O que é autoginefilia?

Nesta semana, fizemos uma enquete no nosso Twitter (aproveita e siga o @BRadicais por lá) para nossas leitoras escolherem o texto que queriam ver publicado aqui no blog. Venceu o artigo “Pinto feminino, o teto de algodão e a guerra cultural contra lésbicas e mulheres”, que já está disponível. Só que decidimos falar sobre os outros temas propostos também e, entre eles, está a autoginefilia. Mas o que é isso? Onde vivem os autoginefílicos? Como se alimentam? Você lê, agora, no Blogueiras Radicais! 😉

O que é autoginefilia?

por Valéria Sólamento

“O momento em que me vi totalmente depilada na frente do espelho foi emocionante. Foi como me ver pela primeira vez. É mais do que um prazer, é quase um êxtase. Cheguei a ter ereção”. Essa foi a declaração que o cartunista e chargista Laerte Coutinho concedeu à Rolling Stone ao lembrar da primeira vez em que se travestiu. Sim, nós sabemos, esse relato provoca desconforto. Mais do que isso, mostra que, ao utilizarem peças de roupa e acessórios e ao adotarem comportamentos ditos femininos, homens não só buscam experimentar a sensação de se tornar ou de ser uma mulher  (o que eles consideram que seja uma, né?) como sentem prazer sexual ao fazê-lo.

Laerte começou como crossdresser em 2009, aos 58 anos de idade. Hoje, aos 69, se apresenta como mulher trans; também chegou a se intitular travesti. Para ele (e aqui no Blogueiras vamos usar os pronomes masculinos, por motivos óbvios), existe “uma necessidade imperiosa de perscrutar e vivenciar os códigos femininos. Há ocidentais que se deleitam em investigar o Oriente. Experimentam comidas exóticas, fazem ioga, visitam a China. Da mesma maneira, por que um homem não pode empreender uma viagem radical pelo planeta insondável das mulheres?”.

A linguagem que ele escolhe pra falar da sua “transição” é muito reveladora: “planeta insondável das mulheres”. Ele atesta, assim, sua total falta de familiaridade com a classe de seres humanos que compõem mais da metade da população e que ele conhece desde o nascimento – incluindo aquela que o gestou – e com quem dividiu salas de aula, espaços de trabalho, almoços, jantares e longas conversas (espera-se, a menos que ele seja realmente um misógino que nunca deu atenção às mulheres em seu entorno). Como alguém que admite que mulheres, para ele, são tão exóticas, praticamente extraterrestres, pode se “identificar como” uma? Qual o sentido de se afirmar que alguém que aparentemente não tem a mais vaga ideia do que significa ser mulher… seja ele mesmo uma mulher? Pior, uma mulher igual a qualquer outra, sem diferença nenhuma?

E o que isso tem a ver com autoginefilia? Esse conceito — também caracterizado como uma parafilia — foi cunhado, em 1989, pelo especialista em estudos sobre sexualidade humana Ray Blanchard para classificar “mulheres trans” (leia-se, aqui, homens) que ficam sexualmente excitados com a ideia ou a imagem de si como mulher. São atraídos sexualmente por mulheres, mas também podem ser bissexuais ou assexuais. Se afirmar uma “mulher trans lésbica” é um objetivo secundário e parte da lógica de ser atraído por mulheres e querer se tornar uma. Além disso, tendem a transicionar quando mais velhos, muitas vezes após viverem vidas tipicamente masculinas, com esposas, filhos e empregos em áreas dominadas por homens. Lembra da declaração de Laerte que citamos lá em cima? Pois é. 

Blanchard classificou outro grupo de mulheres trans: os androfílicos (homossexuais) transexuais são aqueles que se atraem exclusivamente por homens e são femininos no comportamento e na aparência. Começam o processo de transição antes dos 30 anos. Mais do que reforçar e reproduzir estereótipos estéticos e de comportamento femininos, os autoginefílicos se imaginam como mulheres e experienciam esse lugar para satisfazer os próprios desejos. Ser mulher, portanto, é um fetiche, é um experimento erótico que se manifesta por meio do vestuário, da maquiagem, dos trejeitos ou dos seios siliconados como os de Ana Carolina Apocalypse, a nova sensação da web.

