Minha Revolução Sexual

Como vocês já sabem, o Blogueiras é formado por várias feministas radicais. Pra gente, é consenso a necessidade e importância das mulheres heterossexuais na luta feminista. Também é consenso o fato de que ser lésbica é revolucionário em nossa sociedade patriarcal.

Apesar de controverso, o tema do lesbianismo político é imprescindível ao feminismo radical, e teve uma enorme importância para a luta radical sobretudo nos anos 70 e 80. Independentemente das concordâncias ou das críticas, uma coisa é certa: precisamos desvincular sexualidade de determinismo biológicos.

Tudo que sabemos sobre sexualidade humana aponta para uma influência biológica (cujo peso ainda não sabemos determinar) somada a uma extraordinária influência social e cultural. Isso quer dizer que a heterossexualidade não é um destino, não é uma prisão. Ela é uma construção social, um regime político, uma forma de controlar os corpos e as vidas das mulheres. E tudo que é construído, pode ser destruído, alterado ou substituído.

Parafraseando Bindel: “Vamos lá irmãs, vocês sabem que faz sentido. Parem de fingir que vocês pensam que o lesbianismo é um clube exclusivo para membras e juntem-se às fileiras. Prometo que não vão se arrepender”.

Minha Revolução Sexual

por Julie Bindel, traduzido para o Blogueiras Radicais

Trinta anos atrás, um grupo de mulheres radicais começou a argumentar que todas as feministas deveriam ser lésbicas. Muitas pessoas discordaram, mas a ideia mudou a vida de Julie Bindel.

No final dos anos 70, um grupo de lésbicas em Leeds, conhecidas como feministas revolucionárias (RFs), fez um movimento controverso que ressoou alto para mim e muitas outras mulheres. Elas começaram a chamar todas as feministas a abraçarem o lesbianismo. Apelando para suas irmãs heterossexuais a se livrarem dos homens “de suas camas e de suas cabeças”, elas começaram um debate, o qual alcançou seu auge em 1981 como a publicação do infame livreto , “Ame Seu Inimigo? O Debate Entre O Feminismo Heterossexual e o Lesbianismo Político (LYE)”. Nele, as RFs escreveram que, “todas as feministas podem e devem ser lésbicas. Nossa definição de uma lésbica política é uma mulher identificada com as mulheres, que não transa com homens. Não significa atividade sexual compulsória com mulheres”.

A mensagem de LYE imediatamente provocou uma reação forte e frequentemente negativa. Enquanto algumas feministas radicais concordaram com os argumentos do grupo, muitas foram à loucura por serem chamadas de “contra-revolucionárias”, minando a luta por libertação das mulheres por dormir com homens. A principal autora de LYE, Sheila Jeffreys, disse que o backlash ao livreto “mesmo entre lésbicas, foi bem chocante. Muitas estavam irritadas com o grupo por escrevê-lo. Elas sentiram que ele as expôs à hostilidade de feministas heterossexuais indignadas”.

Não é surpreendente que o livreto foi tão controverso. “Nós pensamos que feministas sérias não tem escolha além de abandonar a heterossexualidade”, se lê. “Apenas no sistema de opressão da supremacia masculina ,o opressor de fato invade e coloniza o interior do corpo do oprimido”. Também afirmou que a penetração “é mais que um símbolo, sua função e efeito é a punição e o controle das mulheres”.

Tina Crockett foi uma das RFs que se reuniu em um chalé de férias em Yorkshire Dales para escrever LYE. Ela diz que enquanto a insistência do livreto ao redor da sugestão que o lesbianismo poderia ser uma escolha era controverso, o debate era igualmente acalorado ante a sugestão que os homens eram os inimigos. “Nós estávamos tentando desafiar as desculpas usadas por algumas feministas heterossexuais no que diz respeito a porque elas viviam com Nigel ou John,” ela diz. “Elas diziam, ‘Ah, mas meu homem é ok,’ como uma forma de se recusar a olhar para o fato de que alguns homens realmente odeiam mulheres.”

Alison Garthwaite foi outra das autoras, e ela mantém o argumento original. “Sexualidade não é determinada por um gene com o qual nascemos,” ela diz. “Pode mudar com o tempo, e é determinada tanto pelas circunstâncias como pelas escolhas que você faz.” Garthwaite é perspicaz em assegurar às feministas heterossexuais, no entanto, que seu papel no feminismo não é redundante ou indesejado. “Talvez o artigo original tenha implicado que as feministas heterossexuais não eram úteis e que não precisavam se dar ao trabalho. Eu não penso isso.”

Tanto Crockett como Garthwaite conseguem ver porque LYE chateou as pessoas. “Os argumentos na LYE eram uma bisnaga de dinamite em uma convenção feminista muito acolhedora” diz Crockett, “de que feministas heterossexuais nunca devem ser criticadas por escolher homens ao invés de mulheres.”

A publicação de ASI foi uma das primeiras vezes em que a noção de sexualidade como uma escolha foi publicamente levantada no movimento de mulheres do Reino Unido. Muitas feministas consideravam a sexualidade como uma questão puramente de desejo pessoal, e a ideia que o lesbianismo poderia ser uma decisão política foi percebida como “sangue-frio”. “Elas acreditavam que uma pessoa não escolhe orientação sexual ou sentimentos, mas que era dominada por eles” diz Jeffreys. “A pessoa podia aceitá-los ou lutar contra eles, mas nunca fabricá-los.”

A escritora feminista Bea Campbell foi uma das muitas detratoras de LYE, argumentando que era muito mais importante desafiar o comportamento dos homens em relacionamentos heterossexuais do que insistir que mulheres abandonassem as esperanças completamente. “A noção de lesbianismo político é maluca,” ela diz. “Isso apagou o desejo. Foi fundada, portanto, não no amor pelas mulheres, mas no medo de homens.” Outra feminista crítica foi a acadêmica Lynne Segal, que escreveu em celebração da heterossexualidade. “Para mim, chegando no feminismo no começo dos anos 70, ‘lesbianismo político’ era a principal posição avançada por um pequeno grupo de mulheres vanguardistas,” ela diz, “Sua posição era trágica, porque não, nem todos os homens são inimigos.” Ela adiciona que a mídia usou LYE para sujar a imagem do feminismo em geral. “Aquilo inevitavelmente aumentou a amargura que nós sentimos, daquela época até hoje.”

Para todos aqueles que menosprezaram sua mensagem, no entanto, houve mulheres que levaram os argumentos do LYE a sério. O livreto descrevia o lesbianismo com destaque, o que era algo incrível lá nos anos 70 – afinal, mulheres assumidas ainda enfrentam preconceito e exclusão (ontem mesmo, o Sun usou o termo pejorativo “sapata” numa manchete sobre uma deputada interina da Islândia). Algumas mulheres expulsaram namorados e maridos depois de tomar nota de reivindicações como essa: “Ser uma feminista heterossexual é como ser a resistência em uma Europa ocupada pelos Nazistas onde de manhã você explode uma ponte e de noite você corre para reconstruí-la.”

Outras, como eu, acharam que os argumentos na LYE falaram diretamente com sentimentos que já vinham se desenvolvendo. Oponentes do lesbianismo político argumentavam que lésbicas “genuínas” são movidas unicamente por luxúria por mulheres, ao invés de uma decisão de rejeitar homens e a heterossexualidade. Para mim, no entanto, meu lesbianismo é intrisicamente vinculado à minha política feminista e minha campanha contra a violência sexual.

Quando eu estava crescendo numa cohab [no original, council state] em Darlington, a expectativa era que um dia eu me casaria com um rapaz local, me estabelecesse e começasse a produzir crianças. Francamente, o pensamento me aterrorizava. Eu estava cercada de homens – meu pai e dois irmãos – e desde cedo eu havia me atualizado em histórias de violência doméstica, abuso infantil e infelicidade generalizada que parecia emanar das famílias vizinhas. Eu também fui impactada pelo trabalho doméstico quase escravo que se via. Enquanto homens estavam fora bebendo, embarcando em viagens para pescaria e aproveitando sua liberdade em geral, as mulheres estavam presas cozinhando para eles, limpando para eles, e correndo por aí atrás de crianças. Para mulheres, a heterossexualidade parecia um golpe, uma enganação.

