Teste: Qual estrela tem na sua carteirinha sapatão?

por Cecília T. Ríbade

Dourada? Prateada? Bronze? Ou nem estrelas você tem? Faça esse elaborado teste e descubra quem é você no pódio sapatão.

1- Com quantos anos você saiu do armário e gritou “sou lésbica!!!”?

  1. Muito jovem pois sempre fui uma criança sapata
  2. Sexualidade é algo líquido e transcendental, precisamos abolir os rótulos, como grito que sou uma coisa hoje se amanhã posso ser outra?
  3. Depois de já ter tido muitos relacionamentos heterossexuais
  4. Por um período acreditei que fosse bissexual e com o tempo fui me compreendendo lésbica, tanto pelo afeto quanto politicamente

2- Para você lésbicas:

  1. Nascem lésbicas, sexualidade é inata
  2. São mulheres que se relacionam afetiva/sexualmente exclusivamente com outras mulheres, não importando desde quando se entenderam ou assumiram lésbicas
  3. É uma escolha da fase da vida, que pode durar para sempre ou não, a bissexual de hoje pode ser a lésbica de amanhã
  4. Dizem que são mulheres que curtem mulheres ou não, afinal, não sei nem quem eu sou vou lá vou saber o que são lésbicas? Cada pergunta!

3- Sobre sexo, lésbica que é lésbica:

  1. Precisamos desgenitalizar os corpos as corpas
  2. Geralmente tem a ativa e a passiva, pelo que me lembro
  3. Nunca transou com homens
  4. O importante é ter buceta com buceta xereca na xereca, colar velco, colocar as aranhas pra brigar, vocês me entenderam

4- Quando você pensa em uma sociedade ideal, ela é:

  1. Livre do patriarcado
  2. Várias guerreiras amazonas lésbicas vivendo juntas em uma grande ilha comunidade exclusiva
  3. Homens e mulheres com direitos iguais
  4. Extinta

5- Para finalizar, lésbicas podem ser aliadas de mulheres bissexuais e heterossexuais?

  1. Não, as ht e bi já escolheram priorizar os homens, então elas que lutem!
  2. Sim, mas de longe porque na realidade o que são alianças não é mesmo? Não quero esse tipo de compromisso com ninguém, amanhã posso fluir e nada mais disso fazer sentido, somos plurais.
  3. Mulheres bissexuais e heterossexuais oprimem lésbicas, a aliança é impossível!
  4. Sim, somos todas mulheres e a heterossexualidade compulsória atinge a todas nós independente da sexualidade de cada uma

Resultado:

Se você chegou até aqui dando muitas gargalhadas, PARABÉNS! Você entendeu que esse teste é mesmo uma grande piada.

Agora se você está brava, sinto muito, mas um teste que se propõe a distribuir estrelas entre lésbicas não pode ser jamais levado a sério.

Não tem nenhum sentido conferir estrelas para mulheres lésbicas, criando uma espécie de selo para aquelas que não se relacionaram afetiva/sexualmente com homens em algum momento de suas vidas. Vamos por gentileza avançar nessa tremenda ignorância.

Não dá para criarmos sub categorias de lésbicas, tendo em vista que a sexualidade não é inata, você não nasce predestinada a ser algo. Mesmo que desde muito jovem você compreenda seus afetos, que com o passar dos anos você perceba seus desejos sexuais, isso não é por ter nascido com a estrela dourada na testa, sim em razão de fatores objetivos e subjetivos como família, criação, religião, em como seus primeiros laços de confiança se deram, as informações externas que recebeu, as pessoas que aprendeu a admirar, aquelas que preferiu/quis se afastar. Enfim, somos seres sociais, e isso irá influenciar na nossa sexualidade e na forma que iremos vivenciá-la.

E, sendo seres sociais, vivemos cercadas pelas opressões, num patriarcado. E enquanto mulheres, essas opressões são presas em nós desde o momento que constatam que nascemos com uma vulva.

É a vulva, o órgão reprodutor feminino, o fato sermos fêmeas, que irá nos conferir um selo, o selo do gênero feminino, o gênero da feminilidade, da docilidade, da submissão, dos trabalhos domésticos, da maternidade, dos cuidados com os outros, da culpa, dos rituais cosméticos que se iniciam no brinco colocado na bebê ainda na maternidade e se perpetuam pelo tempo com a depilação, maquiagem, salto alto, dietas, medo de envelhecer, pânico de engordar, desespero de não encontrar um marido para formar uma família com filhos, cachorro e uma casa com cerquinha branca…

Portanto, nós mulheres que compreendemos que nossos afetos e desejos sexuais são sentidos e direcionados para outras mulheres, que quebramos a regra das relações construídas em torno do opressor e que decidimos pelo afeto centrado em mulheres, somos a ruptura com essa ordem patriarcal, nós somos a quebra de um sistema poderoso que opera a sociedade misógina, falocêntrica e compulsoriamente heterossexual em que vivemos.

Lésbicas provam com suas vidas que há um caminho alternativo, melhor dizendo, há uma forma de vida que não será delimitada pela submissão à figura masculina, que há como sermos livres dos rituais de domesticação da mulher ao homem.

Entretanto, o momento das nossas vidas em que esse rompimento se dará não vem como uma receita no verso de uma caixa que diz quantos minutos levará para ela ficar pronta. Não há uma regra a ser seguida para conferir uma estrela que nos dividirá em primeira (dourada), segunda (prata) e terceira (bronze) colocadas, como também naquelas que demoraram tanto que nem sequer estrelas terão. Isso não tem qualquer razão para existir, mas mesmo assim há quem insista nesse pódio, em distribuir carteirinhas da que é mais e da que é menos sapatão. Isso é cruel com todas as mulheres, desde a que seria a tal estrela dourada, até a sem qualquer estrela. E isso tem criado rivalidades impensáveis dentro do feminismo, inclusive do feminismo radical, que tem entrado cada vez mais em conflito com as acusações do lesbofeminismo.

Isso porque sabemos que a lesbianidade não será apenas a orientação sexual daquela mulher, ela determinará seu lugar no meio em que vive, passando a ser sua identidade política e social, tendo em vista que a partir do momento em que nos rebelamos contra essa opressão, contra essa ordem, passamos a ser vistas como menores, descartáveis e menos úteis, considerando que a maior utilidade de uma mulher, para os moldes tradicionais impostos, é o de reproduzir a classe trabalhadora, e de ser aquela que cuidará,  através dos afazeres domésticos, do lar, da família e do marido.

Assim sendo, a enorme pressão sofrida por aquelas que não terão relacionamentos capazes de gerar mão de obra filhos e que não irão dedicar suas vidas aos cuidados com o homem e suas necessidades domésticas, assim como o temor da rejeição, da violência, da expulsão de casa, da perda de alianças, do julgamento dos que as cercam, faz muitas mulheres negarem e lutarem contra seus afetos e desejos por outras mulheres.

Isso é inegável.

Mesmo aquelas que já experienciaram relacionamentos com outras mulheres ou que viveram momentos em que não fugiram de suas vontades, tendo tido paixões, sexo, beijos, laços com outras mulheres, sentem medo da palavra lésbica e de todo o peso que ela carrega. Algumas, inclusive, se refugiam no rótulo de “bissexual”, que inclui a atração por mulheres mas não carrega o peso da rejeição à classe masculina. Hoje em dia não é politicamente correto dizer isso, mas assim como não faz sentido separar quem é “bissexual de verdade”, não faz sentido deixar de reconhecer as que se compreenderam dessa forma e escolheram ou se perceberam lésbicas ao conseguir romper com as expectativas (inclusive as delas mesmas) sobre elas e as vidas que elas iriam viver.

Quebrar com a submissão ritualizada da feminilidade e exigir sermos vistas como humanas e não como objetos a serviço dos olhares, desejos, anseios e expectativas dos outros causa um certo pânico de carregar a lábrys o carimbo escrito lésbica na testa.

Dessa forma, nada mais urgente que a solidariedade entre lésbicas, com as lutas travadas por aquelas que, sabemos, tiveram de lidar com as correntes que nos ferem na carne, com os olhares e propostas moldadas pelos fetiches daqueles que reduzem nossos afetos a sexo, e detalhe, sexo esse que é tido como “incompleto” pela ausência do pênis (a não ser que você seja o Transotário Transdiário que acredita que pênis, dildo, dedos, língua são a mesma coisa). Mulheres que travaram batalhas contra o mundo rosa da feminilidade imposta, que são perseguidas pelos xingamentos cruéis que ferem aquelas que decidiram dedicar suas vidas a outras mulheres…

Assim, estrelas, pódios, carteirinhas, troféus e qualquer outra forma de demarcar as lésbicas em razão de suas vivências, é ignorar a perversidade da sociedade em que vivemos. Se a heterossexualidade é compulsória, a estrela dourada celebra a sorte, e não o mérito.

No mês de agosto, em que tradicionalmente os dias são dedicados ao orgulho e visibilidade das lésbicas em razão do Levante do Ferro’s Bar (19/08/1983) e do 1º SENALE (29/08/1996), muita rivalidade, silenciamento e críticas têm sido trocadas entre lésbicas, exatamente por uma desconsideração pelas vivências de umas pelas outras. A hostilidade é tanta que mulheres que se tornaram lésbicas por influência do feminismo são excluídas e chamadas de falsas lésbicas, e o lesbianismo político, concebido por lésbicas feministas, não por mulheres heterossexuais, é rechaçado sem dó.

E digo isso sem desejar adentrar na lama da pós verdade na pós modernidade adotada por algumas que estão impondo absurdos como homens pintos lésbicos e uma exigência violenta de desconstrução da categoria lésbica. Impondo, inclusive, que essas mulheres sejam fragmentadas na busca por validar a identidade de terceiros ou do contrário serão genitalesbicas canceladas, acusadas das mortes de minorias e de serem fóbicas.

Não me perderei nesses caminhos moldados pela chantagem emocional, manipulação e egoísmo extremo, porque tem sido cada vez mais óbvia a extrema dificuldade de dialogar com quem, no desespero de não parecer fóbica, prefere pisar em outras mulheres.

Entretanto, escolho falar com aquelas que curtem essas subcategorias de lésbicas estrelas douradas e estrela nenhuma, que menosprezam aquelas que já foram casadas com homens, ignoram as lésbicas mães e acusam as que já se entenderam enquanto bissexuais de serem lésbicas de fachada.

É para essas que escrevo.

Para as que ainda seguem a cartilha escrita pela Bev Jo, por exemplo, que é repleta em preconceitos, quando não apenas categoriza lésbicas em Fem (lésbicas feminilizadas, as que obedecem a norma) e Butches (as mais assumidas das lésbicas, são o mais próximo do que toda mulher seria sem o patriarcado), como alimenta uma rivalidade entre essas mulheres, tornando a vivência lésbica uma guerra entre:

  • Ultra Feminilizadas – Hard Fem: Lésbicas que usam o uniforme patriarcal da extrema feminilidade; 
  • Lésbicas Desfeminilizadas – Fem Dikes: quebram com a feminilidade macho-identificada, mas não são butch;
  • Soft Butches: são uma versão mais suave da Butch, geralmente são de uma classe social mais alta;
  • Butches Duronas – Hard Butches: são vistas como frias e predadoras, mas na realidade quem mais desempenha esse papel são as Hard Fem.

(definições retiradas do livro “Dykes-loving-dykes: dyke separatist politics for lesbians only”, lançado em 1990, pela escritora estadunidense e lésbica separatista Bev Jo)

Essa categorização recria a tese de que lésbicas que ainda participam dos rituais de feminilidade (as heterossexualizadas, segundo ela) oprimem, isso mesmo, oprimem as inconformes, sendo elas as Fem Dikes, Soft Butches ou Hard Butches, porque as Fem ainda seguem as regras masculinas ditadas para as mulheres. Aqui no Brasil, pra piorar, ser ‘heterossexualizada’ na cabeça de algumas lesbofeministas significa ter qualquer opinião que desvie da sua linha antifeminista e revanchista, independente de qual categoria você pertence.

Tem algum sentido uma lésbica oprimir a outra? 

Não tem nenhum! 

Mas esses rótulos continuam sendo utilizados e reproduzidos, causando um mal estar enorme entre lésbicas.

Tanto que as discípulas de Bev Jo defensoras da estrela dourada concordam com esse identitarismo que defende que há sim lésbicas que são mais lésbicas que outras, que há sim a imagem da lésbica real e daquelas que fingem ser heterossexuais, como há lésbicas que são as verdadeiras representantes da categoria enquanto as outras só podem servir de plateia, pois não honram com o que é ser lésbica, afinal não odeiam homens e ainda desejam se parecer atraentes para eles.

Cruel, não é mesmo?

Mais ainda, um imenso desrespeito com as lésbicas e suas múltiplas vivências.

E, repetindo o já declarado, sobre as amarras e temores relacionados romper com todos os rituais impostos pelo patriarcado, isso é pregar o ódio por mulheres! 

É desconsiderar a violência da sociedade em que vivemos!

É endossar o coro da misoginia.

Essas classificações precisam ser dissolvidas porque nossa batalha, não apenas como lésbicas, mas como feministas, é pelo fim de todos os rituais de submissão femininos, desejamos e lutamos por mulheres livres, mas não é nos separando em categorias que faremos isso!

Não é nos desumanizando que avançaremos.

Portanto, para finalizar, compreendo que uma lésbica lida pela sociedade como masculina (o que é um equívoco imenso, deixar de obedecer aos padrões impostos não é se masculinizar) irá sofrer a lesbofobia de maneira mais direta e cruel do que aquelas que se aproximam mais da norma imposta, é inegável. Tanto que são essas que estão em maioria em subempregos, desempregadas, sendo mais violentadas e excluídas, elas são as que sofrem com a constante pergunta do “porque você quer se parecer com um homem?”, “você é homem?” ou a mais atual “tem certeza de que você não é trans?”.

Mas isso não significa que haverão lésbicas, das butch às fem (usando os termos da Bev Jo) que deixarão de sofrer com a lesbofobia. Todas sofrerão, pois todas deixaram de obedecer o que é imposto como correto, como natural, que são as relações centradas nos homens. Ser lésbica vai além da forma com que nos vestimos, com o momento das nossas vidas que nos “assumimos” e dos rótulo que pregam em nós. 

Todas, sem exceção, pelo medo, pelo desrespeito, pela ignorância, pelo ódio e pela misoginia serão marcadas a ferro pelo preconceito.

Somos todas lésbicas, mulheres que se relacionam afetiva/sexualmente com outras mulheres, mulheres que romperam com as relações falocentradas (incluindo aqui, pau e pênis, mesmo os que usam batom, saia e salpicados de glitter). Estrelas douradas são até legais em uniformes de times de futebol (pensando em algo inútil, mas divertido), mas entre lésbicas só serve para ser mais uma forma de criar hierarquias entre nós, e não podemos mais ser coniventes com isso.

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