Resumão: feminismo lésbico, lesbofeminismo, lesbianismo político e separatismo lésbico

O texto de hoje é especial pra gente. Ele abre o Agosto Lésbico e a primeira temporada no Blogueiras Radicais com textos de colaboradoras, e é um primeiro esforço de síntese sobre um tema que é tão caro pra tantas de nós. O feminismo radical não existiria sem a paixão e a dedicação das lésbicas, que por sua vez estariam ainda mais ameaçadas de extinção discursiva pós-modernizada se não fosse a intolerância e hostilidade do feminismo radical à lesbofobia, não importando se ela chega com um porrete na mão ou um potinho de glitter. Podemos contar sempre com as lésbicas raivosas defendendo intransigentemente os direitos e as vidas de todas as mulheres.

Por ‘feminismo radical’ aqui a gente quer dizer o conjunto de livros, PDFs, artigos, vídeos, discursos, podcasts, faixas, brusinhas e cartazes produzidos pelas mulheres radicais do mundo todo desde a década de 1960. Esse legado também é das lésbicas. O feminismo radical é a última barreira do feminismo contra a dissolução do sujeito político do nosso movimento por uma série de ataques masculinos que hoje nos transformam em ‘fetichistas de vagina’, ‘portadoras de útero’, e ‘barrigas de aluguel’. Para as lésbicas, esse desmonte do sujeito ‘mulher’ (enquanto o sujeito homem permanece estável) é um desmonte das nossas próprias identidades, comunidades e da nossa sexualidade. É o fim do lesbianismo, é o fim do grupo de mulheres que serve de retaguarda para feminismo. Para retomar um slogan lésbico mais atual, é por isso que dizemos: “Não somos ‘diversidade’, nós somos a resistência!”.

Resumão: feminismo lésbico, lesbofeminismo, lesbianismo político e separatismo lésbico

por Taís Lago

 

Hoje em dia pouco se ouve sobre feminismo lésbico nos debates sobre sexualidade. O movimento LGBT enterrou as teorias feministas lésbicas sob o discurso da “diversidade”, assimilando mulheres lésbicas numa luta que pauta principalmente pessoas do sexo masculino. Mas, ao contrário do que possa parecer, feministas lésbicas continuam fazendo política sob a ótica feminista radical da década de 60 até os dias de hoje.

O feminismo lésbico se consolidou enquanto movimento social pela necessidade de mulheres lésbicas politizarem as discussões sobre sexualidade e, por consequência, fortalecerem as táticas para aniquilar o patriarcado. Contou (e ainda conta) com teóricas como Adrienne Rich, Sheila Jeffreys, Cheryl Clarke, Ochy Curiel, Margarita Pisano, Marilyn Frye, Monique Wittig, Janice Raymond, Audre Lorde e muitas outras. Em mais de meio século, as teorias feministas lésbicas seguem relevantes e indissociáveis do feminismo radical.

Contexto histórico

O feminismo lésbico surge a partir da necessidade de mulheres lésbicas construírem autonomia em relação ao Movimento pela Libertação Gay e ao Movimento de Libertação das Mulheres. Apesar de, em seu início, entender que a opressão dos homens gays vinha da dominação masculina, e que portanto era preciso aboli-la, o Movimento pela Libertação Gay logo perdeu seu caráter revolucionário. Se, no início, os homens gays estavam dispostos a analisar sua própria cultura e a destruir os papéis sexuais, ou seja, a masculinidade e a feminilidade, ao longo dos anos a maioria deles passou a lutar pela aceitação dentro das normas patriarcais e a exaltação de todos os aspectos nocivos da própria cultura homossexual masculina.

As mulheres lésbicas sempre povoaram ambos os movimentos, lutando com energia pelas próprias pautas e pelas pautas que diziam respeito a mulheres que se relacionavam com homens na mesma medida. Porém, com a despolitização do movimento gay, e o fenômeno da ameaça lavanda (quando Betty Friedan cunhou o termo referindo-se a lésbicas que supostamente ameaçavam as questões das mulheres heterossexuais dentro do movimento), a necessidade de se buscar autonomia foi inevitável. Lésbicas analisaram a própria opressão, encontrando no amor entre mulheres um reduto de resistência dentro do patriarcado.

Nas décadas seguintes, as políticas queer, liberais em sua essência, surgiram em oposição ao feminismo lésbico. Reivindicaram a despolitização da sexualidade e dos papéis sexuais (sob o termo “gênero”) enquanto performance, as práticas sexuais nocivas que as lésbicas rechaçavam, como o sadomasoquismo, a indústria do sexo e a reprodução de masculinidade e feminilidade em relações homossexuais e lésbicas. Com o avanço das políticas queer/pós-modernas, o feminismo lésbico foi acusado de conservador e “anti-sexo”, distorcido e invisibilizado pelo que hoje é chamado de movimento LGBT.