Aos 15, tendo tido apenas um namorado não sério, eu me assumi lésbica. Três anos depois, eu me mudei para Leeds em busca das feministas assustadoras sobre as quais eu tinha ouvido falar e, tendo me juntado a um grupo que lutava contra a pornografia, finalmente conheci as RFs. Elas me engajaram em discussões sobre a heterossexualidade no pub, e criticar essa cultura sexual hegemonica fez sentido para mim – afinal de contas, as mulheres com as quais eu havia me deparado durante minha infância claramente não haviam se beneficiado disso. As RFs me contaram que, para elas, o lesbianismo era uma escolha que as mulheres podiam fazer, e não uma “condição”, com a qual nascemos. “Todas as mulheres podem ser lésbicas” era o mantra. Eu amei a ideia de que eu tinha escolhido minha sexualidade, e ao invés de me sentir envergonhada ou culpada sobre isso, como muitas mulheres se sentiam, eu podia sentir orgulho e ver isso como um privilégio.

Muitas daquelas que abraçaram o lesbianismo político nos anos 70 e 80 ainda mantém a fé até hoje. Para Jeffreys, por exemplo, os argumentos em LYE são tão relevantes hoje como eram há 30 anos atrás. “Nós tomamos a decisão de nos tornar lésbicas porque amar e lutar por mulheres era o centro de nossas vidas, e para mim ainda é. Fazia pouco sentido passar todo nosso tempo trabalhando pela libertação das mulheres e depois voltar para casa para homens.” Crockett também diz que ela apoia os sentimentos no artigo, mas gostaria que ele não tivesse focado apenas nos aspectos negativos da heterossexualidade. “Nós devíamos ter dito, ‘Entrem, a água está ótima’ porque de fato, é realmente divertido ser lésbica.”

Para mim, o lesbianismo político contínua a fazer sentido intrisecamente porque reforça a ideia que a sexualidade é uma escolha, e que não estamos destinadas a uma vida específica por causa de nossos cromossomos. Eu também suspeito que seja muito difícil passar a vida cotidiana lutando contra a violência masculina, para depois compartilhar a cama com um homem à noite. Então tem o fato que trabalhar com mulheres rumo a um objetivo comum significa desenvolver um forte e apaixonado vínculo com elas – porque algumas feministas bloqueiam a possibilidade de relações sexuais com suas irmãs políticas e em vez disso se voltam para homens em busca de intimidade é um mistério para mim.

Eu acho que está na hora de feministas reabrirem o debate sobre heterossexualidade e abraçar a ideia do lesbianismo político. Nós vivemos em uma cultura na qual o estupro ainda é uma realidade cotidiana, e mulheres ainda são culpadas por isso, visto que é enxergado como um aspecto inevitável do sexo heterossexual. Violência doméstica ainda é um problema crônico para incontáveis mulheres que se relacionam com homens. Às mulheres é dito que amem seus opressores, enquanto, como feministas, nós lutamos para acabar com o poder concedido a eles como direito de nascença. Vamos lá irmãs, vocês sabem que faz sentido. Parem de fingir que vocês pensam que o lesbianismo é um clube exclusivo para membras e juntem-se às fileiras. Prometo que não vão se arrepender.

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2 comentários em “Minha Revolução Sexual

    1. A maioria (todas) as mulheres sofrem de heterossexualidade compulsória. Muitas até acham que são bis ou hetero por uma questão de se atrair pelo sexo oposto mas na hora do vamo ver, do ato em si a maioria não curte. E pq não curte? Pq é tratada como um objeto na hora do sexo. Por isso acho a discussão sobre lesbianismo político relevante. Vc não acha que tem algo de estranho em se declarar bissexual ou heterossexual só por sentir atração e gostar da pessoa mas na hora do vamo ver não curtir?

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