“Sou sapatão, porra!”: parem de dizer que lésbicas são homens trans!

Sarah Frota Lima é uma mulher lésbica, sapatona mesmo, cheiro de couro, lutadora (no sentido literal), ex-UFC, e está exausta de ser acusada de homem e ter sua voz silenciada por um movimento LGBT que de L não tem nada. Sigam @atretaoficial lá no Instagram!

por Sarah, a Treta

Desde que me entendo por gente, nunca me encaixei no padrão de feminilidade imposto pelo patriarcado. Desde nova já sofria assédio e preconceito por não ser a menininha ou a “princesa” que fui criada pra ser.

Nunca me vi como as meninas normais, mas também nunca me senti “no corpo errado” ou tive qualquer disforia com meu sexo. Eu apenas era uma garota que gostava de coisas “de menino”. No começo da minha juventude até achava que era bi, mas depois entendi que ser uma mulher lésbica e “sapatão” era muito mais do que com quem eu me relacionava sexualmente, era uma vivência e identidade na qual eu realmente me identificava.

Quando comecei a estudar o feminismo, entendi que gênero era uma criação do patriarcado, e que toda a pressão que me faziam não passava de uma imposição pra me colocar no padrão social aceito. Com o feminismo, me libertei de dogmas e comecei a me preocupar mais com o mundo exterior do que comigo, eu estava resolvida e feliz com a minha existência.

Apesar disso tudo eu sempre sofri pressão pra “me assumir” um homem trans. Uma pessoa já teve a capacidade de me falar que eu era trans e não me aceitava, porque com certeza eu tinha uma “essência masculina”…

Quando foi que nossa vivência lésbica virou “essência masculina”? Quando foi que passamos a sofrer pressão para transicionar mesmo não tendo nenhuma disforia sexual? Eu sofro muito preconceito, não consigo utilizar banheiros públicos e mesmo eu falando pras pessoas que meu nome é Sarah e sou uma mulher me chamam de “ele”. Até quando não aceitarão nossas identidades lésbicas?

Palavrinha da editora

por Adriane Rica

O movimento trans gosta de criar uma separação artificial entre orientação sexual e identidade de gênero. Gosta também de vender a mentira de que é um movimento progressista, pela aceitação social, e que respeita a forma como as pessoas se vêem, suas identidades. Mas a maior evidência do contrário é a forma como eles tratam lésbicas.

Dizem que “lésbica de verdade” se atrai por feminilidade e aparência feminina, e não por mulheres. Se é lésbica e sua namorada transiciona, você perde o direito de se nomear como lésbica. Sua identidade é tornada invisível. Se é desfeminilizada, ou seja, rejeita as práticas de beleza associadas ao “gênero feminino”, te acusam de ser “homem trans enrustido” ou “não-binária“. E se é feminista radical, politizada e consciente de que gênero é uma opressão, dizem pra você calar a boca, e que sua opinião é “transfobia internalizada”, e você precisa transicionar logo e parar de “espalhar ódio”.

As lésbicas hoje estão num ponto crucial: a gente começa a virar o jogo contra o queer ou deixa de existir. Em uma sociedade em que um macho fetichista é considerado exemplo de mulher lésbica — até pelo movimento que supostamente representa e defende as lésbicas — mulheres que o são de fato são cada vez mais empurradas para a alcunha de trans. Nenhum outro grupo é tão transicionado pelos outros quanto as lésbicas. Não adianta se afirmar, é a percepção alheia que decide por você.

Antes celebradas pelo feminismo e o movimento gay, lésbicas desfeminilizadas enfrentam cada vez mais assédio e preconceito, e acabam sendo discriminadas e excluídas da lesbianidade que considera que “você não se apaixona por um genital” mas pode ter uma orientação sexual inteira baseada em se atrair por pessoas que usam salto alto, batom, unha comprida e calcinha de rendinha. Essa definição baseada na aparência e na feminilidade inclui homens na categoria ‘lésbica’ e exclui mulheres como a Sarah, autora do nosso texto de hoje.

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