixam o fardo, a esperança e o entusiasmo de forçar os limites para as lésbicas. Elas deixam a raiva e o êxtase para lésbicas. 

Mais um exemplo: Alunos de Estudos das mulheres planejam e realizam uma vigília à luz de velas para expressar sua preocupação com a violência contra as mulheres. Elas distribuem panfletos sobre a vigília para todas as professoras de Estudos das Mulheres para que sejam lidos em sala de aula. A participação é relativamente pequena. Fora uma mulher da pró-reitoria convidada como oradora, todas as professoras e administradoras que comparecem são lésbicas. A mensagem não passa despercebida aos alunos. Outra vez, as mulheres heterossexuais deixaram às lésbicas o papel de conduzir até mesmo as mais simples formas de militância.

Definida pela não-conformidade

Há a semente de algo que poderia ser chamado de teoria da sexualidade das mulheres, latente na recepção dessas novas feministas por parte tanto de não-feministas quanto de muitas feministas na academia. Essa teoria conecta a sexualidade feminina à conformidade ou não-conformidade com as normas de feminilidade e com a participação em práticas e instituições que definem a ordem social patriarcais nos dias atuais. De acordo com essa teoria, a mulher que adere às normas patriarcais de feminilidade em ação ou atitude e que não desafia ou se rebela contra as instituições patriarcais é heterossexual. A mulher que não obedece às normas femininas ou que desafia e se rebela contra as instituições patriarcais é lésbica. A diferença entre a acusação explícita de lesbianismo por parte de não-feministas ou anti-feministas e a associação implícita de radicalidade feminista ao lesbianismo que ocorre em muitos contextos acadêmicos, é apenas uma diferença no grau e tipo de não-conformidade necessário para alcançar o status de lésbica. Feministas são, por definição, em algum grau, não-conformadas com as normas patriarcais de feminilidade e rebeldes em algum grau contra as instituições patriarcais;então por essa teoria, feministas são lésbicas em algum grau. Isso implicaria que aquelas que são muito feministas, intransigentemente feministas, extremamente feministas, radicalmente feministas, TEM que ser lésbicas, inequivocamente. 

Essa teoria foi primeiro articulada na linguagem contemporânea como “teoria da sexualidade” precisamente na época em que, historicamente, sexualidades foram inventadas. E não acidentalmente, esse foi um tempo de reação extrema contra o feminismo. “Sexualidade feminina” (= heterossexualidade feminina) e “inversão da mulher” (female “inversion”) (=lesbianismo) foram definidas desde o princípio em termos de conformidade e rebeldia da mulher, isto é, em termos de feminismo e reação contra o feminismo. Essa teoria da conexão entre feminismo e lesbianismo não é apenas uma ficção ad hoc inventada por pessoas leais ao patriarcado para servir como uma desculpa para rejeitar e vilanizar o feminismo e as feministas. Uma conexão intrínseca entre feminismo e lesbianismo é apenas uma manifestação histórica específica de uma antiga e intrínseca conexão entre a ordem social patriarcal/fraternal e a heterossexualidade feminina.

Mecanismo chave

Eu acredito que toda teoria e prática feminista ao fim nos leva à seguinte proposição: que a dinâmica característica central e o mecanismo chave do fenômeno global de dominação masculina, opressão e exploração das mulheres, é a quase-universal heterossexualidade feminina. Todas as instituições e práticas que constituem e materializam essa dominação (e simultaneamente organizam a vida dos homens com relação uns aos outros), ou pressupõem uma quase-universal heterossexualidade feminina, ou a fabricam, regulam e impõem a heterossexualidade feminina, ou ambos. 

Para que mulheres sejam subordinadas e subjugadas aos homens em uma escala global, e para que os homens se organizem eles próprios e entre eles como fazem, bilhões de mulheres, praticamente todas que vivem neste planeta, devem ser reduzidas a uma tolerância mais ou menos bem disposta à subordinação e servitude aos homens.                                   

As premissas principais dessa redução são as premissas das relações e encontros heterossexuais – flerte, contato sexual, sexo, casamento, prostituição, a família normativa, incesto e abuso sexual infantil. É nesse terreno de conexão heterossexual que meninas e mulheres são habituadas ao abuso, insulto e degradação, que meninas são reduzidas a mulheres – a esposas, a vadias, a amantes, a escravas sexuais, a auxiliares administrativas, a trabalhadoras da indústria têxtil, a mães de filhos dos homens. As premissas secundárias dessa inscrição da subordinação nos corpos das mulheres são as premissas dos rituais de preparação de meninas e mulheres para o intercurso, relações e vínculos heterossexuais. Eu me refiro ao treinamento em comportamentos adequados, vestuário e decoração, todos os quais são treinamentos para a habituação à restrição e distorção corporal; eu me refiro a dietas e exercícios e regimentos de beleza que habituam o indivíduo à privação e punição e ao medo e desconfiança de seu corpo e seu conhecimento; à clitoridectomia e outras formas e tipos de mutilação física e espiritual; todos os quais não têm propósito ou função cultural ou econômica, se as mulheres não tivessem de ser preparadas para maridos e amantes homens, cafetões, “clientes” da prostituição e chefes.

Colando mulheres a homens

Sem abuso (hetero)sexual, assédio (hetero)sexual e a (hetero)sexualização de todos os aspectos dos corpos e comportamentos das mulheres, não haveria patriarcado, e qualquer outra forma ou materialização de opressão que pudesse existir, não teria as formas, limites e dinâmicas do racismo, nacionalismo e etc. que nos são familiares. Os significados da heterossexualidade feminina são muitos, e não têm o mesmo papel político em todas as sociedades e culturas. Mas na maioria delas, ela cola cada mulher adulta a um ou mais homens de sua casta, classe, raça, nação ou tribo, fazendo dela uma apoiadora leal de qualquer política que esses homens venham a aderir, apesar dela ter pouco ou nenhum papel na configuração ou definição de tal política, independente dessa política ser libertadora ou opressiva, e independente dela ser ou não libertadora para mulheres. Nos casos particulares de dominação de raças e classes, a heterossexualidade feminina junta as mulheres, por solidariedade racial/de classe, aos homens dominadores, e oferece como propina pela sua complacência, parte dos benefícios que seu homem extorque dos outros grupos. A heterossexualidade feminina, literalmente sexual ou não, está profundamente implicada no o racismo das mulheres brancas em nosso tempo e espaços presentes; a deslealdade à civilização dos homens brancos que Adrienne Rich recomenda às mulheres brancas não é possível sem a deslealdade ao homem ao qual a mulher está ligada pela instituição da heterossexualidade. E também acontece dentro de grupos raciais ou étnicos que são oprimidos, que se uma mulher não é satisfatoriamente complacente às normas da heterossexualidade feminina para a satisfação de algum homem, ele cinicamente abusa da real e necessária lealdade política da mulher ao grupo, colocando-a de volta na linha com o argumento de que sua não complacência ou revolta contra as normas da feminilidade é deslealdade a sua raça ou comunidade.

Feministas lésbicas notaram que se a instituição da heterossexualidade feminina é o que transforma meninas em mulheres e é central à replicação contínua do patriarcado, então o abandono dessa instituição pelas mulheres é uma estratégia (talvez dentre outras) para o projeto de desmantelamento das estruturas patriarcais. E se os encontros, relações e conexões heterossexuais são as premissas para a inscrição dos imperativos patriarcais nos corpos das mulheres, faz sentido abandonar tais premissas. E se a heterossexualidade feminina é central para a forma como o sexismo e o racismo são conectados numa simbiose estranha e paradoxal, faz sentido que a não-participação nessa instituição possa ser parte de uma estratégia para enfraquecer tanto o racismo quanto o patriarcado.

Mulheres falando por vozes feministas que não são lésbicas responderam dizendo que a retirada da participação na instituição da heterossexualidade feminina é apenas uma solução pessoal e disponível apenas para poucas; não é uma estratégia política ou sistemática. Eu penso, pelo contrário, que essa pode ser uma estratégia sistemática, porque a heterossexualidade feminina é construída. Se as mulheres tomarem a construção de nós mesmas, e as instituições e práticas que nos governam em nossas próprias mãos, nós podemos construir algo novo.

