Quem tem medo do feminismo radical?

Em meados de 2013, um novo tipo de discurso feminista ganhou força nas redes sociais brasileiras, ecoando as polêmicas que vinham do exterior e abrindo novas disputas dentro dos movimentos de mulheres no Brasil. Pautas e posições há muito esquecidas, como a oposição à prostituição e à pornografia, começaram a aparecer com frequência em posts e tweets de feministas jovens, que à época se organizavam por meio de páginas e grupos de Facebook para expressar descontentamento com a sociedade e também com a militância feminista. 

A questão do gênero também incomodava: questionamos, aos poucos, como ser mulher pode significar uma opressão imposta a partir da nossa condição e, ao mesmo tempo, uma escolha livre e desejável feita por pessoas que não apenas não compartilham da condição de sexo feminino, como fazem parte do grupo que se beneficia diretamente da exploração do segundo sexo. Em pouco tempo, fortalecemos a posição de que não se pode aceitar que gênero é uma escolha individual e também lutar pela libertação das mulheres de toda forma de opressão. Houve uma verdadeira caça às bruxas virtual, com direito a index proibitorum librorum e listas de banimento. 

As mesmas feministas que se diziam progressistas e abertas a pensar a sociedade a partir de novos paradigmas excluíam e atacavam qualquer pessoa que concordasse com ideias vagamente radicais. As novas ideias foram taxadas de discurso de ódio, e as que as defendiam por convicção ou acidente foram declaradas inimigas. Qualquer incerteza ou discordância era suficiente para alguém ser acusada de causar diretamente as mortes de pessoas cujas identidades se baseiam em ideologias rejeitadas pelas radicais. Xingamentos foram importados para o Brasil, e de feministas passamos a radfems, rads, e em seguidas TERFs (trans-exclusionary radical feministas) e SWERFs (“sex-worker” exclusionary radical feminists). O ridículo da alusão ao mito da “feminazi” por pessoas que não se consideram reacionárias passou batido, e passamos a ser chamadas de nazistas e fascistas sem qualquer ironia.

A mensagem era clara: o feminismo tinha passado de um movimento exclusivo de mulheres para um movimento todo-inclusivo. Homens gays, pessoas transgênero de qualquer sexo, homens negros, “profissionais do sexo” nas condições de gerentes (que nós chamamos de cafetões), pornógrafos e consumidores de pornografia, qualquer pessoa autoidentificada como mulher, não-homem, ou mulher-mas-só-nas-quartas-feiras, e até traficantes de mulheres agora tinham voz no movimento. 

Curiosamente, apesar do discurso da inclusão, às lésbicas ficava vedada voz própria, podendo falar somente para corroborar e fortalecer pontos de vista que não partiram de nós e nem nos servem. Fomos consideradas novamente a ameaça lavanda, ameaça interna ao movimento de mulheres que precisava ser combatida. Nem mesmo nosso silêncio, diante da impossibilidade de expressar oposição, era aceito. De todas nós era cobrado, por meio de ameaças implícitas e explícitas, que fizéssemos propaganda efusiva de ideias e práticas que significam a nossa destruição enquanto mulheres e lesbianas

A maioria das que são feministas radicais no Brasil estiveram envolvidas com algum tipo de ativismo anteriormente, e consideravam estar fazendo feminismo. Hoje, mudaram radicalmente de posição. Defendem a auto-organização das mulheres, e também a sua autonomia política em relação à classe masculina, onde quer que seus representantes estejam: escondidos em subreddits, organizados numa sopa de letrinhas impronunciável, no movimento negro, na presidência da república ou exilados fora do país após a carreira parlamentar em defesa dos direitos individuais dos GBT (e fazendo freela de relações públicas do Estado de Israel).

 

O feminismo radical organizado no Brasil teve altos e baixos. À exceção da Coletiva Feminista Radical Manas Chicas, hoje extinta, todas as grupas se formaram após as guerras de gênero de 2013. No auge, em 2015, mapeamos 13 coletivas, de Porto Alegre a Vitória da Conquista. Hoje restam no Brasil apenas duas coletivas que reivindicam o feminismo radical: a GARRa Feminista, de Belo Horizonte – MG, e a coletiva Matinta, de Belém do Pará. Há outras grupas que fazem ativismo e defendem ideias feministas radicais, mas se escondem em denominações como “feministas materialistas” para tentar fugir de ataques. Sem dúvida existem coletivos de mulheres em que atuam feministas radicais. Sabemos que muitas feministas radicais atuam em movimentos mistos com as mais diversas pautas, defendendo ideias radicais dentro e fora deles. Mas enquanto o projeto organizativo ainda está por realizar, a influência ideológica do feminismo radical, propagandeado pelas jovens feministas há mais de meia década no Brasil, é concreta dentro e fora do movimento feminista, e permanece viva e acesa.

 

Este blog pretende somar as práticas ativistas de 2013 com a experiência organizativa de 2014 em diante, ocupando a internet para ocupar o feminismo e a sociedade. Entendemos que é preciso sair da posição recuada de “nenhum direito a menos” e partir para a luta de classes, reconhecendo e enfrentando a classe dos homens como inimiga, e voltar a falar em transformação radical da sociedade. Queremos trazer de volta a raiva, a revolta e a rebeldia para o movimento de libertação das mulheres. 

 

Estamos junto com as feministas argentinas em luta contra o imperialismo e pela abolição da prostituição, e em defesa do sujeito político do feminismo. Junto com as radicais coreanas lutando contra a beleza, a pornografia e a violência, com humor e ousadia. Junto com as feministas radicais britânicas que são atacadas por quererem discutir os impactos das novas legislações de gênero sobre as vidas das mulheres. Junto com as feministas radicais estadunidenses, que combatem a violência masculina nas comunidades por meio da responsabilização coletiva, em vez da abordagem punitivista do Estado. Junto com as radicais canadenses que construíram e mantêm casas abrigo exclusivas para mulheres, e enfrentam o desfinanciamento do Estado e a lawfare do movimento trans para garantir que o amparo às mulheres que tentam sair da violência seja prioridade, e não os sentimentos masculinos. E estamos junto com as feministas socialistas brasileiras, fazendo organização popular e trabalho de base, lutando pelos direitos das mulheres.

Defendemos o feminismo não modificado. Quem tem medo do feminismo radical teme a perda do poder, do controle ideológico sobre o movimento de mulheres. É perfeitamente possível discordar de uma ou outra posição que defendemos, mas é necessário separar discordância de ódio de classe. Quem odeia o feminismo radical odeia o feminismo, sem exceções. E quem odeia o feminismo odeia as mulheres

Lutamos para destruir o patriarcado e pela total libertação da mulher de todas as formas de opressão e exploração. Trabalhamos pelo fim da pornografia, da prostituição, do gênero e da beleza. Defendemos a ciência e a liberdade de expressão em favor de uma sociedade secular e de pluralidade de ideias. Somos inequivocamente de esquerda, anticapitalistas. Nosso projeto político é antirracista. Defendemos a autonomia política e intelectual das mulheres. Estamos aqui para falar o que muitas pensam, mas têm medo de dizer em público.

Somos as blogueiras radicais.

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29 comentários em “Quem tem medo do feminismo radical?

  1. Eu adorei o manifesto. Estudado e conciso.

    O único ponto que pra mim pega é da ordem mesmo da palavra, quando mencionada a “beleza”. Além de ser uma isca fortíssima para o cyberbullying, acho que a escolha da palavra em si soa equivocada (eu claramente sei que vocês estão falando da indústria da beleza, e que beleza por si só costuma ser uma outra forma de chamar). Beleza compreende uma grande série de coisas, e seu conceito de uma cultura pra outra é absolutamente variável. No contexto em que vocês mencionam experiências radicais em outros países, acho que cabe salientar esse aspecto. O problema é só por conta dessa escolha lexical, que pode agregar pouco e seria facilmente resolvido com o acréscimo do “indústria” supramencionado.

    No mais, tô junto, e é sempre bom ver vozes radicais emergindo 💪

    1. Ana, nosso blog acabou de nascer e as posições vão ficando mais claras com o passar do tempo. Eu tava escrevendo aqui que “como a gente sempre diz, o pessoal é político”, mas a verdade é que ainda não escrevemos isso nenhuma vez no blog! Hahahaha

      Quando a gente fala beleza, não estamos falando das pessoas consideradas belas. Queremos dizer a beleza mesmo, que é uma instituição social de controle da mulher, que torna os corpos em imagens e produtos de consumo e adoece tantas de nós. Não cabe bullying! Mas é nosso dever romper com isso, confrontar, e destruir. Não queremos um padrão de beleza reformado, mais inclusivo, queremos o fim dele. Queremos uma sociedade em que a função da mulher não seja a beleza. A indústria é só *um* aspecto dessa instituição, ela influencia na cultura, no afeto, na sexualidade e define a própria feminilidade e o papel social do sexo feminino.

      Contra a beleza! Pela libertação das mulheres! 🔥🔥🔥🔥🔥🔥

    1. Oi! Você tá responsável por essa articulação aqui no Brasil? Sabemos que já tem versão em português brasileiro traduzida, e a gente tem uma seção de “história do feminismo radical” programada pro site, queremos incluir a Declaração, na íntegra, com link pro site original. O que acha? Se puderem escrever um texto pro blog explicando um pouco da história da declaração e da chegada dela no Brasil, a gente publica junto! Importantíssimo o trabalho de vocês! 🔥🔥🔥

  2. ei João! se você quiser explicar como um blog elimina uma categoria inteira de pessoas a gente tá aqui pra ouvir – se você tiver realmente revelado esse segredo, a gente gostaria muito de aplicar essa metodologia pra eliminar toda a burguesia. abração!

  3. Foi difícil encontrar, pois está bem escondido na internet, mas finalmente cheguei aqui! Seria muito útil se tivesse uma lista dos perfis públicos de grupos de feminismo radical atuantes para as solitárias como eu. A propósito, acho que devíamos começar a adotar o termo “feminismo crítico de gênero”, como está acontecendo nos movimentos na Inglaterra, Canadá e EUA.

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