Um senhor de idade põe uma prótese enorme de silicone e posta foto de sutiã na internet, em público, e é exaltado por isso. Em outras épocas, o caráter sexualmente explícito dessas manifestações faria com que ele fosse execrado, e não celebrado.

Um conceito que coloca em evidência o fetiche masculino provocaria controvérsias, é claro. Segundo o pesquisador, transativistas (e aliados) afirmam que a autoginefilia não existe, e essa negação tornou-se um princípio do ativismo trans moderno. Para ele, os ativistas trans de hoje reformularam o transexualismo/transgenerismo como um problema político, e não como um problema clínico. 

Autoginefílicos são a maioria absoluta dos “mulheres trans”

Outro dado apontado por Blanchard é que, em 1987, os casos de autoginefílicos já eram maioria, chegando a 60%. Em 2010, a proporção atingiu 75% e pode ser maior agora. Para Blanchard, o que mudou foi “a proporção de trans autoginefílicos que ‘saíram do armário’ para suas famílias, amigos e empregadores, e não o número total de trans autoginefílicos”. Quarenta anos atrás, a decisão de um autoginefílico de fazer a transição para o papel social feminino muitas vezes tinha consequências negativas graves nas esferas pessoal e de emprego. Agora, é mais provável que essa decisão faça com que sejam elogiados por sua “coragem”, obtendo inclusive patrocínios e vantagens financeiras, do que criticados por egoísmo, irresponsabilidade ou misoginia. A realidade apontada por esses números difere muito das narrativas de vitimismo construídas pelo transativismo, que pinta “mulheres trans” como pessoas em extremo sofrimento mental e vulnerabilidade social, e que precisam de apoio para transicionar e aceitação irrestrita para não suicidarem.

“Viver como mulher”, ou seja, encenar o fetiche 24h por dia e em público, é uma manifestação extrema de autoginefilia

E não é isso que vemos acontecer na prática? Podemos citar figuras públicas midiáticas cujas transições foram amplamente celebradas. Laerte Coutinho, por exemplo, passou quase 60 anos de sua vida como homem e consolidou sua carreira de cartunista e chargista se apresentando como um – lucrando em cima, inclusive, de piadas que faziam apologia ao estupro. Ao se tornar crossdresser e, posteriormente, mulher trans, foi aclamado. “Lerte-se” é palavra-chave, como indica o documentário produzido pela Netflix sobre sua trajetória. 

O professor e ativista Eduardo Salabert (Duda Salabert) é outro exemplo: após anos atuando na educação e presidindo a Transvest, uma ONG que oferece cursos pré-vestibular gratuitos para travestis e transexuais, se assumiu mulher trans há cerca de três anos. Em 2018, foi a primeira “mulher trans” a disputar o Senado. Recentemente, desistiu de sua pré-candidatura à Prefeitura de Belo Horizonte (MG) nas eleições municipais deste ano por uma aliança com a deputada federal Áurea Carolina, que deve disputar o pleito. Além de ter alavancado sua carreira política, Salabert também tem ocupado espaços destinados às mulheres lésbicas, já que se considera uma “mulher trans lésbica”.

É possível citar, ainda, o caso de Ana Carolina Apocalypse, que ganhou fama no Twitter. José Francisco, seu nome de registro, fez a transição em 2017, aos 59 anos. Seu sucesso foi tamanho que nesta quinta-feira, 16, tornou-se influenciador da Nívea (e, em breve, vamos publicar um texto sobre ele, fique ligada!). As pessoas tendem a louvar quem, mesmo em idade avançada, constrói essas ficções de “autenticidade” que conversam também com as ilusões de gênero que compõem a visão de mundo da maioria das pessoas que se consideram progressistas. “Se assumir trans”, para muitos, parece ser a receita para saltar do anonimato ao reconhecimento. Nesse caso, especificamente, o que o público se recusa a enxergar é a fixação e a fetichização que Ana Apocalypse tem para com as mulheres lésbicas.   

Mulheres podem ser autoginefílicas?

A autoginefilia é aplicada nesses moldes em MtFs, sigla para Male to Female ou, no português, Masculino para Feminino, referindo-se a homens que transicionam para mulheres. Blanchard é enfático ao dizer que não existem pessoas do sexo feminino que sejam autoginefílicas. Segundo o pesquisador, a noção de que as mulheres de nascimento são eroticamente excitadas, e às vezes até se masturbam, pelo pensamento ou imagem de si mesmas como mulheres pode parecer viável se considerarmos somente fantasias genéricas e convencionais de ser uma mulher bonita e atraente aos olhos de homens ou mulheres. 

Para ele, é muito menos viável quando consideramos as várias outras maneiras pelas quais alguns homens autoginefílicos se simbolizam como mulheres em suas fantasias de masturbação. Os exemplos que ele coletou incluem: fantasias sexuais relacionadas à menstruação e rituais masturbatórios que a simulam; usar supositório enquanto imagina que o ânus é uma vagina e o supositório é uma ducha vaginal; ajudando a empregada a limpar a casa; sentado em uma aula para meninas na escola; tricô na companhia de outras mulheres; e andando de bicicleta para meninas. “Esses exemplos argumentam que as fantasias sexuais autoginefílicas têm um sabor fetichista que as torna qualitativamente diferentes de qualquer ideia superficialmente semelhante com mulheres de nascimento”, pontua.

Apesar de Blanchard abordar a autoginefilia no campo clínico, consideramos que essa conduta tem, sim, impacto nas esferas política e social. O transativismo tem tentado conduzir e dominar o debate sobre gênero, silenciando quem vai contra essa lógica de apagamento, exclusão e fetichização de nossos corpos e nossas opressões. Precisamos disputar esses discursos sem que a discussão seja inviabilizada e desconsiderada sob o argumento de “transfobia” e/ou seja acusada de conservadorismo. Ao que tudo indica, a visão que esses homens que escolhem “viver como mulheres” sobre nós é que é extremamente conservadora, baseada em estereótipos de feminilidade impostos, inclusive, pelos próprios homens, e que muitas mulheres rejeitam instintivamente ou por conta do feminismo. 

Ser “mulher trans” tem colocado homens em um patamar impossível de ser questionado, permitindo que eles acessem espaços femininos (que em sua fantasia de gênero, servem não para “validar a identidade”, mas para satisfazer um fetiche) e transformem leis para lhes acomodar, destruindo direitos que foram conquistados pelas mulheres com muita luta. É como se a forma que eles viviam antes, considerando a socialização masculina e a posição de poder que ocuparam desde o nascimento, não importasse mais. Como se um homem com uma prótese de silicone fosse um ser superior e de luz, não só incapaz de oprimir por meios objetivos como vítima de todas as opressões, portanto impossível de ser questionado em seu “local de fala” supremo. 

A realidade é que seu ativismo e a forma que escolhem viver têm pouco de feminino e de “como mulher”, e muito de masculinidade e poder. Não se enganem pelas unhas pintadas, os peitões de atriz pornô e as camadas de maquiagem. Um homem em pele de mulher ainda é um homem – e não deixa de ser safado, escroto e predatório por isso. A misoginia não desaparece com a transição para uma aparência feminina, e os pronomes “corretos” não disfarçam o discurso tão descaradamente antifeminista. 

Nossa ânsia enquanto mulheres de acudir aqueles que se dizem em sofrimento tem transformado o movimento de libertação que construímos com tanto custo e o tornado irreconhecível. Somos acusadas de crimes de pensamento por não aceitar automaticamente tudo que dizem, e somos cada vez mais coagidas a aceitá-los e a incluí-los em nossas reivindicações e em nossos espaços. A prática da autoginefilia é incompatível com a superação da misoginia. Se a ideia que um homem tem do que é “ser mulher” é construída completamente pela ideologia patriarcal, tudo que ele faz para “se tornar” ou “transicionar” não faz nada senão reafirmá-lo enquanto homem, apesar da aparência. Autoginefílicos não são mulheres. Repitam comigo, em voz alta, para tomarmos coragem juntas: autoginefílicos não são mulheres. Aceitar sua fantasia é abandonar qualquer capacidade de definirmos a nós mesmas. Chega.

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3 comentários em “O que é autoginefilia?

  1. “Um senhor de idade põe uma prótese enorme de silicone e posta foto de sutiã na internet, em público, e é exaltado por isso. Em outras épocas, o caráter sexualmente explícito dessas manifestações faria com que ele fosse execrado, e não celebrado.”

    De verdd, parece, da maneira como foi colocado, que no passado era melhor. Tô viajando?

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