Local de Falha: Quando o feminismo negro apoia a empresa e não a greve dos trabalhadores

A gente aqui no Blogueiras não é fã da Djamila e também não curte nem um pouco o fã-clube. É uma galera que troca militância por lacre, crítica por jargões que encerram o debate (#LocaldeFala) e, principalmente, usa da questão racial pra falar contra a esquerda, escondendo a sua verdadeira face: são reformistas, liberais.

Não é à toa que evocam o local em vez do conteúdo da fala, e que se dedicam tanto em desqualificar o “local de fala” do outro (é o ad hominem da lacração!), que só é negro o suficiente quando concorda com a turminha em tudo e não abre a boca pra criticar (senão é prontamente cancelado também).

O “feminismo negro” que vendem (literalmente, em linha de maquiagem e publiposts) tem que se vender como representativo, ou não agrega valor pro mercado. Ele não pode ser um feminismo negro, tem que ser O feminismo negro, e acusar de “feminismo branco” indiscriminadamente quem discorda, chamando de “feminismo branco” até o que outras mulheres negras defendem. É uma cortina de fumaça. A briguinha “feminismo negro” vs “feminismo branco” e “seu feminismo será interseccional ou não será” é um ataque velado contra o feminismo de esquerda orquestrado pelo “feminismo” liberal.

Como o interesse é vender um produto, o foco das acusações não vão ser as empresas, mas a própria esquerda que questiona essa “militância”. Ainda que haja ali um ou outro conteúdo não muito ruins (onde tem dinheiro tem bons produtos comunicacionais, afinal!), o que dá o tom desse tipo de ativismo é a conciliação, seja pactuando com o patriarcado e dizendo que “dá pra ser feminista e vaidosa; ou com o capitalismo, fingindo não ver a situação desastrosa que as plataformas e os aplicativos estão causando na vida da classe trabalhadora.

Djamila logo mais vai anunciar nova parceria paga com a Avon pra vender óleo de peroba pra hidratar bem essa cara de pau.

Apesar de já conhecer a peça, fomos pesquisar pra garantir que não ia rolar uma injustiça. Djamila escolheu justamente o período entre as duas greves gigantes organizadas por trabalhadoras e trabalhadores de aplicativos pra dar aquele aperto de mão gostoso no capitalismo e fazer parceria paga elogiando a 99 pelas suas ações durante a pandemia. Não sejamos trouxas, a empresa “investe” não é na saúde do trabalhador, é em tentar fazer as pessoas continuarem usando seus serviços durante a pandemia. Não é solidariedade de classe, é marketing mesmo. Prova disso é que tem empresa ao mesmo tempo anunciando as medidas de “apoio” aos “colaboradores” e sendo condenada na Justiça do Trabalho e denunciada pelos próprios trabalhadores pela falta de ação para garantir condições mínimas de segurança.

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Pra não dizer que a Djamila nunca falou de greve, taí: publicação de 2017 que ela fez de graça defendendo as empresas E O GOVERNO DO DÓRIA. Defendendo FURAR a greve. Esse print aí demonstra bem o que estamos falando sobre a tática de usar do local de fala contra a esquerda pra defender os interesses do mercado.

O momento também não foi por acaso não. Como a cara dos motoristas e entregadores que estão se ferrando com esses aplicativos é majoritariamente preta, não tem “representatividade” melhor pra estampar ações pra limpar a imagem da empresa do que alguém assim.

Djamila e outras como ela vendem o tal local de fala para agências de publicidade e empresas, que pagam para vender produtos e ideias a um público cada vez mais viciado em identidades e representatividade. O efeito da cultura da lacração é que o marketing é obrigado a abordar cada vez mais a política, que por sua vez absorve a linguagem e as táticas do marketing e se torna cada vez mais competitiva e destrutiva. Se hoje temos “militantes” no marketing, temos também influencers na política. Que desastre.

Não ouçam a bobajada da Djamila, ouçam as trabalhadoras e os trabalhadores. Que tal dar um unfollow na Djamila, ir seguir o pessoal do Treta no Trampo e se informar sobre o #BrequedosApps?

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3 comentários em “Local de Falha: Quando o feminismo negro apoia a empresa e não a greve dos trabalhadores

  1. Dr Cornel West já alertava há algum tempo sobre como “irmãos negros” se renderam acriticamente ao neoliberalismo e ao mercado.

    No Brasil, o “mercado” é a publicidade, uma sereia a qual a vaidade da Djamila não resiste.

    A publicidade fetichiza a identidade negra. Torna a nós pretos um adorno dentro de uma cota que, a cada dia, é mais um exercício estético publicitário do que uma expressão real e honesta da diversidade e complexidade do povo preto brasileiro.

    Preto é consumidor. Só.

    Se a publicidade fetichiza o preto como estética, o mercado editorial e o jornalismo fetichizam os conceitos e discursos do/a intelectual negro – é uma forma de dar voz, mas apenas às vozes com o discurso alinhado editorialmente.

    E esse “mercado” encontrou suas vozes pretas, seus representantes que não vão desafiar o status quo. Esses negros liberais só desejam lucrar e perpetuar os mesmos vícios, artifícios e formas de exploração já tão bem exercidos pelo branco neoliberal.

    Qualquer forma de luta racial que omita uma luta de classes no Brasil é alienante. Não dá pra ser paternalista com ninguém.

  2. Caramba bplima. ARRASOU MUITO, resumiu muito o que penso. Como gosto de gente com as palavras e os pensamentos organizados. Caramba. Tanto o texto como seu comentário me agregaram demais. Estou amando essas feministas radicais.

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