Relato: “Me senti um gatilho ambulante”

Esse texto aqui vai ser arquivado na categoria ‘é muito comum, mas sempre acusam a gente de estar inventando’. Acusar alguém de causar um ataque de pânico é, além de muito sério, algo que não faz o menor sentido. Ninguém é responsável pela saúde mental de outra pessoa, principalmente estranhos com quem você nunca interagiu previamente. Se é verdade ou não que a menina em questão teve mesmo um ataque de pânico – nós aqui temos nossas dúvidas – esse vitimismo é uma tática de controle emocional comum no movimento trans e muito efetiva contra mulheres. Mas fato é que não foi a Cristina que causou.

Hoje em dia é chocante afirmar isso, é polêmico, mas lá vai: você pode ouvir ideias com as quais não concorda sem que isso lhe cause pânico. Mas só se toda a sua autopercepção (sua “identidade”) não for baseada no sofrimento. O sofrimento como definidor de uma identidade política causa aberrações como essa aqui, em que a ficcionalização da pessoa sobre a sua própria vida – às vezes em tempo real – faz ela experienciar situações extremamente banais como dolorosas e traumáticas. O que não quer dizer que sejam de fato traumatizantes – ou, pior ainda, que alguém seja responsável pelo suposto trauma.

Relato: “Me senti um gatilho ambulante”

por Cristina Delfina

Militante viveu situação surreal em plenária do movimento

Faço parte, há cerca de dois anos, de um movimento de mulheres organizado de um partido de esquerda. Escolhi somar nesse movimento em específico depois de ter conhecido companheiras se pronunciando bastante enfaticamente contra a pornografia e a prostituição num evento, pautas que sempre considerei fundamentais dentro do feminismo. Nesse dia, sentamos para tomar uma cerveja e falar sobre política, até que elas me convidaram a conhecer a atuação do movimento na minha cidade.

Sou feminista e já fiz parte de um coletivo feminista radical que fez ações importantes para a história do feminismo radical no Brasil, de forma que pra mim não faria sentido algum esconder essa minha trajetória. O próprio movimento que integro se orgulha bastante em rejeitar obscurantismos de linha política que cada vez são mais comuns na esquerda, e que inserem muitas visões liberais no nosso campo.

Assim, cheguei na minha primeira reunião e, ao me apresentar, conversei com as companheiras sobre a minha trajetória política ao longo de cerca de 4 anos de militância em coletivos autônomos e como secundarista (que já vai fazer um boom tempo hein), pensando em maneiras de somar e ajudar a construir compartilhando alguns desses acúmulos. A reunião foi muito bacana, conheci uma mulherada que hoje admiro bastante, e passei a integrar o movimento.

Nunca sofri nenhuma represália do movimento por “ter sido” feminista radical (porque ainda sou né), inclusive algumas companheiras com quem tive mais contato sempre me procuraram com dúvidas, pedindo algum tipo de material, etc.

Dois anos depois, já integrando o movimento e participando das reuniões tarefas, fui para uma das plenárias periódicas do movimento (uma reunião maior onde toda a região se reúne para discutir a atuação e direcionamentos). Ali todas são convidadas a se pronunciarem e fazerem falas direcionadas sobre o assunto das mulheres, e eu assim o fiz. Falei sobre a urgência da militância abolicionista da prostituição, inclusive (mas isso é outra história).

Tudo muito bem, tudo muito bom, até que mal terminada a reunião, uma pessoa que eu não conhecia, auto-identificada como “homem não-binário” (?), me puxou para conversar. Ali no meio da sala da plenária ela (1), no meio de todas as pessoas, mal se introduziu e muito rapidamente começou uma conversa, e parecia estar bastante incomodada.

O diálogo foi bem esquisito, algo como “oi Cristina Delfina, lembro de você da plenária de 2018”, e eu respondi algo como “Oi?? 2018?? Mas não lembro de ter ido em plenária em 2018”

“Você foi sim, eu lembro de você, você é feminista radical”

“Em 2018?”

“Sim, em 2018. Eu lembro de você porque era a minha primeira plenária e quando te vi falando, passei muito mal. Tive uma crise de pânico e fui embora.”

“Eita!”

“Mas queria conversar hoje sobre isso. Naquele dia você me causou uma crise de pânico, mas isso me fez ter vontade de entrar aqui e lutar pelas pessoas trans e não-binárias. Queria dizer que estou feliz que você tenha entrado pro movimento e não seja mais desse jeito [transfóbica]”

Eu, meio tonta até, achando a situação e bastante da estranha, respirei fundo e respondi:

“Olha fulane, eu sinto muito se alguém já tenha te ofendido a ponto do simples fato de citar a palavra feminismo radical te deixar nesse estado. Eu não sou responsável pelo que todas as pessoas que dizem ser feministas radicais falam por aí, especialmente as que não tão vinculadas a nenhuma organização que eu conheça. Mas com relação à minha atuação, eu posso garantir em nome da minha coletiva e a de todas as coletivas que estivemos trabalhando em conjunto, que nosso movimento sempre agiu com responsabilidade política e não tem nada que eu me arrependa de ter feito. Inclusive mantenho as minhas visões políticas e ideais aqui nesse espaço, como o meu posicionamento abolicionista com relação a prostituição. Esse posicionamento aqui, que eu defendo, é um posicionamento que inclusive a militância trans não fala, mas as feministas radicais falam. Você mesmo afirmou mais cedo no na sua fala que sua população está sendo empurrada para a prostituição pela extrema vulnerabilidade. São as feministas radicais que estão lutando pra que a prostituição seja tratada como tem que ser, como uma situação de marginalidade extrema e nunca uma escolha…”

“Ah, é mesmo… realmente, vou ver esse material aí”

E aí minha gente, aqui o negócio vira fanfic. Consegui direcionar a conversa pra esse ponto da prostituição (suando gelado com a possibilidade de ser escrachada), e ela acabou concordando comigo. Eu disse que iria embora, e nós nos abraçamos (sério).

Saí correndo dali (rs), me bateu uma tontura e quase vomitei (fico assim em situações de nervosismo), entrei no metrô e comecei a pensar. “Que coisa mais estranha essa, ninguém vai acreditar se eu contar essa história…” [Nota da editora, nunca acreditam né? Pros trans basta a convicção, pra gente nem com as provas…]

Respirei fundo e fiquei muito triste, chorei bastante (sou emocionada). Aquilo me tocou muito, e eu comecei a questionar tudo. Minha vida toda, meu primeiro contato com feminismo radical. Será que eu estive errada o tempo todo? Como a minha existência pode causar um sofrimento tão profundo em alguém? “Como eu vim parar aqui?”

Quando a editora Adriane Rica me convidou a fazer esse relato, achei que ia dizer alguma bobeirinha sobre essa história que, afinal de contas, é bem engraçada. Mas escrevendo esse texto me dei conta de como a maioria das pessoas não fazem ideia do que é uma feminista radical no mundo que a gente não tem avatares e personas pra recorrer. Pra surpresa dos não-binários, nos intervalos que tenho entre puxar o pé de criancinha de baixo da cama, sou uma pessoa assim… bem normal. Ok, talvez não tão normal assim, mas sou gente boa e engraçadinha (minha mãe me acha engraçada). Sou uma pessoa que faz uma faculdade normal e tem um trabalho normal, vou pros mesmos bares e baladas (sombrios) que os jovens normais vão e bebo as mesmas bebidas de gosto duvidoso que os jovens normais bebem. Tenho amigos militantes e amigos zero politizados, duas gatas e já fiz um monte de besteira que me arrependo (nenhuma delas relacionadas à pauta trans taokei?)

Quando entrei pra um coletivo feminista radical aos 18 anos, tudo que procurava era algum lugar pra fazer militância real, que se propusesse a fazer discussões sérias e profundas sobre os sofrimentos e violências que nos conectam (e tenho muito orgulho de tudo que construímos nesse coletivo). Com 18 anos eu não fazia ideia que uma escolha política, dentro da esquerda, poderia nos botar uma marca de desgraçada pro resto da vida. Vi amigas perderem o emprego por serem feministas radicais, vi amigas serem escrachadas na própria faculdade por serem feministas radicais, vi amigas negras sendo chamadas de mucamas por serem feministas radicais. Sofri todo tipo de olhar, fui vetada previamente de todo tipo de espaço, e, claro, sofri de todo tipo de opinião não solicitada e pouco embasada sobre meus posicionamentos políticos. Essas coisas me afetaram, me afetam, mas ver uma adolescente que diz ter sofrido UM ATAQUE DE PÂNICO ao me ouvir falar o simples termo tenebroso “feminismo radical” me abalou demais. Fiquei assim, mexida, porque tudo que eu quero, enquanto feminista que um dia vai ser uma feminista velha, é poder contribuir pra que de alguma forma as meninas mais novas não precisem passar pelo sofrimento e pela jornada que eu passei, que passamos.

Tudo que eu quero, enquanto militante e enquanto sobrevivente da violência masculina, é que as meninas de agora não precisem de múltiplos avisos de gatinho num contexto de organização e movimento entre mulheres. Quero que as meninas consigam se colocar num debate, pensar fora da caixa, questionar as estruturas, sem precisar passar pelos traumas e violências reais que passamos pra chegar neste lugar de compreensão, nem precisar transformar suas experiências (estranhas) de adolescência num lugar de trauma personificado na figura de mulheres que na verdade só estão vivendo as suas vidas e atuando politicamente. Se for preciso, até peço desculpas, mas pedir desculpas pelo quê?

*marcamos esse texto como humor porque só rindo mesmo, mas é tudo real, infelizmente.

(1) estou usando ela como quem se dirige a uma pessoa, portanto no feminino. Uso esse distanciamento por conta da salada teórica dessa mistura de pronomes, que não quero que seja a questão desse texto.

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