Horrores ahistóricos

Qualquer defesa da heterossexualidade feminina enquanto inevitável me parece (tremores) ahistórico e (horrores) essencialista. Mas deixe-me colocar a questão de outra maneira, antes que eu perca os membros da plateia que já estão entediados com essas terríveis acusações, ou que não conhecem esse jargão. 

O comprometimento com a naturalidade ou inevitabilidade da heterossexualidade feminina é um comprometimento com as relações de poder que são expressas e mantidas pelas instituições da heterossexualidade feminina nas culturas patriarcais em todo o mundo. Pessoas que tem poder mantêm esse poder em parte usando o poder para tornar ahistóricas suas próprias condições históricas – isto é, eles tornam os pré-requisitos do seu poder como “dados”. Eles o naturalizam. Uma parte vital de fazer a dominação masculina generalizada ser tão perto do inevitável quanto uma construção humana pode ser, é a naturalização da heterossexualidade feminina. Homens têm criado ideologias e práticas políticas que naturalizam continuamente a heterossexualidade feminina em todas as culturas desde a aurora dos patriarcados. Freud e Lacan são naturalizadores da heterossexualidade feminina. Eles dizem que a heterossexualidade feminina é construída, mas eles se resgatam dessa aparente deslealdade à masculinidade dizendo que essa construção é determinada e tornada inevitável pela natureza da civilização, ou natureza da linguagem.

A heterossexualidade feminina não é um impulso biológico ou uma atração erótica ou ligação de uma mulher, individualmente, por um outro animal que por acaso é um homem. A heterossexualidade feminina é uma realidade histórica concreta – um conjunto de instituições e práticas sociais definidas e reguladas por sistemas de parentescos patriarcais, pelas leis civis e religiosas, por costumes morais aplicados vigorosamente e por valores e tabus profundamente arraigados. Essas definições, regulações, valores e tabus são sobre fraternidade masculina e opressão e exploração das mulheres. Elas não são sobre calor humano, diversão, prazer, reconhecimento profundo entre pessoas. Se algum desses últimos surge dentro das fronteiras dessas instituições e práticas, é porque calor humano, diversão, prazer e reconhecimentos estão dentre as coisas que seres humanos são naturalmente capazes de ter, não porque a heterossexualidade é natural ou é uma premissa natural para tais benefícios.

Uma recusa obstinada viva

Então, é possível ser feminista sem ser lésbica? Minha inclinação é dizer que o feminismo, que é completamente anti-patriarcal, não é compatível com a heterossexualidade feminina, que é completamente patriarcal. Mas eu antecipo a seguinte réplica:

“Supor que toda relação, conexão ou encontro nas formas de paixão, ou eróticas, ou genitais, abrangendo qualquer forma de envolvimento pessoal entre um homem e uma mulher, devem pertencer a essa instituição patriarcal chamada “heterossexualidade feminina”, que devem ser sufocadas sob esse título… supor isso é supor que somos todos totalmente formados pela história, pelas instituições sociais e pela linguagem. Esse é um tipo de determinismo desesperançado que é politicamente fatal e contradito por sua própria presença aqui enquanto lésbica.”

Eu concordo que não posso abraçar nenhum absolutismo histórico e determinismo social. O projeto permanente de feministas lésbicas de definirmos a nós mesmas, nossas paixões, nossas comunidades é uma recusa obstinada viva de tal determinismo. Mas o espaço livre para criação existe apenas quando é ativamente, agressivamente, corajosamente e persistentemente ocupado. Histórias e culturas patriarcais minam esses espaços constantemente, por coerção, por suborno, por punição e moldando a imaginação. O que estou dizendo é que se você quiser ter uma conexão homem/mulher compromissada ou ocasional – erótica, reprodutiva, de formação de lar, de companheirismo, de amizade – que não são definidas pelas instituições patriarcais de heterossexualidade feminina de sua cultura, então você precisa criar uma possibilidade para isso. Eu estou dizendo que, na minha visão, essa possibilidade não existe na história e cultura patriarcal. Se existisse, não seria patriarcal. 

Seguindo uma dica dada por Sarah Hoagland há muitos anos atrás, eu argumentei em meu artigo “To Be and Be Seen” (Ser e Ser vista, em tradução livre para o português), que não existem lésbicas no universo do patriarcado. Um argumento similar e mais genérico é útil aqui. 

Virgens, foras-da-lei

A palavra “virgem” não significava originalmente uma mulher cuja vagina não havia sido tocada por um pênis, mas uma mulher livre, não prometida, não casada, não vinculada a, e não possuída por nenhum homem. Significava uma mulher que era sexualmente, e portanto socialmente, pertencente a ela mesma. Em qualquer universo do patriarcado, não existem Virgens nesse sentido, e portanto, Virgens devem ser inefáveis foras-da-lei, párias, pensáveis apenas enquanto negações, sua existência, impossível. Lésbicas radicalmente feministas reivindicaram, e tem inventado formas de viver, uma Virgindade positiva, num desafio criativo às definições patriarcais do real, do significativo. A questão à mão deve ser pertinente: Alguém irá, alguém poderá conseguir, inventar e construir modos de viver a Virgindade que incluam viver conexões eróticas, econômicas, de construção de lar, de parceria, com homens? O que deve ser imaginado aqui são mulheres que estão dispostas a se engajar em conexões com homens por escolha,  que são mulheres selvagens, não domesticadas, completamente desafiantes da heterossexualidade feminina patriarcal. Tais mulheres estarão vivendo vidas sexualmente, socialmente e politicamente desviantes e impossíveis quanto as vidas de lésbicas radicalmente feministas. Eu penso que consigo imaginar um pouco de como elas seriam se viessem a existir. Eu consigo fazer um esboço parcial de tais mulheres: 

Elas não se vestem ou se decoram de acordo com o mecanismo que sinaliza a conformidade das mulheres com a feminilidade definida por homens dentro de sua cultura e que molda seus corpos para tal conformidade. Elas não se fazem “atraentes” nos moldes convencionais femininos de sua cultura e então pessoas que ignoram sua beleza animal dizem que são feias. Elas mantêm tanta flexibilidade econômica quanto possível para assegurar-se de que podem voltar à independência a qualquer momento em que a parceria econômica as esteja forçando a uma aliança que não foi completamente escolhida. Elas não mais fariam sexo qundo não acham que vão apreciar da mesma forma que não correriam nuas na chuva quando não acham que vão apreciar isso. Suas interações sexuais não são premissas para que pessoas com pênis se tornem homens e pessoas com vagina se tornem mulheres. 

Essas Virgens que se conectam com homens não tentam manter a ficção de que os homens que elas preferem são melhores que os outros homens. Quando elas são ameaçadas por pessoas que se sentem ameaçadas por elas, elas não apontam suas conexões com homens como provas suavizadoras de que não odiariam homens. Elas não se beneficiam com a proteção dos homens. Elas não pressionam suas filhas e suas alunas a se relacionarem com homens como elas fazem para que se sintam validadas através das escolhas de outras mulheres. Elas não consideram trazer nenhum homem a encontros feministas que não foram especificamente abertos para eles, e elas ajudam a criar e defender (e apreciam) espaços exclusivos de mulheres. 

Essas Virgens que se conectam com homens não são manipuladas pela orquestração da aprovação e desaprovação masculina, pela orquestração das necessidades de homens e crianças, reais ou falsas, necessárias ou evitáveis. Elas não são redutíveis à conformidade por pavor ou ansiedade sobre coisas lésbicas, e não têm medo de sua própria paixão por outras Virgens, inclusive aquelas que são lésbicas. Elas não precisam ser respeitáveis. 

Essas Virgens se recusam a participar da instituição do casamento, e não apóiam ou testemunham os casamentos de seus irmãos preferidos. São opositoras convictas do matrimônio. Elas sofrem pressões enormes para que se casem, mas resistem. Elas não consideram o casamento um privilégio. Nem mesmo o suborno dos benefícios do plano de saúde do marido as seduz ao matrimônio, nem mesmo quando elas e seus parceiros ficam velhos e se tornam mais ansiosos em relação à sua saúde e estabilidade financeira. Essas Virgens têm uma amizade forte, confiável, criativa, duradoura, sustentadora, ardente com mulheres. Sua imaginação e suas políticas são moldadas mais fundamentalmente pelo desejo de empoderar mulheres e criar amizade e solidariedade entre mulheres, do que por um compromisso de apaziguar, confortar e mudar homens.

Essas Virgens que se conectam com homens não sentem que podem ser elas mesmas e ao mesmo tempo estar “no armário”; elas são assumidas como mulheres libertas e não-conformadas, um fenômeno muito notável na cena política e social. Elas se fazem visíveis, audíveis e tangíveis umas às outras, elas criam comunidades e irmandades entre elas e com Virgens lésbicas, e elas apoiam umas às outras em seus territórios selváticos. Elas fazem traquinagens e criam problemas juntas. Elas encontram maneiras de criar lares e calor humano e companheirismo e intensidade com ou sem homens inclusos. Elas criam valores e criam significados, assim, quando a pressão para se conformarem com a heterossexualidade feminina patriarcal é grande, elas têm um contexto e comunidade de resistência para as apoiar e para dirigir suas energias para inventar novas soluções para os problemas que a conformidade aparenta resolver. Elas criam música, romances, poesia, arte, revistas e jornais, ações políticas e programas. E em suas revistas e jornais, elas articulam sua imaginação, suas diferenças culturais e políticas, seus vários valores; elas repreendem umas às outras, elas apoiam umas às outras, elas prestam atenção umas nas outras. 

Lésbica ou não, você precisa ser uma desviante

Esses seres são possíveis? Você consegue foder sem perder sua virgindade? Eu penso que tudo vai contra isso, a decisão não é minha. Cabe àquelas que desejam viver isso. Algumas mulheres têm esperança de que você precise, sim, ser uma lésbica para ser uma feminista verdadeira, extrema, criadora-de-problemas, pois como elas não são lésbicas e nunca no mundo se tornariam lésbicas, elas tem uma desculpa para não pensarem e agirem de forma radicalmente feminista e para não alienarem homens. Muito do que passa por medo do lesbianismo, veja, é, realmente, medo dos homens – medo do que eles podem fazer àquelas que não se conformam. Mas eu detesto fornecer essa desculpa. 

Essa é minha fantasia: Uma aluna pergunta em classe se ela precisa ser lésbica para ser uma verdadeira feminista, e eu respondo que, lésbica ou não, você precisa ser uma mulher herética, desviante, e não domesticada, um ser impossível. Você precisa ser uma Virgem, e eu acrescento (ainda de uma maneira fantástica)… um lugar em que você pode encontrar outras Virgens com quem brincar e com quem aprender a virgindade, é no Programa de Estudos das Mulheres.

Essa fala foi preparada para uma sessão na conferência da Associação Nacional de Estudos das Mulheres (National Women’s Studies Association – NWSA) desse ano. Como sempre, eu quero agradecer minha companheira Carolyn Shafer por sua ajuda em reunir e articular esses pensamentos. E ao me fazer duras críticas que me ajudaram a aperfeiçoar esse trabalho em diversas maneiras, ela acabou sendo responsável por uma ou duas das melhores frases.

*”Pensamentos feministas reconheceram há muito tempo a natureza dual da sexualidade: tanto um prazer empoderador quanto um terreno perigoso para exploração potencial. Esse painel explora pensamentos acadêmicos feministas recentes que estendem nosso entendimento sobre sexualidade nos reinos pessoal e político.” Programa da Décima Segunda Conferência Anual da NSWA (Program of the NWSA Twelfth Annual Conference), p. 63 

Post criado 36

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo