“Mas você é lésbica mesmo?” lesbianismo e maternidade

palavrinha das BR, por Catarina M. Aquinão

Como toda feminista radical que se preze, nós aqui do Blogueiras estamos sempre chamando atenção pra aquele conceito desenvolvido pela Adrienne Rich nos anos 80: a heterossexualidade compulsória. Assim como tantos outros, esse conceito vem sendo enfraquecido, seja pela sua propagação de maneira deturpada ou porque tem sido deixado pra escanteio nas discussões políticas. Nesse mês de agosto, tão simbólico para as feministas e a luta das lésbicas, não poderíamos deixar de chamar atenção pra esse regime que nos é imposto e do qual é preciso muita força e coragem para se libertar.

O patriarcado precisa da heterossexualidade compulsória, disciplinando as mulheres a se sujeitarem e até desejarem relações de submissão, nas quais elas direcionam aos homens sua sexualidade, carinho, amor, atenção e energia, e, principalmente, seu trabalho. Por isso tudo, se recusar a amar homens (algo que as lésbicas e as bissexuais não têm em comum) e amar mulheres é um ato de rebeldia antipatriarcal. Entendemos que amar outras mulheres é rechaçar a dominação do patriarcado sobre nossa sexualidade e nos libertar dessa imposição.

Rejeitamos o discurso “born this way” (nasci assim), propagado tão intensamente pelo movimento gay, ao reconhecer que a lesbianidade nos é negada e afastada desde que nascemos. O único “way” que a sociedade nos apresenta, é a heterossexualidade. Lésbica é uma construção, uma libertação, uma revolução, que na maioria das vezes, não se faz da noite pro dia e geralmente acontece após várias vivências heterossexuais. Ter sido casada com um homem não inviabiliza o lesbianismo de uma mulher. Ter tido filhos não inviabiliza o lesbianismo de uma mulher. Ter se entendido como bissexual anteriormente não inviabiliza o lesbianismo de uma mulher. É sempre tempo de perceber a atuação da heterossexualidade compulsória sobre nossas vidas e nos rebelarmos contra isso!

A real maternidade lésbica: não é aquela do comercial de margarina

por Raquel Dantas

Outro dia, navegando pelo meu Instagram, me deparei com uma matéria de certa revista supostamente voltada para lésbicas, com a manchete “maternidade homoafetiva”: um “belo” casal de mulheres brancas, classe média alta, falando sobre os percalços emocionais de maternar e sobre como foi difícil, inclusive, decidir sobre a fertilização in vitro. Lindo e organizado como um comercial de margarina – ouso dizer que daria um ótimo roteiro de propaganda daquelas velhas lojas de roupa LGBTQIA+ desconstruidamente capitalistas.

Com isso, não quero dizer que elas não tenham dificuldades e que a maternidade num contexto totalmente planejado e estável seja fácil – é difícil de qualquer forma. Mas é aquela coisinha de olhar para a sua condição e tentar perceber que a realidade da maioria não é essa, sabe? A realidade é que a maioria de nós, mães lésbicas, não nos tornamos mães com fertilização in vitro. Quando a heterossexualidade compulsória não esmagou parte de sua vida num relacionamento, foi por conta de uma violência – e até nesses casos você acaba ouvindo a mesma pergunta:

“Mas você é lésbica mesmo?”

A sensação péssima que vem com esse questionamento, o casal de comercial de margarina nunca vai experimentar (ainda bem). Não cair no erro de colocar a aceitação de quem você é nas mãos da outra é um exercício contínuo. Se “ser mãe” te invalida como lésbica, independente da circunstância que a criança foi gerada, assumir maternar uma criança que não foi planejada e pensada dentro do casal homoafetivo perfeito te invalida como lésbica e como mulher que se posiciona pelos próprios direitos (“se defende tanto o aborto por quê não fez?”).

Então pronto: você acaba excluída de todos os espaços que te aceitavam. E além disso, existem todas as cobranças externas que envolvem “ser mãe”: passar pelo puerpério sozinha, ter que dar conta de um bebê e do trabalho ao mesmo tempo (isso quando acha trabalho, porque “com quem sua filha vai ficar?”), assumir todas as tarefas possíveis porque “você é a mãe, você tem que criar” (quando, na realidade, criar uma criança envolve muita gente), se preocupar sobre a possibilidade de violência sexual que podem atentar contra sua filha… E nunca, nunquinha, é permitido sair do controle. Senão, você entra na famigerada estatística de “mãe narcisista”, ou no mínimo, “histérica”. Ser mãe e lésbica não é fácil.

Nossa sociedade misógina e patriarcal tem a função de reprodução, a função de “mãe”, como principal forma de submissão, e não consegue suportar mulheres emancipadas e insubmissas vivendo em liberdade com suas crias. É uma luta duplamente dura: para se relacionar e para maternar. Mas é essa luta que fomenta a revolução, que dá voz para nós que somos tão silenciadas. Não podemos deixar que nos calem quando vamos falar sobre útero ou sobre pessoas reais que não têm a chance de planejar a família perfeita dentro de um laboratório.

A realidade é que finalmente estamos unidas e fortes o bastante para nos libertarmos dos grilhões do patriarcado (que, como podemos ver, tem buscado se reinventar para perpetuar a opressão) e finalmente podermos dizer: “É, eu sou lésbica e sou mãe. Não é porque sou mãe que vou me submeter a qualquer tipo de domínio, nem físico nem psicológico” (domínio esse que vem de todos os lados, inclusive quando te dizem que você “não pode fazer tal coisa” por “ser mãe”).

Nossa revolução é lésbica e radical, e inclui a maternidade. A realidade da maioria das mães lésbicas não é de histórias coloridas, não é fácil como um conto de fadas. Ela tem dor e violência, luta e superação. Fechar os olhos e dar voz pra uma falsa realidade positiva é prestar apoio ao sistema misógino e violento: ora, se é “tudo bem” pra que lutar? Por quê tanta revolta? Por quê vocês são “tão agressivas”? O patriarcado é que é agressivo com nossas filhas e filhos, com mulheres negras, indígenas e quilombolas. Não toleramos mais uma libertação pela metade. Como já dizia em “Mad Max”: “Nossos filhos não serão filhos da guerra” – Nossos filhos não serão filhos do patriarcado.

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