Afinal, o que é o feminismo lésbico?

O primeiro fato a se ressaltar sobre feminismo lésbico é que ele não é uma vertente; é o feminismo feito pelas lésbicas, sobre lésbicas e com foco em lésbicas. Feminismo lésbico possui variações, porque feministas lésbicas divergem entre si. O feminismo radical elaborou muito sobre lesbianismo, e muito por isso influencia até as feministas lésbicas que não são feministas radicais. A concepção feminista radical de que mulheres e homens são classes sexuais, fundamentadas sobre a divisão sexual do trabalho, foi um dos motivos para a autonomização do feminismo lésbico, já que os interesses das mulheres lésbicas são diferentes dos interesses dos homens gays, que ainda pertencem à classe sexual masculina. As feministas radicais lésbicas lutaram contra o assimilacionismo do Movimento pela Libertação Gay, defendendo o termo ‘lésbica’ em oposição ao genérico “homossexual”, demarcando a si mesmas enquanto resistência e não só uma versão inferior da homossexualidade masculina.

Em 1969, Carol Hanisch escreve o ensaio “O pessoal é político”, defendendo que a análise política feminista não deve se ater ao que concerne ao espaço público, mas sim adentrar no espaço privado e nas relações pessoais. É a partir dessa concepção que as feministas radicais lésbicas politizaram a sexualidade. A principal premissa do feminismo lésbico é que a sexualidade é socialmente construída dentro do sistema de dominação patriarcal. Essa concepção vai na contramão do movimento gay que afirmava que homossexuais são “Born This Way” (nascidos assim). A defesa era de que a sexualidade era inata e sua desviância era determinada biologicamente, e que por isso deveria ser aceita pela sociedade.

Adrienne Rich, em 1980, publica o artigo “Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence” (Heterossexualidade Compulsória e Existência Lésbica), no qual define que o sistema patriarcal mantém mulheres em posição de submissão através de um regime político que ela chama de ‘heterossexualidade compulsória’. A teórica e poeta o destrincha em todos os seus aspectos, explicando como mulheres são forçadas à heterossexualidade e afastadas da possibilidade do lesbianismo como sexualidade e como prática política de resistência. Rich cunha o termo continuum lésbico para descrever uma teia de relações profundas (e não necessariamente sexuais) entre mulheres, e aposta na força desse continuum como forma de lutar contra o patriarcado.

É a partir dessa premissa que lésbicas feministas radicais apostam no amor entre mulheres enquanto resistência patriarcal. Esse amor transcende relações sexuais e aposta em conexões entre mulheres e na criação de uma nova cultura, um novo sistema de pensamento. Não cabia dentro dessa nova forma de pensar o mundo a erotização de violência praticada pelo sadomasoquismo e a reprodução de masculinidade e feminilidade em relações lésbicas. O feminismo lésbico defendia que erotizar a igualdade, ao invés da dominação e da submissão, era peça chave na luta pela libertação das mulheres. Essa erotização ia na contramão da construção social da sexualidade no patriarcado, baseada na dominação.

A criação dessa nova cultura teria como base o separatismo enquanto tática, ou seja, que eram necessários espaços exclusivos de mulheres para que se fomentasse esse pensamento. Esse separatismo não excluía a participação de mulheres lésbicas do feminismo, pelo contrário: defendia que essa era justamente uma prática feminista de resistência patriarcal. A partir disso, o feminismo lésbico chegou na concepção de que lesbianismo poderia ser uma escolha: daí vem o famigerado conceito de ‘lesbianismo político’.

Em 1981, o Grupo Feminista Revolucionário de Leeds, na Inglaterra, escreveu um livreto chamado Lesbianismo Político: A Causa Contra a Heterossexualidade, que defendia que mulheres deveriam abandonar a heterossexualidade e escolher o lesbianismo como modo de vida e prática política. Essa percepção não se resumia à atividade sexual com outras mulheres, mas ao abandono da heterossexualidade e à dedicação da energia à conexão profunda com outras mulheres. A lésbica política é aquela que escolheu o lesbianismo como modo de vida. Muitas mulheres realmente fizeram issoe fazem ainda hoje em dia – abandonando marido e filhos para se entregar completamente à luta feminista.

Separatismo como fim em si mesmo: abandono da tática feminista, lesbofeminismo despolitizado

Monique Wittig, feminista francesa materialista, escreveu em 1980 os artigos “On ne naît pas femme” (Não se nasce mulher) e “La pensée straight” (O pensamento heterossexual), em que defende que o eixo político da heterossexualidade compulsória é o que chama de Pensamento Heterossexual, que interpreta de forma universalizante a história e a cultura de forma que não enxerga como possível uma sociedade em que a heterossexualidade não ordenaria as relações humanas. Wittig conclui que as mulheres lésbicas não fazem mais parte da classe sexual das mulheres, ou seja, lésbicas não seriam mulheres, mas sim fugitivas de sua própria classe.

Sheila Jeffreys critica essa concepção em ‘A Heresia Lésbica’, de 1993, constatando que apesar de lésbicas escaparem a formas específicas da dominação patriarcal, como o trabalho doméstico, emocional e sexual não pagos, elas ainda são tratadas como membras da classe sexual das mulheres, e que não seria tão fácil escapar da dominação masculina (de fato, muitos anos depois, queers reivindicam essa tese da Wittig para se afirmarem ‘não binários’ e declararem estar escapando da condição de mulher por meio da autoidentificação). Porém, apesar de a própria Wittig defender a luta das lésbicas dentro do feminismo, muitas lésbicas decidiram que os próprios interesses não condiziam com os interesses das mulheres e abandonaram o feminismo.

Essas mulheres chamam a si mesmas de separatistas lésbicas (no Brasil, algumas se declaram ‘lésbicas radicais’), e defendem um separatismo como finalidade, que desliga as mulheres lésbicas da luta feminista. Esse separatismo identitário é perigoso para o feminismo lésbico, pois tende a despolitizar as relações lésbicas e celebrar qualquer prática lésbica enquanto saudável; essa prática desliga mulheres lésbicas da análise de mundo feminista radical e da militância para transformar a sociedade como um todo.

Dessa análise surgiram as chamadas lesbofeministas, que abandonaram de vez as premissas feministas radicais sobre mulheres e homens enquanto classes. Essas mulheres defendem que a heterossexualidade feminina configura um privilégio, e que mulheres heterossexuais as odeiam e são colaboracionistas da própria opressão (para nós do Blogueiras, lesbofeminismo é uma forma de antifeminismo, assim como o ‘eurocomunismo’ é anticomunismo). O lesbofeminismo também defende que mulheres lésbicas feminilizadas são privilegiadas.

Estudem o feminismo lésbico!

De Linda Bellos a Audre Lorde, de Adrienne Rich a Margarita Pisano, de Sheila Jeffreys a Marilyn Frye: o feminismo lésbico se espalha pelo mundo, gritando a resistência de mulheres lésbicas à heterossexualidade compulsória e o patriarcado. O feminismo radical precisa do feminismo lésbico. A politização da sexualidade é a maior vitória das feministas lésbicas: o entendimento de que a sexualidade, na medida que é construída socialmente, pode ser transformada, e que qualquer mulher pode ser uma lésbica e a heterossexualidade não é obrigatória. Escolham o lesbianismo, estudem o feminismo lésbico. Pela libertação de todas as mulheres!

Post criado 10

3 comentários em “Resumão: feminismo lésbico, lesbofeminismo, lesbianismo político e separatismo lésbico

  1. Gostei muito do artigo, especialmente do histórico sobre a separação do movimento gay e o debate sobre heterossexualidade compulsória. Só achei que ficou confuso ao final? Especialmente com o segundo, terceiro significado a termos que já tinham aparecido antes (como separatismo lésbico e feminismo lésbico), mas agora em sua versão despolitizada. Acho que faltou uma observação de que é um mesmo termo usado para coisas bem diferentes. Tenho especial apreço pelo separatismo lésbico como tática política e sinto que faltou mencionar que sua base é a separação de homens e da sociedade patriarcal como forma de resistência. Por vezes, literalmente escolhendo viver em áreas rurais e construir comunidades lésbicas autônomas e, por outras, a busca por uma vida entre mulheres, que apoie o trabalho de outras mulheres, que defenda sua autonomia, que leia mulheres, que escute mulheres, que assista conteúdo de mulheres etc. E acredito que exista muita força política em rejeitar homens, o conhecimento e cultura masculinos e a estrutura patriarcal para deliberadamente promover culturas e organizações sociais lesbo-centradas.

  2. Muito legal esse post. Serve até como guia para quem quer se aprofundar, dá um roteiro, nomes e referências para que nós lésbicas possamos nos politizar e construir nosso próprio pensamento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo