Conversando com a minha mãe sobre aborto

Eu tenho uma relação muito próxima à questão do aborto, por isso decidi escrever hoje, que é o Dia de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto na América Latina e Caribe. Como feminista, eu sempre achei importante a luta pelo aborto legal, seguro e oferecido pelo SUS. Por ser ateia, eu repudio veementemente a ideia de uma moral religiosa que coloca a vida num sentido abstrato como uma entidade sagrada, acima de qualquer mulher específica. E vamos, conversar francamente aqui, a Igreja odeia as mulheres, então não é difícil para eles colocarem qualquer coisa acima das nossas vidas.

No âmbito pessoal, esse assunto também me é muito caro. Minha relação com a minha mãe sempre foi marcada por brigas e reconciliações, tentando deixar de lado muitas das atitudes erradas dela contra mim porque considerei que ela, por ser a minha mãe, tinha direito de agir assim. Quando me tornei feminista, e a partir de meu aprofundamento nos estudos, vi nela uma mulher que sofreu profundamente com a maternidade compulsória e os horrores do contrato do casamento.

A gente sempre conversou muito. Eu falo sobre aborto com ela, dentro das nossas conversas sobre o quanto a vida dela foi tomada pela maternidade e o trabalho doméstico, impedindo que ela tivesse uma outra vida, de cuidado próprio e desenvolvimento intelectual). Eu sempre disse para ela que, se ela dissesse que preferia ter me abortado, eu não ia ficar triste ou com raiva, ou se ela não quisesse ter tido mais filhos após o primeiro, eu também não ficaria chateada, porque eu entendo tudo que ela passou. Somando o fato de ser mãe, que teve todo esse impacto na vida dela, ainda tem uma depressão grave, que só foi diagnosticada mais recentemente, com filhos já crescidos.

Ela sempre ouviu isso e ficava muito pensativa, até que recentemente ela me disse que a minha avó, mãe dela, havia feito 2 abortos, e tinha tentando abortar a minha mãe mas não conseguiu. Ela descobriu quando era nova, e isso a afetou muito. Minha mãe é uma pessoa religiosa e segue a moral cristã, então isso realmente pesou nela, mas ela conseguiu falar sobre isso agora na velhice, ao fazer terapia, e está conseguindo confrontar os sentimentos dela.

Perguntei se ela odeia a mãe dela, e ela disse que não, porque como eu falei com ela que entendia, ela disse que também entendia a posição da minha avó, que mesmo com estudos, teve uma vida de subserviência, tendo 12 filhos, e fadada a servir ao marido e fazer o serviço doméstico, presa eternamente em uma casa em uma cidade de interior.

Eu nunca abortei, mas já estive com mulheres que o fizeram. Acompanhei casos que são dolorosos, mulheres desesperadas, chorando, que sabiam que não tinham condições de ter aquele filho. Outras foram engravidadas por namorados que queriam forçar que tivessem filhos para prendê-las em casamentos infelizes. Em nenhum caso essas mulheres estavam felizes ou bem, ou saíram aliviadas da questão, todas carregam um fardo que é delas.

Poderia ser diferente, mas o aborto está presente na vida das mulheres dessa forma por causa da moral religiosa e patriarcal, e isso acaba definindo nossas relações com o mundo, com as outras pessoas e com nós mesmas. Para muitas mulheres, é assim como no caso da minha mãe e avó, afetando como elas viveram as suas vidas, suas relações entre mãe e filha, e entre a minha mãe e todos nós, filhos, que agora entendo, carregamos as marcas das dores que a minha mãe sentiu todos esses anos.

Precisamos conversar sobre o aborto em todos os âmbitos, de como sua proibição é uma política patriarcal de controle das mulheres, como é uma imposição da moral religiosa para que nos mantenham fragilizadas, e como é uma questão de saúde pública, de saúde mental das mulheres, de renda, de planejamento familiar, de preconceitos.

O debate precisa ocorrer o tempo todo e em todas as instâncias, do pessoal ao público, entendendo como a feminista Tove Happonen colocou em seu texto “Tornando o Político Pessoal – como a psicologia mina o ativismo feminista”: a questão não é que todas essas mulheres precisam de algum tipo de ajuda individual, apenas para aprender a viver com os traumas , mas que para que todas essas cicatrizes desapareçam, a mudança tem de ser da sociedade, a mudança do entendimento do que é moral tem de deixar de ser a religiosa e passar a ser feminista. E isso só irá acontecer com a organização e luta feminista!

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